
Para o Irã, bombas. Para a Coreia do Norte, diplomacia. De um lado, um regime teocrático islâmico que clama o uso da energia nuclear para fins pacíficos e civis. De outro, uma dinastia despótica que anunciou os testes nucleares aos quatro ventos e teria em seu arsenal dezenas de bombas atômicas. Em 28 de fevereiro, os Estados Unidos bombardearam o quartel-general do governo iraniano, em Teerã, e mataram o líder supremo do país persa, o aiatolá Ali Khamenei. Na última quarta-feira, o presidente americano, Donald Trump, anunciou que se reunirá, ainda este ano, com o ditador norte-coreano, Kim Jong-un.
O republicano também admitiu que Pyongyang mantém, em seu arsenal, um total de 57 armas nucleares. "Ele tem 57 armas nucleares muito potentes. Nunca se devia permitir que isto acontecesse", declarou Trump a jornalistas na Casa Branca. "Mas as conseguiu. Eu me entendo muito bem com ele", acrescentou. Nos últimos meses, em várias ocasiões, o republicano alertou que jamais deixará que o Irã construa uma arma nuclear.
Em uma decisão que surpreendeu o principal aliado da Casa Branca na Ásia, Trump determinou a redução dos exercícios militares conjuntos entre EUA e Coreia do Sul. A justificativa: Seul teria se recusado a ajudar Washington em sua guerra contra o Irã. A política de "dois pesos, duas medidas" em relação à Coreia do Norte e ao Irã — respectivamente inimigos existenciais da Coreia do Sul e de Israel, aliados históricos dos americanos — parece ser uma manobra bem engendrada pela Casa Branca a pouco mais de dois meses das eleições legislativas de 3 de novembro. A ideia, segundo um especialista, é retirar os holofotes da comunidade internacional sobre o Irã, ante dificuldades dos EUA em encerrarem o conflito no Oriente Médio de uma uma forma que seja vantajosa para Trump.
Presidente e CEO do Korea Economic Institute of America (KEI), Scott Snyder afirmou que a principal diferença entre as duas conjunturas está no fato de a Coreia do Norte ser um Estado nuclear comprovado, enquanto o Irã é um Estado no limiar da nuclearização. "Também é verdade que, tendo se envolvido no conflito com o Irã, o presidente Trump renovou incentivos para fazer a paz com a Coreia do Norte. Isso serviria tanto para prevenir conflitos simultâneos quanto para desviar o foco da opinião pública em relação ao Irã", explicou ao Correio.
Snyder disse ver um forte componente tático na manobra da Casa Branca. "No entanto, também existe um interesse duradouro de Donald Trump em Kim Jong-un, que remonta ao seu primeiro mandato", comentou. Ainda segundo o estudioso, Pyongyang representa uma ameaça credível aos interesses dos Estados Unidos na Pensínsula Coreana e na Ásia. "As capacidades nuclear e de lançamento de mísseis balísticos de longo alcance da Coreia do Norte são inquestionáveis, ainda que não tenham sido totalmente demonstradas", destacou.
Por sua vez, François Godement — historiador e conselheiro especial e pesquisador senior residente para Ásia e América no Institut Montaigne (em Paris) — acredita mais em "fases psicológicas" do que em escolhas estratégicas. "Trump também falou com entusiasmo sobre o Irã e seu potencial, além de ter chamado Kim Jong-un, de forma jocosa, de 'homem foguete', durante seu primeiro mandato. O envolvimento militar com o Irã parece ter surgido na esteira do otimismo gerado pelos casos da Venezuela e dos Acordos de Abraão, bem como do interesse tradicional em petróleo e nos preços da commodity. A resistência do Irã foi, sem dúvida, uma surpresa — ainda que tendamos a subestimar os danos militares infligidos ao exército e à Guarda Revolucionária (IRGC)", disse à reportagem.
Eleições
O estudioso também citou uma obsessão constante do republicano em ganhar o Prêmio Nobel da Paz, além da ilusão de que um acordo sempre é possível. Ele não acredita que a nova postura em relação à Coreia do Norte tenha qualquer relação com as eleições legislativas de meio de mandato. "Por outro lado, a decisão de não agir em relação ao Irã reflete claramente o receio de fazer outra aposta arriscada antes de 3 de novembro."
Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM, lembrou ao Correio que Trump foi eleito em 2024 com um discurso de pôr fim a guerras. "Ele colocou os EUA em um conflito que completará seis meses. Isso tem afetado profundamente a popularidade do presidente e do Partido Republicano. Então, vejo muito mais essa aproximação com a Coreia do Norte como instrumento de política interna, de desviar a atenção do eleitorado e reduzir o foco do Irã. Trump tenta 'ganhar' mais uma guerra, que ele não acabará. Do mesmo jeito que foi a aproximação com Kim Jong-un no primeiro mandato", avaliou. "Trump e Kim se reuniram duas vezes, e nenhum acordo saiu. Vejo uma questão mais de propaganda narrativa do que uma mudança efetiva."
Saiba Mais
Eu acho...
"O elemento tático presente na política externa da Casa Branca é o fato de ela mudar a conversa e o foco do Irã para a Coreia do Norte. Durante o primeiro mandato, Kim Jong-un participiu de cúpulas com Trump, enquanto Ali Khamenei recusou-se a fazê-lo. Creio que a decisão do aiatolá acabou por desapontar o presidente dos Estados Unidos."
Scott Snyder, presidente e CEO do Korea Economic Institute of America (KEI)
"Trump diz e se 'desdiz', às vezes na mesma fala. Isso torna bastante difícil compreender uqal é o objeto que ele busca alcançar. Mas, no meu entender, é desviar o foco do eleitor americano da guerra do Irã para uma outra situação que ele talvez conseguisse produzir alguma imagem positiva — como, por exemplo, um encontro com Kim Jong-un novamente, apertando mão. Aí você teria a distração do eleitor republicano com os problemas da guerra do Irã."
Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM
"Apesar de suas peculiaridades evidentes e de ser um Estado 100% totalitário — e a despeito de sua retórica belicista —, os líderes da Coreia do Norte parecem bastante racionais ao se considerar questões militares, nucleares ou balísticas. Além disso, o país é extremamente habilidoso em negociações. Hoje, está claro que ele sobreviverá economicamente e que, quaisquer que sejam suas ressalvas, a China tem permanecido ao seu lado."
François Godement, historiador e conselheiro especial e pesquisador senior residente para Ásia e América no Institut Montaigne (em Paris)

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