Guerra no Leste Europeu

OSCE acusa Rússia de militarizar 1,6 milhão de crianças da Ucrânia

Organização para a Segurança e Cooperação na Europa apresenta relatório que aponta sistema de doutrinação imposto por Moscou em territórios ocupados na Ucrânia. Chefe da ONG Bring Kids Back vê "política estatal deliberada"

Cerca de 1,6 milhão de crianças ucranianas estão submetidas à militarização por parte da Rússia em territórios ocupados e 20.610 foram deportadas ou transferidas à força pelas tropas de Vladimir Putin. A conclusão é de um relatório divulgado pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) e apresentado em Viena no âmbito do "mecanismo de Moscou", que investiga violações dos direitos humanos. De acordo com o documento, a Rússia tem substituído a grade curricular das escolas nessas regiões ocupadas, eliminado o idioma ucraniano e preparado os jovens para futuramente combaterem nas fileiras russas. O dossiê cita um programa compulsório impulsionado por Moscou no jardim-de-infância, sob o nome de Razvogory o Vazhnom ("Conversas sobre coisas importantes"), para incorporar narrativas pró-guerra na educação infantil. Ao mesmo tempo, as aulas para cadetes e as orgainizações juvenis militar-patrióticas ampliam a preparação pré-militar.

O documento atesta que o sistema de doutrinação e militarização das crianças ucranianas nos territórios ocupados começou a ser desenvolvido em 2014, quando a Rússia tomou a Península da Crimeia, e acelerou-se depois da invasão em large escala, em fevereiro de 2022. A OSCE concluiu que esse sistema busca alterar a identidade de 1,6 milhão de menores. Em relação às crianças deportadas, muitas são colocadas em "famílias de acolhimento" ou submetidas à adoção de acordo com a lei de Moscou. 

Em entrevista ao Correio, Maksym Maksymov — chefe da organização não governamental Bring Kids Back ("Tragam os garotos de volta") — explicou que a propaganda militar começa desde muito cedo. "Por volta dos 13 anos, o treinamento militar pode entrar no ambiente escolar, incluindo manuseio de armas, medicina tática e operação de drones. Os meninos podem receber avisos de pré-alistamento a partir dos 16 e, aos 18, ser recrutados para as forças que ocupam seu próprio país. Portanto, o problema não é apenas o sequestro de crianças. É que a Rússia está tentando remodelar quem elas são e prepará-las para viver, pensar e até mesmo servir dentro do sistema russo", destacou.

Maksymov esclareceu que a militarização das crianças foi documentada ao longo do tempo por meio de famílias, dos menores que retornaram, dos professores, das instituições ucranianas, de organizações da sociedade civil e do relatório da OSCE. "Os especialistas da OSCE analisaram leis russas, currículos escolares, programas oficiais, registros públicos, informações de fontes abertas, depoimentos e entrevistas. Eles também visitaram a Ucrânia e conversaram com instituições e pessoas que tinham conhecimento direto do que estava ocorrendo. O que eles descobriram é que a militarização não é acidental. Ela está incorporada ao sistema que a Rússia impôs nos territórios ocupados. Nas escolas, as crianças são expostas a livros didáticos de história russa, cerimônias com a bandeira, aulas obrigatórias pró-guerra e organizações militar-patrióticas como a Yunarmiya e o Movimento dos Primeiros", disse. O ativista reforçou que não se trata de uma coleção de abusos isolados, mas de "uma política estatal deliberada".

 

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