
Segundo muitos torcedores, posts de redes sociais e certos cantos da internet, a Fifa quer que a Argentina e Lionel Messi vençam a Copa do Mundo — e a arbitragem está toda envolvida no esquema.
Como árbitros, somos obrigados a lidar o tempo todo com a ideia de que fazemos parte de algum tipo de teoria da conspiração.
E isso é um absurdo. Não tenho como enfatizar isso o suficiente.
Tive a sorte de ser árbitro assistente em duas Copas do Mundo, em 2010 e 2014, como parte de uma equipe que tinha Howard Webb como árbitro, com Michael Mullarkey na outra linha lateral.
Éramos independentes e tomávamos nossas próprias decisões. Garanto a você que isso não mudou.
Os árbitros vêm dos quatro cantos do mundo, todos de federações diferentes, de confederações distintas, e a Fifa basicamente toma emprestados os serviços deles por seis semanas.
Eles são completamente separados da Fifa, ficam em um centro de treinamento à parte.
Lamento decepcionar os teóricos da conspiração, mas posso garantir que não existem reuniões clandestinas entre o comitê executivo da Fifa e os árbitros.
A gente não vê nenhum dos engravatados.
Basicamente, você trabalha todos os dias — treino físico, análise de lances em vídeo, avaliação das partidas do dia anterior.
São dias intensos. Não sobra muito tempo livre e, assim que você termina uma escalação, já está se preparando para a próxima.
A ideia de que os árbitros participam de algum tipo de plano arquitetado para garantir que Messi chegue à final é, obviamente, falsa.
Existe, aparentemente, um boato de que a FIFA queria uma final entre Argentina e Espanha para promover uma espécie de "passagem de bastão" entre Messi e Lamine Yamal.
Pessoalmente, eu nem sabia da existência de uma foto do Messi com Lamine Yamal quando este ainda era bebê. Imagino que o mesmo valha para muitos dos árbitros desta Copa do Mundo.
Sim, como árbitros, podemos cometer erros. Isso faz parte da natureza humana. E, às vezes, pode parecer que as decisões estão sendo tomadas contra o seu país ou o seu clube. Mas isso é apenas consequência de um jogo dinâmico, protagonizado por seres humanos; não recebemos ordens para forjar um resultado predeterminado.
Também não arbitramos com base no nome estampado nas costas do jogador.
Howard e eu trabalhamos juntos em um jogo da Liga dos Campeões, alguns anos atrás. Era uma partida entre Barcelona e Bayern de Munique, em casa para o Barcelona — um jogo enorme da competição.
Messi caiu na área, não marcamos o pênalti e a partida seguiu.
Voltamos para a Inglaterra no dia seguinte e analisamos a partida e as imagens, como fazíamos após todos os jogos.
Olhando para trás, provavelmente foi pênalti — é provável que tenhamos errado —, mas nossa decisão foi tomada com honestidade.
Você simplesmente toma a decisão, independentemente dos times ou de quais jogadores estão envolvidos.
Você avalia se houve falta em um jogador. Muitas vezes, não há nem tempo para identificar quem são os jogadores envolvidos; você vê apenas uma camisa vermelha contra uma camisa azul.
Teorias da conspiração e acusações de parcialidade causam dano real e levam a ataques contra os árbitros. Pode ser difícil de lidar.
Pierluigi Collina, que supervisiona todos os árbitros da Copa do Mundo, teve de sair em defesa da arbitragem depois da vitória da Argentina por 3 a 2 sobre o Egito nas oitavas de final. Ele destacou a integridade e a independência dos árbitros.
O Egito tinha feito acusações graves de que o árbitro Francois Letexier e sua equipe haviam favorecido deliberadamente a Argentina. De que, de alguma forma, teriam recebido instruções para agir contra seus instintos naturais.
Collina tinha razão ao dizer que esse tipo de narrativa pode levar a ameaças contra a família de um árbitro, e eu mesmo já vi isso acontecer.
Tenho muita sorte de que isso não tenha acontecido comigo pessoalmente, mas acho que em parte é porque sou árbitro assistente, e não árbitro central.
Trabalhamos na final entre Espanha e Holanda em 2010. Um dia de muito orgulho para todos nós.
O jogo, que a Espanha venceu por 1 a 0, foi extremamente difícil de arbitrar. Foram 14 cartões amarelos e o zagueiro holandês Johnny Heitinga foi expulso. Nigel de Jong também poderia ter visto o vermelho.
Houve muita crítica por parte do técnico da Holanda, Bert van Marwijk. É com isso que você tem de lidar simplesmente por tomar decisões honestas.
Às vezes é pior do que isso. Nossos próprios árbitros ingleses nesta Copa do Mundo, Michael Oliver e Anthony Taylor, [já receberam ameaças em anos anteriores](https://www.bbc.co.uk/sport/football/articles/cdryk7200n0o).
Isso é totalmente inaceitável, e é agravado por esses boatos infundados que questionam a imparcialidade do árbitro.
Eu torço pela Inglaterra, eu amo a Inglaterra, e obviamente perdemos para a Argentina.
O árbitro foi, na minha opinião, um pouco complacente demais nos primeiros 25 minutos. Mas, no fim das contas, o motivo de não estarmos na final da Copa do Mundo não é o árbitro.
É realmente frustrante ouvir falar de teorias da conspiração.
Não consigo pensar em muitas outras profissões no mundo em que uma única pessoa carregue toda essa pressão.
O árbitro toma decisões que valem milhões de libras — e tem um segundo para se decidir.
Erros foram cometidos em campo, é claro que foram. Mas eles não somam uma conspiração.
Na fase de grupos, acho que o gol da Alemanha contra o Equador deveria ter sido anulado por jogo perigoso com o pé alto. Gana poderia ter tido um pênalti a favor contra a Inglaterra por uma entrada mal calculada de Ezri Konsa. E, quando estava vencendo a Escócia por 1 a 0, o Brasil marcou um gol que deveria ter sido validado, mas foi anulado.
Foram 103 partidas até agora. Isso equivale a praticamente 10 rodadas da Premier League, não é? Então, claro que vão acontecer erros. É quase impossível passar por tantos jogos sem nenhum.
O árbitro esloveno Slavko Vincic vai comandar a final de domingo.
Será o ápice da carreira dele. Basta ver a reação emocionada quando Collina leu seu nome na reunião de árbitros outro dia.
Tendo tido a sorte de trabalhar em uma final de Copa do Mundo, garanto a você que Vincic não vai se importar nem um pouco com quem vai vencer.
Tudo o que ele vai esperar é o que todo árbitro espera: sair de campo sem nenhuma decisão errada que impacte o resultado.
Será só com isso que ele vai se importar.
Todas essas teorias da conspiração são falsas.
A única coisa na sua cabeça, garanto a você, é acertar as decisões.
*Darren Cann falou com Dale Johnson, da BBC Sport.
- Messi é maior que Maradona? Os argumentos que colocam o jogador no topo — e, para alguns, à frente de Pelé
- Os vencedores (e os perdedores) econômicos da maior Copa do Mundo de todos os tempos
- Quem é o árbitro que vai apitar a final da Copa do Mundo 2026

