
Importante: esta reportagem contém diversas referências a abortos espontâneos, que podem ser perturbadoras, e revela partes da trama de um filme.
No dia 17 de junho de 2009, uma mulher de 26 anos saiu de um hospital da Cidade do México, carregando uma embalagem de presente. Dentro dela, havia uma bebê recém-nascida.
A mulher se chamava Eleonor Alejandra Marín Mendoza. Ela não era a mãe da criança.
Horas mais tarde, ela e seu marido, Arturo, foram detidos em um hotel. A bebê, Katya Valentina, foi devolvida aos seus pais ilesa e Marín Mendoza foi condenada a 13 anos de prisão por sequestro.
O caso atraiu enorme atenção da imprensa mexicana. Ela havia fingido ter levado uma gravidez até o término, enganando seu marido, sua família e os próprios médicos.
A pressão social e psicológica para que Marín Mendoza fosse mãe é detalhada no novo filme Meu Próprio Filho, que estreou na quinta-feira (13/8) na Netflix.
O filme não conta esta história chocante no formato convencional do gênero true crime (crime real), mas como um drama documentário (usando atores e cenas dramatizadads).
A primeira metade do filme consiste em uma recriação estilizada da versão dos fatos, contada por Marín Mendoza.
Posteriormente, encontramos na prisão a verdadeira Eleonor Alejandra, conhecida como "Ale", além de outras pessoas envolvidas no caso, e observamos imagens de arquivo da época.
"A sensação é que eu vivia em outra dimensão", conta Marín Mendoza à diretora do filme, Maite Alberdi.
"Muitas vezes, eu queria dizer: 'Isso não é real' ou 'não está acontecendo'. Mas não conseguia."
Marín Mendoza faz estes comentários sobre uma cena que recria seu chá de bebê de 2009. A atriz mexicana Ana Celeste Montalvo interpreta a personagem da vida real.
Na cena, amigos e familiares recebem a suposta grávida com bolo, presentes e balões. Ela parece em estado avançado de gestação.
Mendoza reconhece que aquela situação gerou sentimentos contraditórios. De um lado, ela conta que se "sentia muito especial". Mas, por outro, "queria que alguém estourasse aquele balão de mentiras".
Fantasia cor-de-rosa
A diretora chilena Maite Alberdi foi indicada duas vezes ao Oscar, na categoria de melhor documentário.
Ela narra a versão de Marín Mendoza sobre os fatos ocorridos como se fosse um conto de fadas dramatizado, a começar pelo seu casamento com Arturo, no ano 2000.
A paleta cromática é composta de suaves tons pastéis de rosa, amarelo e azul. A câmera se movimenta com foco levemente difuso.
A fotografia de uma mãe com seu bebê enfeita a sala de espera da maternidade. Marín Mendoza se veste sempre com tons rosados e esta parte da história é contada do seu ponto de vista, com uma voz em off.
"Fiz com que estas cenas se parecessem com um conto de fadas porque é o sonho da protagonista, como ela queria que fosse a experiência, ou a forma em que ela conta a história para si própria", explica Alberdi à BBC. "É a sua perspectiva subjetiva da realidade."
"Levamos este mundo cor-de-rosa ao extremo, em parte, porque seu mundo na vida real também é muito cor-de-rosa."
"Como vocês verão no filme, ela adora esta cor", prossegue a diretora. "E tudo foi feito para representar fielmente o seu sonho do casamento e do bebê."
Fica claro que, desde jovem, o desejo de ser mãe causava profunda pressão sobre Marín Mendoza.
Ela se casou aos 17 anos, quando já estava grávida, mas sofreu um aborto espontâneo. O mesmo aconteceu na gravidez seguinte, até que ela manteve seu terceiro aborto em segredo, com medo da reação do seu marido e da família dele.
Ela declarou à polícia que conheceu na maternidade uma mulher grávida chamada Mayra, que não queria seu bebê.
Marín Mendoza afirmou que a convenceu a levar a gravidez até o fim e entregar o bebê para ela. Enquanto isso, ela consumia junk food (alimentos com baixa qualidade nutricional) para simular a barriga da gravidez.
Seu peso passou de 54 kg para mais de 89 kg. E, como trabalhava no departamento de ginecologia e obstetrícia do hospital, ela manipulava seus próprios históricos médicos.
Marín Mendoza conta que, depois de dar à luz, Mayra abandonou sua recém-nascida, dizendo que estava saindo do hospital.
Tomada pelo pânico, Marín Mendoza colocou a bebê na sacola e a levou para apresentá-la ao seu atônito marido. Arturo sempre afirmou (e ela confirma) que só ficou sabendo que a gravidez era falsa quando ela entregou a ele a bebê sequestrada.
Alberdi conta que conheceu Mendoza em uma prisão no México. E é ali que o espectador também a encontra, em uma cela decorada em tons de rosa, enquanto cumpria as últimas semanas da sua pena de 13 anos de prisão.
A cineasta também conversou com Arturo, que ficou detido por dois anos, enquanto a polícia investigava o sequestro. Ele acabou sendo absolvido de qualquer envolvimento.
Para conhecer a outra versão da história, Alberdi entrevista a mãe da bebê sequestrada. Mayra Navarro Vega refuta categoricamente a versão dos fatos apresentada por Marín Mendoza.
Nos seus depoimentos à Justiça mexicana, Navarro Vega contou que foi ao banheiro do hospital e, ao regressar, descobriu que alguém havia levado sua bebê.
Ela nega que tivesse existido um "acordo" e salienta que só conheceu Marín Mendoza quando esta apareceu em seu quarto na maternidade se fazendo passar por assistente social.
"Não sinto compaixão por ela", afirma Navarro Vega no filme. "Ela não sentiu compaixão quando roubou minha bebê."
As grandes questões do filme
Alberdi comenta que, ao explorar o caso, quis examinar as pressões sociais mais amplas em torno da maternidade.
"Por que alguém sentiria necessidade de fingir uma gravidez?", pergunta ela.
"É claro que Alejandra cometeu um crime; logicamente, precisou ir para a prisão. Mas, ao mesmo tempo, ela é vítima do sistema. É vítima da sua família. Para mim, ficou claro que houve anos de pressão neste caso."
No relato dos fatos fornecido por Marín Mendoza, seus sogros e seu marido a culpam pelos abortos espontâneos. Eles alegam que ela continuou trabalhando durante a gravidez, o que consideram falta de "cuidado".
É também evidente que seu marido desejava não só ter um filho biológico, mas especificamente um menino.
Por outro lado, a juíza do caso comenta, na sua entrevista a Alberdi, que o testemunho de Mendoza incluía recordações dos seus sogros "dizendo coisas como: 'Você não vale nada como mulher se não puder ter filhos'".
"Eu me sentia pressionada para agradar a família dele", afirma Marín Mendoza no filme.
"O desejo de ser mãe era tão intenso que me vi envolvida em problemas cada vez maiores e comecei a tomar decisões e realizar ações cada vez mais complicadas", ela conta. "Até que não houve mais saída, nem volta."
Surpreendentemente, a dramatização mostra um médico do hospital autorizando sua licença-maternidade, ao detectar as batidas do coração de um bebê, o que realmente aconteceu.
No filme, esta situação deixa a angustiada Marín Mendoza se perguntando: "Fiquei grávida outra vez?"
"Realmente, acredito que Alejandra se envolveu em uma mentira, mas nunca pensou até onde chegaria com ela", afirma Alberdi.
"Acredito que ela pensava: 'Tudo bem, em algum momento direi que sofri um aborto espontâneo' ou 'o médico que autorizou a licença irá perceber e tudo acabará ali'."
"Mas a própria juíza do caso disse que 'o sistema falhou com ela'", prossegue Alberdi. "Ela sofreu três abortos espontâneos e não recebeu apoio para manter sua saúde mental."
"Ela pagou sua dívida com a sociedade na prisão e entendia que precisava estar ali. Mas a pergunta para mim é: A sociedade pagou sua dívida com ela? O sistema realmente funcionou para atender à saúde mental daquela mulher?"
"Mais que o sistema judiciário, acho que a sociedade não prestou atenção", explica a diretora.
A psicóloga forense Norma Romero Sánchez, que avaliou Marín Mendoza após sua detenção, também concedeu entrevista para o documentário. Ela concluiu que a pressão para ter um filho contribuiu para a fantasia da protagonista.
"Ela acreditava que, para se sentir realizada como mulher, precisava ser mãe", comenta Romero Sánchez à BBC.
"Psicologicamente, no México e na América Latina, existe enorme pressão para que as mulheres sejam mães", segundo Romero Sánchez.
"Além disso, ela sofria uma condição física que provocava abortos espontâneos recorrentes, mas não contou com uma avaliação médica especializada que explicasse o motivo. Ela vivia uma fantasia como mecanismo de autodefesa, frente a uma realidade muito dolorosa."
Mas a psicóloga destaca que foi o perfil psicológico único de Marín Mendoza que permitiu que a farsa chegasse tão longe.
"Ela detinha muito poucos recursos para enfrentar situações de conflito, devido à sua idade e aos seus traços de personalidade, que a impediam de se defender", afirma ela.
Romero Sánchez destaca que ela "apresentava tendência à dissociação, não apenas da realidade, mas da sua própria identidade".
"Isso pode ser observado no documentário, quando o médico diz ter detectado as batidas do coração do bebê. Ela realmente chega a se questionar se estaria grávida ou não."
A psicóloga é da opinião que o maior apoio dos profissionais de saúde mental teria feito a diferença para Marín Mendoza, mas defende que também é preciso mudar as expectativas culturais.
"Acho que é necessário ter muito apoio, especificamente para romper os estereótipos que rodeiam a maternidade e o que significa ser mulher", segundo ela.
"Nós perguntamos às mulheres se elas têm filhos, quantos têm ou por que ainda não têm. Precisamos de educação para acabar com estes estigmas de gênero", conclui a psicóloga.
Depois de sair da prisão em 2023, ficou claro que Marín Mendoza tem, agora, uma visão diferente da sua identidade. Frente às câmeras, ela conta ter passado os anos na prisão "assumindo o fato de não ser mãe".
"Meu desejo era mais questão de agradar os outros", afirma ela.
"Eu pensava: O que mais existe, além de ser mãe? Mas, finalmente, percebi que existem muitas outras razões para viver."
'Meu Próprio Filho' estreou na Netflix na quinta-feira, 13 de agosto de 2026.
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.
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