
O Peru comemora nesta terça-feira (28/7) seu Dia Nacional na expectativa de romper com ao menos 10 anos sem que um único presidente eleito concluísse o mandato de cinco anos. A próxima a tentar a façanha será Keiko Fujimori, empresária e ex-deputada de 51 anos, expoente da direita. Ela venceu em segundo turno o rival esquerdista Roberto Sánchez, com margem na casa de 40 mil votos em um total inferior a 20 milhões - algo como 0,2%.
Keiko toma posse 26 anos passados da queda de seu pai, Alberto Fujimori, ponto de partida para uma espiral de instabilidade política. Após três tentativas frustradas, chega à presidência tendo pela frente um Congresso novamente bicameral, mas em clara minoria em ambas as casas. No discurso da diplomação, convocou os opositores à reconciliação — diferentemente do pai, que governou com poderes extraordinários.
"Nenhum governo poderá fazer o Peru avançar se continuar alimentando a divisão", prometeu. A resposta inicial de Sánchez sugere que a presidente "não terá trabalho" fácil, como definiu para o Correio o professor da UnB Roberto Goulart Menezes. "Como podemos beijar a sua mão?", disparou o líder da esquerda. "A primeira coisa que a senhora Fujimori deveria fazer é ajoelhar-se e pedir perdão."
Desafios
"Essa reconciliação vai se expressar, sobretudo nos primeiros meses, nos projetos que ela apresentar, se forem notadamente de interesse do país, sem colocar em questão a soberania — por exemplo, com a entrega de minerais estratégicos a empresas dos EUA ou de outro país", explica o professor titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel/UnB).
"O primeiro desafio de Keiko será transformar a legitimidade eleitoral em governabilidade", reforça o professor de relações internacionais Roberto Uebel, da ESPM. Ele lembra que seu partido, Força Popular, detém as maiores bancadas, mas longe de compor maioria: 22 dos 60 senadores e 40 dos 130 deputados. "Ela terá de negociar com forças da direita e do centro", disse o estudioso à reportagem. "Deverá ser inicialmente um governo pragmático, permanentemente pressionado pela fragilidade da vitória eleitoral."
O professor do Irel/UnB vê na recriação do Senado — extinto pela Constituição fujimorista, emendada mas ainda em vigor — uma oportunidade para a presidente. "Um dos elementos para a instabilidade política permanente no Peru foi o modelo unicameral: bastava que dois ou três grupos tivessem maioria para que declarassem o presidente 'incapaz' e o tirassem do poder. Com duas casas legislativas, uma delas revisora, isso pode dar mais estabilidade", arrisca. "Mas precisamos conferir."
Nova versão
Roberto Uebel concorda que Keiko encarna, em certa medida, um fujimorismo atualizado. "Reciclado, porque combina renovação geracional, linguagem tecnocrática e alianças pragmáticas", observa. Mas com a ressalva de que preserva "elementos do legado do pai: personalismo, centralização decisória e segurança baseada na 'mão dura', ou seja, autoritarismo".
Esse último aspecto, em especial, leva Menezes a recusar o termo "reciclado" para descrever o ideário da nova mandatária. "É um projeto político que ela tenta restabelecer desde 2011", argumenta. "É uma linha de extrema direita, e se ela esticar muito a corda vamos ter mobilização social, nas ruas", alerta.
"A esquerda dificilmente aceitará uma conciliação meramente discursiva", concorda o especialista da ESPM. "A reconciliação só será possível se Keiko aceitar um diálogo substantivo, sem confundir unidade nacional com submissão da oposição — algo que seu pai não soube fazer."
PALAVRA DE ESPECIALISTA
"O país está cansado"
"O Peru é um país empobrecido, busca enfrentar a desigualdade social e econômica, que é gigantesca e vem de décadas. A receita que Alberto Fujimori apresentou, desde 1990, inclui uma Constituição — que segue em vigor — que concentra poder, dá mais poderes de repressão ao Estado.
O desafio de Keiko é fazer a economia crescer e, ao mesmo tempo, se manter alinhada aos EUA. Porque o maior comprador do minério peruano e das exportações, em geral, é a China. A pressão de Washington contra essa presença tende a ser grande. Vale lembrar o porto de Chankai, que é moderno, foi construído pela China e encurtou de 40 para 28 dias o tempo de viagem até o Peru."
Roberto Goulart Menezes é professor titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da UnB

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