Europa

Incêndios levam à fuga de 250 mil na França e na Espanha

Sem controle, incêndios florestais se espalham, destroem casas e mobilizam milhares de homens no combate às chamas. Jornalista espanhol teve que abandonar o lar. Romancista viveu terror em casa de férias na província espanhola de Ávila

Fora de controle, as chamas dos maiores incêndios florestais da história da Espanha e os mais intensos a atingirem a França em meio século levaram à retirada de 260 mil pessoas e devastaram Bordeaux, região francesa famosa pelo vinho, e as imediações de Madri. O temor das autoridades concretizou-se ontem, quando os dois incêndios distintos se uniram, na parte oeste da capital espanhola. As labaredas destruíram 25 mil hectares entre Madri e a província de Ávila.

Na França, há receio de que casas da cidade de Bordeaux sejam atingidas. No departamento de Gionde (sudoeste), 167 mil moradores foram retirados de suas residências; no departamento vizinho de Landes, foram cerca de 30 mil.

Em publicação na rede X, o presidente francês, Emmanuel Macron, comentou a tragédia. "Nestes momentos em que as chamas põem à prova o nosso país, a França revela a sua verdadeira natureza: um povo unido, lado a lado. Agradecemos aos nossos bombeiros, militares, forças de segurança, gendarmes e policiais, bem como aos agricultores e empresários que, com empenho e coragem, combatem incansavelmente os incêndios", escreveu. "Nós reconstruiremos, repararemos e estaremos lá pelo tempo necessário", acrescentou. Macron também externou gratidão pelo auxílio oferecido por países como Romênia, Croácia, Alemanha, Portugal, Suécia, Suíça, República Tcheca e Eslováquia. Por sua vez, o premiê da França, Sébastien Lecornu, previu que as próximas horas "serão difíceis", na medida em que a previsão do tempo — calor e baixa umidade — mostra-se desfavorável aos bombeiros.

Apenas na França 1.400 brigadistas, 1.500 militares e 1.700 membros das forças de segurança internas trabalham na contenção das chamas. Milhares de macas foram distribuídas por abrigos improvisados para acomodar os moradores das áreas mais atingidas.

O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, também se pronunciou sobre os incêndios florestais. "Nossa prioridade é proteger vidas, defender núcleos populacionais e combater as chamas. Todo o Estado e todas as administrações estão coordenando os recursos para uma resposta eficaz aos incêndios e para o acolhimento de pessoas evacuadas e confinadas", declarou. O chefe de governo prometeu empenho na reconstrução das áreas atingidas.

O jornalista espanhol Sergio Yustos Fernández, 31 anos, morador do município de El Tiemblo, na província de Ávila, precisou fugir às pressas após o fogo aproximar-se de sua casa. "O mais difícil foi sair sem saber se voltaríamos a ver o nosso lar como o deixamos. Em momentos assim, você não pensa em bens materiais. Você se agarra à unica coisa que importa de verdade: saber que está bem e sua família, também. Sou casado e temos dois filhos Isso foi o que ocupava minha mente quando fugimos", relatou ao Correio.

"As imagens eram terríveis. Ver o fogo tão de perto, a fumaça engolindo tudo e as chamas avançando em direção às casas é algo que você nunca esquece. Depois vem a sensação de impotência, porque você não pode fazer nada além de esperar enquanto vê o lugar que você considera seu lar ameaçado", acrescentou Sergio. Por sorte, a casa dele foi poupada pelo fogo. Segundo o jornalista, o incêndio segue ativo. "Está sendo muito duro, porque somente podemos aguardar e ver como tudo evolui, com a esperança de que as equipes de emergência consigam controlá-lo o quanto antes. Mas as casas da região continuam queimando."

Moradora de Franklin (Tennessee, EUA), a romancista americana Rebecca Papin, 47, não conseguiu deixar Biscarrosse, perto de Cap Ferret, no sudoeste da França, onde tem uma casa de férias. Às 16h (hora local) de quinta-feira (23/7), ela estava na praia com a amiga quando avistaram fumaça sobre a floresta.

"Minha amiga consultou a internet e me disse que um caminhão tinha se incendiado. Pensei que era fumaça demais para um incidente desse tipo. Fiquei preocupada e quis voltar para minha casa, que fica perto da mata, mas decidimos ir à residência dela, onde meus filhos e os dela comeram bolo e onde passamos um tempo juntos", relatou ao Correio. Horas depois, soube que mais de 100 casas tinham sido reduzidas a cinzas.

"Portão do inferno"

Às 20h, ao passar pelo centro de Biscarrosse, Rebecca deparou-se com uma enorme fila de carros. "A região estava completamente congestionada. Fiz uma curva e vi o céu em chamas. Dirigi até minha casa, subi as escadas e, da janela do quarto das minhas filhas, vi um paredão de fogo. Foi uma das coisas mais assustadoras que vi. Parecia o portão do inferno."

Um avião sobrevoava a área perto de sua casa e despejava água. "Eu fiquei congelada. Liguei para meu pai e meu irmão. Eles me disseram para fugir. Fomos à praia, e as pessoas pareciam agir normalmente, jogando cartas etc. Minha filha estava cansada e pediu para que voltássemos para casa. Dormimos rapidamente. Ao acordar, percebi que Biscarrosse foi totalmente esvaziada e que tínhamos sido deixadas para trás", relatou Rebecca. 

Às 7h30 de sexta-feira (24/7_, uma policial bateu à porta da casa e avisou-lhe que ela e as filhas estavam proibidas de partir até segunda ordem. Na noite deste sábado, elas permaneciam na residência de férias e esperavam deixar a área na manhã deste domingo. 

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