Oriente Médio

O plano de Donald Trump: levar a economia do Irã à asfixia

Secretário do Tesouro dos EUA anuncia novas sanções contra setores críticos do país persa e ameaça excluir do sistema do dólar americano países que lavarem dinheiro para Teerã. Regime iraniano promete "mais uma derrota" de Washington

Mulheres visitam mercado em Teerã, capital iraniana: promessa de colapso econômico vista com desprezo pelo Irã -  (crédito:  AFP)
Mulheres visitam mercado em Teerã, capital iraniana: promessa de colapso econômico vista com desprezo pelo Irã - (crédito: AFP)

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, divulgou planos para asfixiar economicamente  o regime iraniano, com a adoção de novas sanções a Teerã. Ao mesmo tempo, advertiu sobre graves consequências às nações que não se aliarem à campanha da Casa Branca. "Em todo o mundo, nosso objetivo é cortar cada tábua de salvação econômica que sustenta esse regime tirânico até que Teerã fique completamente isolada. Vamos exigir responsabilidades de todos, e isso é a asfixia econômica desse regime", afirmou Bessent.

As novas medidas de retaliação financeira serão impostas sobre cinco setores estratégicos para o Irã: ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo. Os Estados Unidos também prometeram cortar o acesso ao sistema do dólar americano a quem lavar dinheiro iraniano. "Qualquer entidade que facilite a lavagem de dinheiro em nome do Irã será excluída do sistema do dólar americano. O relógio acaba de começar a correr", alertou Bessent.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Não parece ter sido o bastante para incomodar Teerã. Ali Madanizadeh, ministro da Economia do Irã, prometeu "mais uma derrota" para os EUA e garantiu que o regime conta com um "plano de dois anos" para enfrentar as novas sanções. "(Os Estados Unidos) Fizeram tudo o que podiam para testar a determinação do povo iraniano e dos líderes do país, mas fracassaram todas as vezes. Parece que queriam sofrer mais uma derrota", afirmou. Consultado pelo Correio, Abdollah Nekounam Ghadiri — embaixador da República Islâmica do Irã no Brasil — minimizou o anúncio de Bessent. "Nem mesmo as declarações do presidente Trump merecem atenção. O que dirá do Tesouro americano, com uma dívida de US$ 40 trilhões?", declarou. 

Especialista em geoestratégia do Atlantic Council (em Washington) e ex-conselheiro político do Pentágono, Imran Bayoumi considera que o anúncio de Bessent é "um reconhecimento de que a abordagem militar atual para pressionar o regime iraniano não está funcionando". "É uma nova tentativa de asfixiar o regime e de ensaiar uma nova estratégia. Na ausência de objetivos específicos sobre o que se pretende alcançar, será difícil mensurar o sucesso dessa abordagem. Os Estados Unidos não deixaram claro quais são as áreas específicas que buscam abordar. Será difícil mensurar o sucesso dessa tática", explicou ao Correio

Por sua vez, o britânico Andrew A. Gawthorpe — expert em política externa dos EUA pela Universidade de Leiden (Holanda) e pesquisador senior do Foreign Policy Centre (em Londres) — avaliou que as novas sanções impostas pelo Departamento do Tesouro de Washington têm caráter secundário, por alvejarem os parceiros comerciais de Teerã. Ele lembrou à reportagem que o Irã é um dos países mais fortemente sancionados do mundo. "O foco, agora, se volta para como pressionar as nações com as quais os iranianos mantêm relações comerciais a aderirem ao isolamento econômico de Teerã. Isso cria um dilema diplomático: como persuadir Rússia, China e Paquistão a acatar as pretensões dos EUA?", questionou.

China

Para Gawthorpe, essa será uma tarefa difícil. Ele destacou que o principal alvo é a China e afirmou que Trump pretende manter boas relações com Xi Jinping antes da reunião bilateral prevista para setembro. "Há um limite para o grau de pressão que a Casa Branca poderá exercer sobre essa questão", disse. O estudioso holandês vê problemas na promessa dos EUA de excluir do sistema dólar qualquer país que lavar dinheiro para o Irã. "O primeiro ponto é o fato de que a descoberta sobre quem lavou dinheiro para Teerã exige investigações complexas, envolve recursos e coleta de informações de inteligência. Existe um limite para a capacidade de Washington realizar esse tipo de operação. Trata-se, também, de um jogo constante de 'bater na toupeira': você combate uma entidade e outra surge em outro lugar", observou. Ele cita outro problema: muitas empresas que negociam com o Irã, como pequenas refinarias chinesas, não operam mais dentro do sistema de dólar. "Para aquelas que operam, essa exclusão pode dificultar as coisas, mas muitas encontrarão uma maneira de continuar atuando."

Depois de permanecer 25 anos em posições de comando na Inteligência de Defesa de Israel (IDI), Danny Citrinowicz hoje ocupa o cargo de pesquisador senior do Programa Irã e Eixo Xiita do Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS), em Tel Aviv. Ele entende que a campanha econômica divulgada pelo Tesouro dos EUA dependerá, em última análise, menos das sanções em si e mais da disposição e da capacidade de Washington de aplicá-las, especialmente contra a China. "Apesar de toda a relevância do anúncio, seu impacto real dependerá de os Estados Unidos estarem preparados para aplicar sanções secundárias contra países e empresas que continuem a fazer negócios com o Irã, incluindo parceiros, como a Turquia. Sem uma aplicação efetiva e crível, o anúncio em si terá alcance prático limitado", advertiu ao Correio

Segundo Citrinowicz, é importante não confundir pressão econômica severa com um colapso econômico iminente. O israelense admitiu que a economia iraniana atravessa uma situação extremamente difícil, mas está longe do colapso. "É pouco provável que Teerã abandone seus princípios ideológicos e estratégicos fundamentais apenas devido a uma pressão econômica adicional. Diante da escolha entre capitulação e escalada, o Irã tem muito mais probabilidade de optar pela escalada."

EU ACHO...

Imran Bayoumi, especialista em geoestratégia do Atlantic Council (em Washington) e ex-conselheiro político do Pentágono
Imran Bayoumi, especialista em geoestratégia do Atlantic Council (em Washington) e ex-conselheiro político do Pentágono (foto: Brandon Payne/Scrandom Media )

"O anúncio carece de detalhes específicos sobre o que exatamente os Estados Unidos farão. Para que essa abordagem funcione, os americanos precisarão da cooperação da China, visto que esta é uma importante parceira comercial do Irã. Caso contrário, os EUA poderão ter de adotar medidas coercitivas contra a China — algo que, até então, haviam relutado em fazer."

IMRAN BAYOUMI, especialista em geoestratégia do Atlantic Council (em Washington) e ex-conselheiro político do Pentágono 

Andrew A. Gawthorpe, expert em política externa dos EUA pela Universidade de Leiden (Holanda)
Andrew A. Gawthorpe, expert em política externa dos EUA pela Universidade de Leiden (Holanda) (foto: Arquivo pessoal )

"A Casa Branca decidiu que novas ações militares seriam arriscadas demais e, por isso, optou por tentar sufocar economicamente o Irã. A economia de Teerã sofre danos imensos em decorrência do bloqueio e das sanções impostos pelos EUA. É pouco provável que essas medidas adicionais façam uma diferença significativa."

ANDREW A. GAWTHORPE, expert em política externa dos EUA pela Universidade de Leiden (Holanda)

Danny Citrinowicz, pesquisador senior do Programa Irã e Eixo Xiita do Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS)
Danny Citrinowicz, pesquisador senior do Programa Irã e Eixo Xiita do Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS) (foto: Arquivo pessoal )

"A pressão econômica mais prejudicial ao Irã, neste momento, seria um bloqueio marítimo. Ao restringir significativamente a capacidade do Irã de exportar petróleo, o bloqueio exerce um impacto muito mais imediato e potencialmente grave sobre a economia iraniana. A questão é qual objetivo político essa pressão anunciada visa alcançar e o que acontecerá se Teerã responder com uma escalada militar ainda maior."

DANNY CITRINOWICZ, pesquisador senior do Programa Irã e Eixo Xiita do Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS)

ICE PRENDE PAI DE TRIPULANTE DE PORTA-AVIÕES

Joshua Áviles (D) com o pai, Luis Manuel: "Isso é de partir o meu coração"
Joshua Áviles (D) com o pai, Luis Manuel: "Isso é de partir o meu coração" (foto: Facebook)

Filho de nicaraguense, Joshua Áviles, marinheiro do porta-aviões USS Abraham Lincoln, fez o desabafo no Facebook. "Estou em missão há mais de nove meses, em alto-mar no Oriente Médio, lutando por um país que me deu tudo. Acabou de saber, por meio de uma ligação, que meu pai foi levado pelo ICE. Se vocês conhecessem meu pai, saberiam que é um homem trabalhador e humilde, sempre disposto a ajudar qualquer pessoa, se ele puder", escreveu. "Meu pai tem carteira de motorista, cartão da Previdência Social e autorização de trabalho. Fizemos todos os trâmites de imigração para a aprovação do 'green card' dele e agora estamos apenas aguardando. Isso é de partir o coração para mim." Joshua colocou em dúvida a própria capacidade de seguir na missão. "Não sei se, mentalmente, posso continuar trabalhando mais de 12 horas por dia, sabendo que meu pai está em algum lugar, possivelmente sendo tratado como um criminoso. O único 'crime' do meu pai for vir a este país para dar aos meus irmãos e a mim um vida melhor."

  • Imran Bayoumi, especialista em geoestratégia do Atlantic Council (em Washington) e ex-conselheiro político do Pentágono
    Imran Bayoumi, especialista em geoestratégia do Atlantic Council (em Washington) e ex-conselheiro político do Pentágono Foto: Brandon Payne/Scrandom Media
  • Andrew A. Gawthorpe, expert em política externa dos EUA pela Universidade de Leiden (Holanda)
    Andrew A. Gawthorpe, expert em política externa dos EUA pela Universidade de Leiden (Holanda) Foto: Arquivo pessoal
  • Danny Citrinowicz, pesquisador senior do Programa Irã e Eixo Xiita do Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS)
    Danny Citrinowicz, pesquisador senior do Programa Irã e Eixo Xiita do Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS) Foto: Arquivo pessoal
  • Joshua Áviles (D) com o pai, Luis Manuel:
    Joshua Áviles (D) com o pai, Luis Manuel: "Isso é de partir o meu coração" Foto: Facebook
  • Google Discover Icon
postado em 25/08/2026 05:00
x