
Pouco depois de vencer os dois degraus e entrar no número 10 de Downing Street, o trabalhista Andy Burnham decretou a primeira medida como 59º primeiro-ministro do Reino Unido: retirar os sem-teto das ruas do país e colocá-los em abrigos. "Trata-se de colocar os valores e os padrões certos no coração do governo", declarou em seu discurso de posse. Aos 56 anos, o novo premiê que teve ascensão meteórica na política britânica como prefeito da Grande Manchester anunciou que tem um projeto de longo prazo para a nação. "Ainda este ano, apresentarei um novo plano para o Reino Unido — um plano de 10 anos —, traçando um caminho desde onde estamos agora até onde acredito que todos queremos que a Grã-Bretanha esteja, independentemente de nossas origens ou de qual partido apoiamos", afirmou.
Ao prometer apresentar as primeiras medidas ainda hoje, Burnham antecipou algumas de suas políticas. "Ajudaremos os mais jovens a ingressarem no mercado de trabalho, ao mudarmos o sistema educacional e ao oferecer-lhes mais apoio, inclusive à saúde mental", disse. "Construiremos mais habitações públicas. Essa é a maneira justa e sustentável de reduzir os gastos com assistência social, cumprir nossas regras fiscais e honrar nossos compromissos de defesa com nossos parceiros internacionais." Segundo o novo primeiro-ministro, o seu governo ajudará as pessoas a viverem bem e construirá um Estado mais voltado para a prevenção, ao "investir no sucesso das pessoas, em vez de pagar pelo fracasso". Outra promessa foi a de construir uma "nova economia", em que os itens essenciais para a vida sejam colocados sob um controle público mais forte.
"Faremos deste momento um ponto de virada para o Reino Unido, promovendo as maiores mudanças dos últimos 40 anos. Um novo modelo político e um novo modelo econômico", declarou Burnham, ao reconhecer "rumos equivocados" tomadas pelo governo na década de 1980 — uma clara referência à primeira-ministra Margaret Thatcher, que comandou os britânicos entre 1979 e 1990. "O poder político foi centralizado; o poder econômico, privatizado; grandes partes do país sofreram desindustrialização, e ainda não se recuperaram", disse o trabalhista.
Com a missão de viabilizar o plano, o gabinete de Burnham começou a tomar forma, após um encontro com o rei Charles III, durante o qual o monarca encarregou-o de formar o governo. A ex-secretária de Relações Exteriores Yvette Cooper foi apontada para liderar a pasta da Saúde; Shabana Mahmood conservou o cargo de secretária do Interior; Ed Miliband assumiu a chefia da diplomacia; e John Healey terá a missão de dirigir as finanças do Reino Unido. Por sua vez, Pat McFadden foi mantido como secretário de Trabalho e Pensões. A ex-secretária de Transporte Louise Haigh ocupará o posto de primeira secretária de Estado.
Em entrevista ao Correio, Anthony Glees, professor emérito da Universidade de Buckingham (a 128km de Londres), explicou que o plano de 10 anos anunciado por Burnham busca transmitir aos eleitores a firme impressão de que deseja um segundo mandato e de que propõe uma mudança realmente significativa, a qual exige uma década para se concretizar. "Ao mesmo tempo, ele demonstra, por meio de suas nomeações ministeriais, uma continuidade surpreendente em relação às políticas do antecessor, Keir Starmer", avaliou. "Quem sabe como seria um 'Plano de 10 Anos' daqui a dois anos? A política é feita de mudanças e é, fundamentalmente, imprevisível."
Segundo Glees, reformar a educação, reindustrializar o Reino Unido e construir moradias ditas "acessíveis" ao longo da próxima década é um plano ambicioso. "Burnham tem razão ao propor grandes mudanças (e todos sabem que elas não podem ocorrer de uma só vez), e um prazo de dez anos poderia concretizá-las — caso sejam viáveis, o que é discutível. Lembremos que Josef Stalin precisou apenas de uma série de Planos Quinquenais para transformar a Rússia. No entanto, o elemento da continuidade demonstra que Burnham também está ciente da necessidade de alicerçar seu plano na estabilidade econômica e de manter, no futuro imediato, o Partido Trabalhista no caminho certo para derrotar Nigel Farage, superando-o, em termos de reformas. Essa é, naturalmente, a prioridade número um — ainda que não declarada — de Burnham: colocar Farage em seu devido lugar", assegurou, ao citar o líder do partido Reform UK.
Para o estudioso, o fato de Burnham ter declarado que sua "primeira instrução" como primeiro-ministro seria acabar com a situação de pessoas dormindo nas ruas foi um sinal claro de que sua proposta geral é o socialismo. O professor de Buckingham sustentou que o reforço à ala remanescente fiel a Starmer é outra forma de dizer que Burnham dispõe de margem de manobra quase nula. Glees lembrou que o líder trabalhista mais radical, Ed Miliband, foi relegado a uma posição em que pouco pode fazer para promover a socialização. "Da mesma forma, manter Mahmood no Ministério do Interior — pasta na qual ela teve um bom desempenho, sendo reconhecida por ter conseguido uma redução de 50% na chegada de migrantes em botes — fortalecerá a credibilidade de Burnham e, ao mesmo tempo, tirará o ímpeto de Farage."
Hiperfoto - Ele teve sete premiês como "colegas de casa"
Ele teve sete premiês como "colegas de casa"
O gato Larry, o felino mais famoso do Reino Unido, recebeu seu sétimo "colega de casa" no número 10 da Downing Street, em Londres, desde que começou a passear pelos bastidores do poder, há mais de 15 anos. "Os políticos vão e vêm; os gatos ficam", sentenciou a conta de Larry no X, @Number10cat, enquanto esperava a chegada de Andy Burnham. E deu instruções: "Larry gosta de tomar o café da manhã às 9h, tomar o brunch às 10h30 e almoçar ao meio-dia, com muitos petiscos entre as refeições. O restante do trabalho é mamão com açúcar". O bichano chegou ao número 10 de Downing Street, residência oficial do primeiro-ministro britânico, em 15 de fevereiro de 2011, quando David Cameron era o premiê. O animal de estimação veio do abrigo de cães e gatos de Battersea, com a missão de caçar ratos na sede do poder. Depois de Cameron, Larry conheceu Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss, Rishi Sunak e Keir Starmer.
TRECHOS // O discurso de posse
"O Reino Unido precisa mostrar ao mundo que podemos recuperar nossa estabilidade; esse é o nosso desafio: fazer a política funcionar, fazê-la funcionar melhor."
"Faremos deste momento um ponto de virada para a Grã-Bretanha, promovendo as maiores mudanças dos últimos 40 anos."
"Ainda este ano, apresentarei um novo plano para a Grã-Bretanha — um plano de 10 anos —, traçando um caminho desde onde estamos agora até onde acredito que todos queremos que a Grã-Bretanha esteja."
"Ajudaremos as pessoas a viver bem, construindo um Estado mais voltado para a prevenção e investindo no sucesso das pessoas, em vez de pagar pelo fracasso."
"Em breve, passarei por aquela porta atrás de mim e darei minha primeira instrução: acabar com a situação de pessoas que dormem nas ruas em nosso país. (...) Colocarei o cuidado com as pessoas no centro de tudo o que eu fizer."
