ELEIÇÕES

Smartmatic: o que é a empresa venezuelana citada em discurso de Flávio Bolsonaro e qual a relação dela com o Brasil

O TSE desmentiu informação divulgada por Flávio de que o Brasil utiliza urnas eletrônicas da empresa venezuelana.

A Smartmatic esteve envolvida nas eleições venezuelanas entre 2004 e 2017, prestando tecnologia e serviços eleitorais ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE) -  (crédito: Anadolu via Getty Images)
A Smartmatic esteve envolvida nas eleições venezuelanas entre 2004 e 2017, prestando tecnologia e serviços eleitorais ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE) - (crédito: Anadolu via Getty Images)

Em um evento com a presença de diplomatas estrangeiros na terça-feira (21/07) em Brasília, o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez acusações sobre as urnas eletrônicas já desmentidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no passado.

Flávio disse que as máquinas brasileiras têm a mesma origem das urnas da empresa venezuelana Smartmatic e que um relatório da CIA mostra que a empresa estaria envolvida em um plano de fraude do governo venezuelano nas eleições de 2012.

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"Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma empresa", afirmou.

O TSE já desmentiu que utilize urnas eletrônicas da empresa venezuelana.

Em nota em seu site, publicada originalmente em 2020 e replicada recentemente, o TSE esclareceu que a Smartmatic nunca forneceu urnas eletrônicas ou softwares utilizados em eleições no Brasil.

"Todo o projeto da urna eletrônica brasileira e do sistema eletrônico de votação foi concebido e é gerido inteiramente pela Justiça Eleitoral do país", diz o TSE.

"Em diversas oportunidades, o TSE reiterou que a empresa Smartmatic não forneceu nem fornece urnas eletrônicas para as eleições brasileiras, tampouco trabalhou na programação desses aparelhos."

Segundo o tribunal, a Smartmatic chegou a participar da licitação para a fabricação de urnas eletrônicas para 2020, mas perdeu para a empresa Positivo.

No passado, a empresa ainda atuou no treinamento de profissionais que prestaram suporte técnico e operacional para as urnas brasileiras.

A Smartmatic chegou a fechar contratos com o TSE em outras ocasiões, mas somente para a prestação de serviços de conexão de dados e voz, e não para o desenvolvimento ou operação da urna eletrônica, segundo o próprio órgão.

A BBC News Brasil procurou a campanha de Flávio Bolsonaro para prestar esclarecimentos sobre a fala do senador e o evento envolvendo diplomatas em Brasília.

Em nota, a campanha de Flávio Bolsonaro disse que não é verdade que o senador tenha questionado a integridade do sistema de votações no Brasil.

"Em sua fala, que é brevíssima neste ponto, o pré-candidato Flávio Bolsonaro afirma expressamente que 'não está questionando o sistema de votação brasileiro' e exorta os diplomatas ali presentes a mandarem o maior número possível de representantes em missões de observação internacional", diz o texto

"Afastada qualquer descontextualização das falas do pré-candidato, sua equipe de pré-campanha reafirma sua integral confiança no sistema eleitoral brasileiro e sua crença irrestrita de que as missões de observação internacional devem ser fortemente estimuladas, pois contribuem para o "aperfeiçoameto do processo eleitoral, ampliando a transparência, a integridade e a confiança pública nas eleições'".

Flávio deu a declaração a representantes de quase 50 países e organizações internacionais no "Debatendo o Brasil", série de eventos reservados entre pré-candidatos e representantes estrangeiros promovida pela Novo Selo Comunicação em parceria com o The Brazilian Report, veículo em inglês voltado a notícias do Brasil para o público internacional.

Durante sua fala, Flávio afirmou que não estava questionando o sistema de votação brasileiro, mas pediu para os países enviarem uma quantidade maior de observadores para acompanhar o processo eleitoral.

"Então o pedido que eu faço a todos aqui, não estou questionando o sistema de votação brasileiro, mas que todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possíveis para as nossas eleições, como sempre fazem, e também pessoas que tenham conhecimento sobre essa tecnologia e como o Brasil pode dar ter eleições mais seguras e transparentes", afirmou.

Em 2023, o TSE condenou o ex-presidente e pai de Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro (PL), à inelegibilidade por 8 anos por causa de uma reunião promovida por ele com embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República.

Na ocasião, a menos de três meses da eleição de 2022, Bolsonaro fez afirmações falsas sobre o processo eleitoral e ministros do TSE. O tribunal considerou que o ex-presidente cometeu abuso de poder e uso indevido dos meios de comunicação.

Urna eletrônica em eleição de 2025 na Venezuela
Anadolu via Getty Images
A Smartmatic esteve envolvida nas eleições venezuelanas entre 2004 e 2017, prestando tecnologia e serviços eleitorais ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE)

O que é a Smartmatic?

A Smartmatic esteve envolvida nas eleições venezuelanas entre 2004 e 2017, prestando tecnologia e serviços eleitorais ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE).

De acordo com a empresa, seus serviços incluíam automação da votação, contagem, transmissão e totalização dos votos, produção, configuração e fornecimento das urnas eletrônicas, software de gerenciamento eleitoral, sistemas de segurança, entre outros.

Ela abandonou o contrato após ela própria denunciar a suspeita de fraude na divulgação oficial dos resultados por parte da Comissão Eleitoral da Venezuela nas eleições de 2017.

Segundo o próprio site da empresa, ela foi fundada na Flórida, nos Estados Unidos, em 2000. Hoje a sede está localizada em Londres, na Inglaterra.

A companhia foi notícia na última semana depois que a Casa Branca postou documentos de uma investigação conduzida pela CIA sobre a capacidade do governo venezuelano de manipular eleições usando a tecnologia das urnas eletrônicas.

O relatório, no entanto, não confirma que a manipulação tenha ocorrido, apenas que era possível de ocorrer.

Segundo a inteligência americana, as autoridades locais tinham "alguma capacidade de manipular sistemas de votação eletrônica" para influenciar os resultados das eleições na Venezuela.

A agência alertou, porém, que não havia evidências definitivas de que tal tecnologia — criada principalmente pela Smartmatic — tivesse sido usada para cometer "fraude eletrônica em larga escala" na Venezuela.

A CIA também determinou que o governo venezuelano não tinha a capacidade de fraudar eleições fora do seu próprio país. "Nem a Smartmatic nem o governo venezuelano tinham a capacidade de manipular o resultado de uma eleição fora da Venezuela", afirma a análise.

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BBC
BBC Geral
postado em 22/07/2026 08:31 / atualizado em 22/07/2026 14:25
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