Copa do Mundo

Como Messi ensinou a Argentina a chorar e fez história na Copa

Messi participou da sua sexta Copa do Mundo, levou a Argentina à sua segunda final consecutiva e é o segundo maior artilheiro do torneio. Os números só confirmam o brilho do jogador argentino.

As lágrimas de Lionel Messi, um dos grandes vencedores da história do futebol, mesmo tendo sido derrotado neste domingo (19/7) -  (crédito: Getty Images)
As lágrimas de Lionel Messi, um dos grandes vencedores da história do futebol, mesmo tendo sido derrotado neste domingo (19/7) - (crédito: Getty Images)

Parece que Lionel Messi ensinou os argentinos a chorar.

Primeiro, de infinita emoção, ao ganhar o título da Copa do Catar, em 2022. E, no domingo passado (19/7), de suprema dignidade, quando a Argentina perdeu para a Espanha a final da Copa do Mundo da Fifa de Futebol Masculino de 2026.

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Messi fez história neste Mundial. Ele não ficou com o título, nem recebeu menção, nem ganhou nenhuma placa.

Mas ele marcou oito gols e deu quatro assistências, participando de 12 dos 19 tentos marcados pela sua seleção em sete partidas.

Com 39 anos, ele liderou a Argentina para sua segunda final consecutiva do Mundial, a terceira na sua carreira como jogador.

Chegando à idade em que a maioria das lendas se aposenta, Messi continua sendo ovacionado, como ocorreu frente a uma das tribunas do MetLife Stadium, em Nova Jersey, nos Estados Unidos.

O que parecia impossível depois da passagem pela seleção argentina de um certo Diego Armando Maradona (1960-2020) acabou acontecendo com outro camisa 10 do país.

O que Messi fez neste Mundial foi ensinar que o futebol pode ser vivido de outra forma, diferente do famoso número 10 que o antecedeu. Ele demonstrou que é possível controlar as emoções no futebol.

Lionel Messi, chorando
Getty Images
As lágrimas de Lionel Messi, um dos grandes vencedores da história do futebol, mesmo tendo sido derrotado neste domingo (19/7)

Algo que ele sempre sustentou foi o lema de nunca se render. Nunca se dar por vencido.

Na Copa de 2026, a Argentina teve de lutar para sair de placares desfavoráveis em três ocasiões na fase do mata-mata.

A primeira, frente a Cabo Verde, que empatou a partida duas vezes; depois, contra o Egito, que vencia por dois gols de diferença; e, por fim, frente aos ingleses, que pareciam prestes a ir para a final até os 39 minutos do segundo tempo, vencendo por 1 a 0.

Foram vitórias conquistadas com as emoções sob controle, sem delírios, apenas controlando a bola.

"É uma loucura como tudo está acontecendo", declarou Messi à imprensa, após a semifinal contra a Inglaterra.

"Sinceramente, antes de começar o mundial, eu confiava neste grupo e sabia que estaríamos entre os quatro semifinalistas, que iríamos disputar. Agora, estamos na final."

Seu enorme prestígio e seus feitos durante essas cinco semanas de torneio, mesmo com quase 40 anos, fez com que poucos se atravessem a dizer que este seria seu último Mundial. Mesmo quando ele próprio descartou participar de outra Copa do Mundo.

Mas, se esta for a cena final da sua fascinante carreira, ela não poderia terminar de melhor forma: com as lágrimas após o apito final e o povo argentino gritando seu nome em coro, como se fosse o hino nacional.

A Bola de Ouro de melhor jogador do torneio ficou merecidamente com o capitão espanhol Rodri, mas o desempenho de Messi nesta Copa ficará nos livros de história.

Ninguém permaneceu no auge do futebol por tanto tempo, com tanta regularidade. Ele fez da Copa do Mundo a sua casa.

Um Mundial inesquecível

No dia 18 de dezembro de 2022, no Estádio Lusail, no Catar, Messi conquistaria o único título que faltava em sua carreira — e o mais desejado de todos: ser campeão do mundo pela sua seleção.

Foi o capitão Messi que levantou o troféu e o levou a Buenos Aires, em meio à maior aglomeração de argentinos já registrada na história do país.

Aquele seria o melhor momento possível para se despedir do futebol: com 36 anos, após conquistar tudo em nível de clubes, uma Copa América e, por fim, um Mundial.

Lionel Messi vestido de azul.
Getty Images
Messi liderou a Argentina contra a Inglaterra, em uma vitória que ficará nos livros de história do futebol

Mas não foi assim. Messi queria mais.

Não com o afã das crianças, mas com a maturidade pacífica que ele havia conquistado nos últimos anos. Passo a passo.

Primeiro, foi a Copa América de 2024. Ele disputou o torneio com a mesma energia de sempre e repetiu o título de 2021.

E, embora não estivesse mais na elite do futebol, a passagem pelo seu clube atual (o Inter Miami, dos Estados Unidos) trouxe certos benefícios, como sua continuidade e competitividade.

Chegou, então, a Copa do Mundo de 2026. A Argentina é sempre a Argentina e Messi também é sempre Messi. Mas ninguém esperava o que aconteceu durante as sete primeiras partidas.

Seu desempenho físico parecia o de um adolescente e sua influência no campo de jogo se aproximava à de Maradona na Copa de 1986, no México.

Mas, naquele Mundial, Diego tinha 25 anos. E Messi completou 39 exatamente durante esta Copa do Mundo.

Foram três gols na estreia frente à Argélia e dois contra a Áustria. Depois, veio um golaço de falta contra a Jordânia e o primeiro frente a Cabo Verde.

Contra o Egito, ele tirou vários truques da cartola. Primeiro, um belo centro para Cuti Romero iniciar a reação. Depois, o gol de empate, que levou à Argentina a uma virada incrível por 3x2.

Mas seu esforço maior veio quando os gols não saíram. Na semifinal contra a Inglaterra, Messi demonstrou por que é considerado uma lenda do futebol.

Perdendo por um gol de diferença, ele procurou todos os espaços possíveis e conseguiu as duas assistências necessárias para levar sua seleção à final.

"Ele é um gênio do esporte", escreveu o jornalista britânico Barney Ronay no jornal The Guardian.

"Ele faz todos os jogadores que estão ao seu redor serem melhores e, por isso, a Argentina é o que é por ele. No estádio, todos se transformam em Messi."

Dentro e fora de campo, a liderança de Messi sobre seus companheiros foi um dos fatores que definiram esta seleção.

Basta ver como eles o esperavam para sair para treinar no campo. Enquanto o capitão não estivesse à frente da equipe, ninguém se movia.

Depois da Inglaterra, veio a final contra a poderosa Espanha, muito rigorosa e organizada.

Sim, a Argentina perdeu. Mas ele voltou a ser Messi e, por isso, chorou no final da partida.

Todos os argentinos choraram com ele. Talvez por saberem que aquela seria a última vez em que eles presenciariam um prodígio de tal natureza vestindo a camisa alviceleste.

Aposentadoria

Messi jogando no campo
Getty Images
Será difícil preencher o vazio de um dos melhores jogadores da história do futebol

Messi já foi questionado várias vezes e a resposta foi sempre a mesma: ele não estará na Copa do Mundo de 2030.

A partida contra a Espanha foi a primeira derrota da sua seleção em uma final desde a Copa América Centenário de 2016, quando a Argentina perdeu para o Chile nos pênaltis.

Desde o final do jogo em Nova Jersey, os argentinos começaram a se sentir órfãos. Um sentimento iminente e desconcertante, dirão muitos torcedores.

Começa ali um novo mundo sem Lionel Messi, que faz parte da seleção principal da Argentina desde 2005, há 21 anos.

E começam também as avaliações sobre o legado de Messi na seleção. Em termos de números, são extraordinários.

Messi é o maior artilheiro da seleção argentina (127 gols) e o jogador que vestiu mais vezes a camisa alviceleste (207 partidas).

Ele é o argentino que mais disputou Copas do Mundo (seis), o que forneceu mais assistências em uma única Copa (12) e o segundo maior goleador da história do torneio (21 gols) atrás de Mbappé (22 gols).

Messi ganhou quatro títulos importantes pela seleção argentina: um Mundial (2022), duas Copas América (2021 e 2024) e uma Finalíssima, frente à Itália (2022).

"Suas lágrimas são as nossas, capitão", escreveu no X a federação argentina de futebol (AFA), como despedida.

"Você nos deu as maiores alegrias das nossas vidas. Obrigado pela entrega, pela magia e por dar a vida até o último segundo. Amamos você para sempre, Leo!"

Foi uma espécie de agradecimento. Mas como se pode agradecer a um jogador que deu tantas alegrias ao seu país?

Talvez com muitas lágrimas.

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BBC
Alejandro Millán Valencia - BBC News Mundo
postado em 20/07/2026 11:11 / atualizado em 20/07/2026 14:59
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