
A sala era pouco iluminada e silenciosa — exceto pelo som da água, agitada pelos polvos que se moviam lentamente uns sobre os outros nas piscinas internas.
No centro de testes da primeira fazenda comercial de polvos do mundo, na Espanha, essa cena tranquila era uma prova, segundo me disseram as autoridades da gigante empresa de frutos do mar Nueva Pescanova em 2022, de que os animais estavam perfeitamente felizes em cativeiro e que, portanto, eram adequados para criação em larga escala.
Antes de irmos embora, o diretor do centro fez carinho na cabeça de um deles.
Apesar da aparente calma, o projeto estava no epicentro de uma grande polêmica internacional.
Desde que os planos para a fazenda foram anunciados em 2021, protestos eclodiram em todo o mundo, até que, no final de julho deste ano, a Nueva Pescanova anunciou que estava desistindo do projeto.
A decisão veio após cinco anos de batalha judicial com a autoridade portuária de Las Palmas, em Gran Canaria, em torno do possível impacto ambiental da fazenda, que seria construída no local com um orçamento de 65 milhões de euros (cerca de 400 milhões de reais).
Em comunicado, a Nueva Pescanova afirmou que os planos foram interrompidos "exclusivamente por considerações comerciais e regulatórias", acrescentando que não descarta retomar os esforços em outro lugar no futuro.
A empresa recusou o pedido da BBC para fazer novos comentários.
Os ativistas, que fizeram uma comemoração em Las Palmas após a notícia, veem o resultado não apenas como uma vitória histórica, mas como um possível primeiro passo para impedir que fazendas comerciais de polvos se estabeleçam em outras partes do mundo.
Um mercado milionário
Nos últimos dois anos, os estados de Washington e Califórnia, nos EUA, proibiram preventivamente a criação de polvos, enquanto Espanha, México e Chile apresentaram projetos de lei sobre o assunto.
O potencial econômico da iniciativa da Nueva Pescanova para a criação de polvos era enorme.
O comércio mundial de carne de polvo fresca e refrigerada foi estimado em 198 milhões de dólares em 2024.
No entanto, desde o início, o projeto já parecia condenado ao fracasso.
Ainda que a empresa fosse uma veterana do setor espanhol de frutos do mar, seu plano de produzir 3 mil toneladas de carne de polvo por ano surgiu logo após o lançamento de Professor Polvo (My Octopus Teacher), documentário da Netflix que se tornou um sucesso e ganhou o Oscar.
Nele, a relação singular entre um documentarista e uma fêmea de polvo colocou em evidência a inteligência da espécie, fazendo com que a ideia de produzi-los em massa em cativeiro se tornasse muito desagradável para muitas pessoas.
Nas instalações em Las Palmas, cerca de 1 milhão de polvos — criaturas solitárias e noturnas — teriam que compartilhar tanques e permanecer sob luz constante, antes de serem sacrificados por um método de congelamento a -3 °C.
Esses planos representavam "um grave dilema moral", segundo Lindsay Hamilton, professora de estudos sobre organização animal na Universidade de York, no Reino Unido.
Cada vez mais pesquisas demonstram que os polvos sentem dor e angústia e possuem as características básicas da senciência, afirma Hamilton.
"Há algo que precisamos levar em consideração: estamos interferindo com animais capazes de sentir e compreender o que acontece com eles", diz.
Sua posição foi reforçada pela Lei de Senciência Animal do Reino Unido, alterada em 2022 para incluir os cefalópodes, e por uma avaliação de 2026 que concluiu que "há evidências sólidas de senciência nos polvos".
Consequências do cativeiro
A criação comercial de polvos também apresenta outros problemas.
A superlotação em tanques compartilhados provoca estresse e agressividade, aponta Hamilton.
Uma pesquisa sobre a criação de polvos em Sisal, no México, relatou que o canibalismo entre os animais era um problema significativo.
Quando me reuni com executivos da Nueva Pescanova em 2022, eles minimizaram as preocupações com a criação de polvos, classificando-as como um "debate artificial", e acrescentaram que ninguém se escandalizava com as centenas de milhares de toneladas de outros peixes e frutos do mar que produzem todos os anos.
Enquanto seguíamos da sala de reuniões do Centro Biomarino (passando por uma loja de brindes onde me deram uma camiseta com a imagem de um camarão de bigodes) em direção aos laboratórios, que eram equipados com tubos de vários metros de altura cheios de algas e iluminados por luzes de neon, eles insistiram que os polvos eram candidatos tão viáveis à criação em fazendas quanto qualquer outra espécie marinha.
Eles afirmaram que apostar na aquicultura também ajudaria a aliviar a pressão crescente sobre a pesca extrativa, responsável por produzir 420 mil toneladas de polvo por ano.
Alguns estudos indicaram que a pesca artesanal de polvo em pequena escala pode ser sustentável.
Por outro lado, a sobrepesca e os métodos de pesca destrutivos podem prejudicar as populações de polvos na natureza.
A pesca de arrasto provoca impactos ambientais significativos, e até mesmo a pesca com anzol pode ser prejudicial quando são capturadas fêmeas que estão cuidando de seus ovos.
Países como Japão, Austrália, China e Chile já tentaram criar polvos para consumo humano.
Corrente global
À medida que esses projetos avançavam, a crescente conscientização sobre os efeitos prejudiciais da criação de polvos se tornou uma preocupação pública, afirma Strom Peterson, membro da Câmara dos Representantes do Estado de Washington e responsável por impulsionar a proibição no local.
Talvez por isso, a proposta legislativa de Peterson, que faz parte de um grupo de parlamentares conhecido como "fur fighters" (defensores do bem-estar animal), avançou rapidamente em 2024.
"Foi um daqueles projetos de lei que ganharam impulso muito rapidamente. Eu esperava que levasse alguns anos para tornar a ideia conhecida, mas ela ganhou força internacionalmente", conta.
Peterson recebeu ligações de apoiadores de diferentes lugares do mundo, como Reino Unido, México e Portugal. Ele conta que havia pessoas arrecadando fundos para sua campanha e dispostas a oferecer apoio a ele.
"O momento foi crucial: aconteceu pouco depois do lançamento do documentário Professor Polvo, e acho que havia uma conscientização real, dentro do movimento de bem-estar animal, sobre a importância dos polvos", diz.
Seis meses depois, a Califórnia se tornou o segundo Estado a aprovar uma legislação semelhante e transformou a proibição em lei em janeiro de 2025. Pouco depois, foi a vez de Nova York, onde o projeto de lei aguarda a assinatura da governadora.
Outros Estados americanos também debatem a implementação de uma proibição, e um projeto de lei federal bipartidário foi apresentado para proibir a criação de polvos em todo o país.
Em março, o México apresentou um projeto de lei para proibir a criação de cefalópodes em âmbito nacional, e há iniciativas semelhantes em andamento no Chile e na Espanha.
A Nueva Pescanova alegou questões regulatórias para abandonar o projeto em Las Palmas.
No entanto, o impulso legislativo global pode dificultar planos de criação de polvos em uma escala maior.
"Comemoro a decisão" de interromper o projeto da Nueva Pescanova, afirma Hamilton, embora reconheça que "ainda existe a possibilidade de que outro projeto seja levado adiante".
Elena Lara, assessora sênior de pesquisa e políticas da organização Compassion in World Farming (dedicada à defesa do bem-estar animal), participou das celebrações em Las Palmas.
Lara afirma que, "se os responsáveis pelas políticas públicas ouvirem a Ciência, ouvirem a população e observarem o que está acontecendo em outros países", não será necessário que mais fazendas desse tipo sejam construídas.
"Quero acreditar que isso é possível."

