Igreja Católica

Pai de aluno abusado na Espanha denuncia exclusão de encontro com papa Leão XIV

Filho de Juan Cuatrecasas sofreu violência sexual aos 13 anos em escola católica da ordem Opus Dei. Em entrevista ao Correio, ele criticou a forma como a Igreja silenciou organizações de defesa das vítimas e a ausência de ONGs em encontro com Leão XIV

O pai de uma vítima de abusos sexuais cometidos por um numerário (membro leigo ou sacerdote que assume um compromisso de disponibilidade apostólica e, em regra, vive o celibato) do colégio católico da Opus Dei em Leioa, na Espanha, Juan Cuatrecasas, lamentou ao Correio que a Igreja espanhola decidiu "vender" seu próprio relato a Leão XIV.

O filho do ativista tinha entre 13 anos quando foi abusado. Porta-voz da associação Infância Roubada, Cuatrecasas acusou a Igreja de ter criado duas iniciativas que considera fracassadas — o Plano Priva e o Programa Repara. "Não passam de dois fracassos, em comparação com a magnitude do problema, disfarçados de 'sucessos'. Ainda assim, conseguiram impor essa narrativa", declarou.

Ele e outros familiares e vítimas de pedofilia na Igreja também condenaram o fato de não terem sido convidados para o encontro que Leão XIV terá com algumas das associações de sobreviventes de abuso. A reunião deve ocorrer nesta segunda-feira (8/6), dentro da agenda da visita de Robert Prevost a Madri. 

"As autoridades eclesiásticas eliminaram, de forma sumária, as associações formadas pelas verdadeiras vítimas, silenciando-as e substituindo suas vozes por uma versão tendenciosa e controlada da realidade. Tudo fica em casa. Como diz o ditado: 'Quem cozinha, come'", ironizou Cuatrecasas.

O porta-voz da ONG disse acreditar que Leão XIV seja um pontífice comprometido com a política de "tolerância zero" iniciada pelo papa Francisco. "O que ocorre é que a Igreja Católica espanhola é negacionista, tem uma hierarquia na conferência episcopal que nos tornou a vida impossível. Eles colocaram todo o tipo de travas, inclusive ao acordo entre a Igreja e o Estado para indenizar as vítimas. Não confiamos na conferência episcopal espanhola",  acrescentou.

Ainda segundo Cuatrecasas, a Igreja mentiu sobre o encontro entre as vítimas e o papa. "Não havia nenhuma previsão de reunião. Hoje (domingo) pela manhã, divulgaram um comunicado no qual afirmavam que o papa somente veria as vítimas que aceitaram um plano de reparação apresentado pela Arquidiocese de Madri."

Arquivo pessoal - Juan Cuatrecasas, porta-voz da associação Infância Roubada

Cuatrecasas contou que, depois dos abusos cometidos contra o filho, sua família precisou mudar de região. "Tivemos que começar uma vida quase do zero, pois sofremos ameaças. Com a ajuda de uma advogada, conseguimos 11 anos de condenação, em primeira instância, em audiência realizada em Bilbao. Posteriormente, a condenação foi reduzida a dois anos, pois o pederasta era sobrinho de um político de alto escalão", disse.

"Com muita ajuda, meu filho tem uma vida bastante convencional. Ele estudou direito e fez mestrado. Aos 28 anos, tem uma vida muito mais estável. Mas outras vítimas não tiveram a mesma sorte", lamentou.

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