Na véspera de tomar posse como presidente do Peru, Keiko Fujimori deu ontem pistas importantes sobre as prioridades que definiu para seu governo, que começa hoje e tem como desafio de maior alcance recuperar a estabilidade política. O país colecionou oito presidentes nos últimos 10 anos, e, desde a virada do século, praticamente todos tiveram problemas com a Justiça — ou foram destituídos pelo Legislativo (leia quadro). Eleita por margem mínima de votos, a filha do controverso ex-presidente Alberto Fujimori começa a dar contornos a uma agenda imediata capaz de viabilizar seu chamado à reconciliação nacional e favorecer a costura de uma maioria no novo Congresso, que volta a ser bicameral após três décadas.
Com Keiko na Presidência do Peru, o fujimorismo volta "reciclado"
Peru volta a ter Congresso bicameral após três décadas
Estão associadas a esse movimento as primeiras nomeações de peso para a equipe. O vice de Keiko, Luis Galarreta, aliado de longa data e parceiro em suas tentativas anteriores de chegar ao poder, será o próximo primeiro-ministro. Nas declarações que se seguiram ao anúncio, Galarreta fixou como objetivos principais reduzir os índices elevados de insegurança pública, de maneira a tornar o Peru mais atraente paras investimentos e, assim gerar empregos — algo que apontou como chave para reduzir a pobreza e as desigualdades.
A nomeação foi acompanhada pela do ministro da Economia, Elmer Cuba, economista de pronunciada orientação pró-mercado e ex-diretor do Banco Central peruano. Em outro eixo da construção política e econômica, o partido de Keiko, Força Popular, articulou uma aliança com o também direitista Renovação Popular para fazer o novo presidente do Senado, restabelecido para a próxima legislatura. Miguel Torres foi eleito com o voto de 30 dos 60 senadores — conta justa que relembra as dificuldades à frente para a mandatária. Na Câmara, o Força Popular conta com 40 dos 130 deputados.
Prioridades
"Keiko Fujimori terá de formar um gabinete amplo e evitar novos confrontos entre Executivo e Congresso", observa o professor de relações internacionais Roberto Uebel, da ESPM. em entrevista ao Correio. "Sem uma coalizão estável, poderá reproduzir a instabilidade política que marcou o Peru desde 2016." Roberto Goulart Menezes, professor titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da UnB, reforça: ela "terá de negociar seus projetos - como Javier Milei, na Argentina". Menezes aposta que a implantação da agenda "certamente" produzirá choques na sociedade: "É um país cansado, vem de uma sucessão de presidentes que não conseguiram passar muito tempo no poder, que caíram sem dar sequer os primeiros passos. O primeiro desafio dela será colocar seu governo de pé".
O professor da UnB acredita que, entre as prioridades, a presidente "vai recolocar o tema da segurança, o modelo que El Salvador vem 'exportando' para a extrema-direita da região, como no Equador". O colega da ESPM aponta o mesmo item como foco da pauta social, "especialmente as extorsões e o crime organizado". Mas alerta para o desafio de "não transformar a promessa de 'mão dura' em militarização ineficaz", sob pena de não conseguir "se afastar da imagem autoritária do pai". No terreno econômico, Keiko "deverá transformar estabilidade macroeconômica em emprego e renda, enfrentando alta informalidade, indicadores elevados de pobreza e baixa produtividade".
Frente externa
Ao longo da campanha, em especial no segundo turno contra o esquerdista Roberto Sánchez, Keiko ressaltou sua proximidade com os Estados Unidos e, em particular, com Donald Trump — que lhe deu apoio público. Na formação do governo, a opção preferencial por Washington se concretizou na escolha do jornalista Carlos Espá como ministro das Relações Exteriores. Mais conhecido do público como diretor do programa de TV investigativo Cuarto poder, Espá respondeu por 15 anos pela área de imprensa e cultura da embaixada norte-americana em Lima.
"Esse alinhamento deverá aparecer principalmente em temas de segurança, no combate ao narcotráfico", avalia Uebel. "Ainda assim, não vejo espaço para adesão automática aos EUA: a China é o principal parceiro comercial peruano e controla investimentos estratégicos." Menezes também espera de Keiko que "não descuide das relações com o Brasil, o Chile e o novo governo da Colômbia", e convida a acompanhar "o que ela vai colocar em prática". Em particular na relação com a Casa Branca, o professor titular do Irel/UnB lembra que "não basta se declarar alinhada a Washington, veja o caso de Milei, que não recebeu a importância que esperava com seus gestos". Para ele, a presidente peruana "tende a buscar ajuda com Trump, sobretudo nos primeiros meses, mas pode não ser reconhecida".
