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Bebê nasce entre escombros do duplo terremoto que abalou a Venezuela

Os médicos haviam dito à mãe de primeira viagem que ela não poderia ter um parto normal por possuir a pelve estreita. Uma cesariana estava marcada para a semana seguinte, mas as contrações começaram

 Rescuers rest on the rubble of a collapsed building in Caraballeda, La Guaira state, Venezuela, on July 7, 2026, following the June 24 earthquakes. The powerful twin earthquakes that struck Venezuela on June 24 have left at least 3,685 dead and nearly 17,000 injured, the Venezuelan government said in its latest official update on July 7. (Photo by MARTIN BERNETTI / AFP)
       -  (crédito:  AFP)
Rescuers rest on the rubble of a collapsed building in Caraballeda, La Guaira state, Venezuela, on July 7, 2026, following the June 24 earthquakes. The powerful twin earthquakes that struck Venezuela on June 24 have left at least 3,685 dead and nearly 17,000 injured, the Venezuelan government said in its latest official update on July 7. (Photo by MARTIN BERNETTI / AFP) - (crédito: AFP)

Os médicos haviam dito a Eliana García que seu primeiro filho teria de nascer por cesariana. Mas, quando as contrações começaram antes do previsto enquanto ela se abrigava com a família do violento terremoto duplo que sacudiu a Venezuela, não lhe restou alternativa senão dar à luz.

Grávida de 38 semanas, García correu para um campo de beisebol na tarde de 24 de junho, quando dois fortes terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram o estado de La Guaira, na costa venezuelana.

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Ali, ela e dezenas de pessoas buscaram refúgio para evitar as ruas ladeadas por prédios que desabavam como um pesado efeito dominó, quando a jovem de 19 anos sentiu um líquido escorrer entre suas pernas.

Os médicos haviam dito à mãe de primeira viagem que ela não poderia ter um parto normal por possuir a pelve estreita. Uma cesariana estava marcada para a semana seguinte, mas as contrações começaram.

"Sentia uma vontade enorme de fazer xixi. Mas eu fazia força e fazia força, e como não saía nada, entendi que o bebê estava vindo", contou García à AFP em um abrigo.

Ela foi deitada sobre o único lençol que conseguiram retirar em meio à correria, num gesto instintivo de proteção por causa do estágio avançado da gravidez.

Era a madrugada de 25 de junho. No escuro e descalça, sua cunhada, Julia Di Giuseppe, saiu em busca de ajuda.

Ao redor delas, a cidade costeira que, em circunstâncias normais, estaria celebrando a festa de São João, era um cenário de gritos, choros, socorristas escalando os escombros para resgatar pessoas presas em edifícios e motocicletas ziguezagueando entre os destroços.

Sem água nem luz

Ninguém atendeu aos pedidos de socorro de Di Giuseppe, que voltou ao campo de beisebol a tempo de ouvir que sua cunhada estava dando à luz.

"Foi então que implorei a uma paramédica que estava procurando seus familiares entre os escombros, e ela resolveu ajudar", conta a mulher de 37 anos.

Sem água nem luvas, e apenas com álcool em gel, a paramédica auxiliou o parto iluminada pelas lanternas dos celulares que ainda tinham bateria.

García, cercada por dezenas de pessoas que esqueceram por alguns segundos seus próprios dramas, começou a fazer força... em meio às réplicas do terremoto duplo.

O bebê, um menino para surpresa da família, que esperava uma menina, nasceu, mas não chorou. Uma salva de aplausos o teria feito chorar, ou pelo menos é assim que Di Giuseppe se recorda.

"Ali não tínhamos como cortar o cordão umbilical, e as pessoas começaram a tirar os elásticos de cabelo, amarramos o cordão em duas extremidades e, com bastante álcool, conseguimos cortá-lo com uma tesourinha de unhas."

García não se lembra de mais nada a partir daquele momento. Seus familiares a carregaram como puderam: primeiro nos braços, depois em uma carroça motorizada e, por fim, em uma ambulância que a levou a um hospital público.

Sobrecarregados pelos feridos dos terremotos, os médicos a atenderam, mas não havia vacinas para imunizar o bebê.

Toda a família foi transferida para uma escola pública que serve de abrigo em La Guaira, a região costeira mais atingida pelo terremoto duplo, que já soma mais de 3.600 mortos, segundo números oficiais.

Di Giuseppe cai em prantos ao olhar para o bebê enquanto a mãe o amamenta: "Salvamos ele, mas perdemos nossas duas sobrinhas."

As meninas, de 14 e 11 anos, foram encontradas entre os escombros do conjunto habitacional onde moravam. Desfiguradas por toneladas de concreto, o pai as reconheceu apenas pela pulseira prateada que a mais velha usava no braço.

A mãe das meninas, que é irmã de García, e um sobrinho continuam desaparecidos, algo que não dá paz à família.

Eliana García já havia escolhido o nome daquela que acreditava ser sua primeira filha. Mas, caso as previsões estivessem erradas e nascesse um menino, pretendia chamá-lo de Daniel Eduardo.

"Mas minha irmã sempre dizia para eu colocar Gael", soluça a jovem. "Então, por causa dela, decidi chamá-lo de Gael Jesus. É a minha maneira de mantê-la aqui."

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PR
postado em 07/07/2026 21:47 / atualizado em 07/07/2026 21:48
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