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Existe mesmo uma onda anti-Argentina no mundo, como diz Javier Milei?

Lastro que fundamentaria essa narrativa está posto mais de 100 anos atrás e tem a ver com a imagem construída para o exterior de uma suposta superioridade do país.

Momento tenso na final da Copa do Mundo de 2026, onde Enzo Fernández, da Argentina, foi expulso após uma falta em Pau Cubarsí, da Espanha -  (crédito: Getty Images)
Momento tenso na final da Copa do Mundo de 2026, onde Enzo Fernández, da Argentina, foi expulso após uma falta em Pau Cubarsí, da Espanha - (crédito: Getty Images)

"Vamos a hacer grande a la Argentina otra vez" é o "make America great again" do presidente argentino Javier Milei, no poder desde dezembro de 2023.

Mais do que uma frase de efeito, a declaração remete ao período em que a Argentina tinha clara superioridade econômica em relação a seus vizinhos. O contraste com o cenário atual alimenta o discurso de "nós contra eles", reforçado por Milei ao afirmar que há uma ofensiva anti-Argentina para conter o desenvolvimento do país.

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Onda esta que não passa de ficção, argumentam especialistas. Ou narrativa conveniente.

"A ideia de que há, no momento, uma espécie de onda anti-Argentina é simplesmente ridícula", diz o economista Fabio Giambiagi, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas e autor do recém-lançado livro Argentina para Brasileiros.

"Não consigo enxergar uma onda global anti-Argentina. Na verdade, as redes digitais amplificam isso que se convencionou chamar de narrativa, construída por setores políticos que dela extraem benefícios", completa o sociólogo Rogério Baptistini, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

"É uma teoria, como é óbvio, mas há bons motivos para acreditar que o presidente Javier Milei use o argumento para desviar a atenção sobre os resultados sociais do seu governo, que infelicitam as classes médias e os trabalhadores argentinos. Essa é uma estratégia clássica da extrema-direita, de Donald Trump a Jair Bolsonaro: criar inimigos externos e capitalizar o ressentimento", diz Baptistini.

Na bola

Essa onda anti-Argentina propalada por Milei e parte da população local contemporânea acabou impulsionada pelo esporte. No caso, a Copa do Mundo, em que o time liderado pelo craque Lionel Messi ficou com o vice-campeonato, perdendo a final para a Espanha.

"O que houve concretamente foi uma reação, compreensível, em função de atitudes anti-esportivas de um conjunto de jogadores argentinos imediatamente após a partida final", reconhece Giambiagi. No caso, o fato de que muitos jogadores argentinos deram as costas à comemoração dos espanhóis.

Giambiagi cita o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, que costumava enfatizar a importância do soft-power no cenário global contemporâneo.

Para o economista, a Argentina vinha construindo uma simpatia grande ao longo do campeonato, por vitórias impressionantes e viradas épicas. Além do fato de que o mundial marcava a despedida de Messi, um gigante inquestionável no esporte. "Infelizmente esse esforço acabou sendo jogado no lixo, foi por água abaixo 15 minutos depois do encerramento do jogo contra a Espanha", afirma ele.

Nos dias que se seguiram, profusões de teorias conspiratórias fortaleceram o discurso de "nós contra eles", deixando a Argentina realmente isolada nos debates entre torcedores e afins.

De um lado, a tese de que a Fifa seria parte de um complô para favorecer o time de Messi — o que, segundo as teorias difundidas nas redes sociais, seria "fundamentado" por decisões polêmicas da arbitragem nas partidas anteriores à final.

De outro, justamente o contrário: argentinos divulgando que seu escrete havia entregue o jogo para os espanhóis, por conta de ingerência da Fifa.

"Na Argentina muitos acreditam nessa tese. Uma estupidez absoluta", diz Giambiagi. Ele lembra que o escritor italiano Umberto Eco (1932-2016) disse certa vez que a internet "dava voz aos idiotas". "Infelizmente, no mundo de hoje, qualquer doido acaba tendo sua verbalização ecoada e magnificada", comenta.

"De fato, a Copa do Mundo é emblemática, pois houve situações em que a Argentina foi beneficiada por decisões polêmicas, como é comum acontecer no futebol. Mas isso não foi uma exclusividade", comenta Baptistini.

A imagem mostra uma disputa de bola durante uma partida de futebol entre Argentina e Espanha. Um jogador da seleção espanhola aparece no ar após um choque com um adversário argentino, enquanto o estádio lotado e os bancos de reservas ao fundo reforçam a intensidade do momento capturado durante o jogo.
Getty Images
Momento tenso na final da Copa do Mundo de 2026, onde Enzo Fernández, da Argentina, foi expulso após uma falta em Pau Cubarsí, da Espanha

Para o sociólogo, o discurso nas mídias contra a Argentina, durante a competição, foi amplificado "pelo fato de a seleção desafiar a ordem estabelecida com seu jogo" — um estilo mais prático e menos estético.

"Um futebol baseado na catimba, na irritação do adversário. E os puristas defensores do futebol bonito não aceitam isso que chamam de antijogo."

"No fundo, há um preconceito contra o estilo emocional de futebol dos argentinos", analisa o sociólogo. "Apesar de contar com Messi, assim como já tiveram Maradona, os sul-americanos mostram aos europeus que podem vencer com paixão e desordem criativa. E isso ofende o establishment."

Mas esse ponto de vista não seria suficiente para identificar aí uma onda anti-Argentina, como querem acreditar os defensores de Milei.

"A Argentina não é especialmente odiada. O que há, sobretudo por conta do evento da Copa e graças às redes, é um desvio de foco", acredita o sociólogo Baptistini.

"O ceticismo quanto ao futuro econômico do país e à sua estabilidade foi transplantado para uma questão de orgulho nacional. Um problema complexo, como a crise econômica e social, se torna uma narrativa emocional acerca do amor-próprio dos argentinos, vítimas do ódio global."

Um país 'europeu' na América do Sul

Mas o lastro que fundamentaria essa narrativa está posto mais de 100 anos atrás. E tem a ver com a imagem construída para o exterior de uma suposta superioridade argentina — que, muitas vezes, é lida de forma estereotipada como soberba, arrogância, petulância.

Tem a ver com identidade, é claro. Ou melhor: com a imagem construída pelo país perante o restante do globo.

Em seu livro A Identidade Internacional do Brasil e a Política Externa Brasileira, o jurista Celso Lafer, que foi ministro das Relações Exteriores do Brasil, explica o conceito.

Para ele, a identidade internacional de um país, ou seja, como essa imagem de cada nação ecoa na relação com as outras, espelha "o conjunto de circunstâncias e predicados que diferenciam sua visão e os seus interesses, como ator no sistema mundial, dos que caracterizam os demais países".

Em outras palavras, no tabuleiro global, a maneira como cada Estado move as peças é a consequência de suas próprias diferenças em relação aos demais.

A Argentina pós-Guerra do Paraguai, aquela que se consolidaria como Estado independente na América Latina, experimentou um sucesso gigantesco em uma economia global que necessitava de commodities variadas. Nas décadas seguintes, industrializou-se.

Naquele momento de destaque econômico, o rompimento definitivo dos laços coloniais deixou a elite local livre para consolidar seus valores.

"[Para eles] a resposta à pergunta 'quem somos?' era quase automática: somos a órbita de poder da região que abrange o Paraguai, o Uruguai e parte do Peru", escreve a historiadora Érica Cristina Alexandre Winand, em sua tese de doutorado defendida em 2010 na Unesp, a Universidade Estadual Paulista.

"E tal ideal seria transferido de geração para geração, por meio da memória diplomática e de relatos históricos", continua.

Para a historiadora, aí está a raiz da rivalidade entre Brasil e Argentina: dois grandes países, herdeiros de conflitos territórios de suas antigas metrópoles, agora disputando a influência regional.

"Brasil e Argentina construíram sua identidade com base em crenças frutificadas em um ambiente de rivalidade entre as potências pelo domínio colonial capitalista", elenca a historiadora, lembrando que a partir disso, "o logro dos objetivos de um significaria o fracasso dos propósito do outro".

A imagem em preto e branco mostra o interior de uma fábrica no início do século 20, com dezenas de trabalhadores distribuídos entre grandes máquinas industriais. Muitos usam aventais e bonés, enquanto operam equipamentos ou posam para a fotografia. O ambiente é amplo, iluminado por janelas altas, e transmite o ritmo intenso da produção industrial da época.
Autor desconhecido/Domínio público
Cervejaria de Buenos Aires em 1910

Mas era um momento em que a Argentina "seguia ostentando seu crescimento", lembra a historiadora.

Esse boom é retratado pelo historiador econômico Fernando Rocchi no seu livro Chimneys in the Desert: Industrialization in Argentina During the Export Boom Years, 1870-1930 (Chaminés no Deserto: A Industrialização na Argentina durante os Anos do Boom Exportador, 1870-1930, sem tradução no Brasil).

No início do século 20, o PIB argentino crescia a taxas próximas de 8% ao ano, enquanto a atividade industrial aumentava quase 10% anualmente. Pouco antes da Primeira Guerra, a renda per capita dos argentinos era superior a de países como Itália e Espanha — equiparando-se a de franceses e alemães.

Buenos Aires, a capital, se apresentava praticamente como uma cidade europeia na América do Sul. O metrô ali foi inaugurado em 1913 — 61 anos antes do primeiro sistema do tipo no Brasil, o de São Paulo.

"Essa certa sensação de superioridade do argentino em relação ao resto da América Latina tem a ver com o fato de que, no passado, a renda per capita do país era bastante superior ao restante dos latino-americanos", reconhece Giambiagi — filho de argentinos nascido no Rio de Janeiro, ele viveu 15 anos de sua infância e adolescência em Buenos Aires.

"Por causa desse contexto histórico diferenciado, associado a questões de época, existia na mentalidade de muitos argentinos a ideia de que o país era uma espécie de enclave da Europa na América Latina", comenta ele.

A imagem em preto e branco mostra o interior de uma grande loja de departamentos do início do século 20. O espaço é marcado por escadarias simétricas, vários andares com varandas ornamentadas, colunas decorativas e iluminação suspensa. Ao centro, há um amplo vão de circulação, enquanto diferentes setores da loja podem ser vistos ao fundo, evidenciando a arquitetura sofisticada e o caráter luxuoso do estabelecimento.
Autor desconhecido/Domínio público
Complexo comercial de Buenos Aires em 1908

Germe do racismo

"O desejo de domínio político-econômico sobre aquela área [parte da América do Sul] era acompanhado por um sentimento de superioridade cultural ou 'racial' da Argentina em relação ao Brasil que, segundo alguns autores, refletem até a atualidade da fixação de estereótipos sociais que ainda perfilam a relação entre os dois países", pontua Winand.

"As elites [argentinas] lavravam um sentimento de superioridade, inclusive racial, em relação aos países sul-americanos, alegando que a distinção de sua força moral lhe conferia uma aptidão ímpar e irrevogável de hegemonia na região", acrescenta a historiadora.

Por conjuntura histórica, a formação racial do povo argentino é diferente da brasileira. Este aspecto, com significativamente menor proporção de negros na população, sempre alimentou teorias de cunho racista — e até hoje gera episódios que escancaram o preconceito e a discriminação.

"A soberba dos argentinos é um estereótipo, assim como a malandragem dos brasileiros. Suas raízes são históricas e, muito provavelmente, estão associadas à contradição entre a elite e o povo, no período pós-colonial, a partir do século 19", diz Baptistini.

O jornalista Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888), que foi presidente da Argentina, em seu livro Facundo: Civilização e Barbárie, de 1845, trata da dicotomia entre o mundo das elites brancas, associado à cultura e ao progresso, e a barbárie, o atraso e o isolamento rural dos pampas.

"De certa forma, sob essa tensão foi construída a ideia da República que deveria se europeizar para ser moderna em um continente marcadamente mestiço", analisa Baptistini.

"Especificamente na relação Brasil-Argentina há uma exacerbação compreensível e grande do tema do racismo", comenta Giambiagi. "Com repercussão jornalística grande, em função de fatos específicos ocorridos com com número muito reduzido de turistas argentinos com atitudes racistas e condenáveis aqui no Brasil."

"Minha percepção, de alguém que morou 15 anos na Argentina, é que o racismo é uma aberração. Mas há uma parcela dos argentinos que fazem gestos racistas sem a menor noção do que isso significa", diz o economista. "Não dá para estigmatizar um país por conta de atitudes condenáveis de meia-dúzia de imbecis."

A imagem em preto e branco mostra uma fábrica da Ford vista do lado de fora, com um amplo pátio repleto de automóveis estacionados e caixas de carga. O edifício industrial tem grandes janelas, vários pavimentos e uma torre com o nome da empresa em destaque. A cena retrata uma instalação de produção e distribuição de veículos nas primeiras décadas do século 20.
Autor desconhecido/Domínio público
Fábrica da Ford na Argentina, aberta em 1922, foi a terceira fora dos Estados Unidos — e a primeira na América Latina
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BBC
Edison Veiga - De Bled (Eslovênia) para BBC News Brasil
postado em 08/08/2026 06:18
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