Pela primeira vez, autoridades do governo da presidente encarregada da Venezuela, Delcy Rodríguez, e lideranças da oposição iniciaram um diálogo mediado pelos Estados Unidos. A negociação de uma transição política, após a deposição de Nicolás Maduro, começou neste sábado (1º/8) com o desfalque importante de María Corina Machado, principal adversária do regime chavista e laureada com o Prêmio Nobel da Paz. Nos últimos dias, manifestantes saíram às ruas de Caracas para exigir "eleições já", em desafio ao Palácio de Miraflores.
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Na sexta-feira, Alejandro Fleming, ex-ministro de Turismo da Venezuela e ex-embaixador na União Europeia, afirmou que a participação de María Corina seria "fundamental". "O que for decidido vai contribuir para a redemocratização da Venezuela", aposta.
Fundador e ex-diretor do Centro de Estudos Políticos da Universidad Católica de Caracas, Benigno Alarcón avalia que as negociações entre oposição e governo começam em um clima que oscila entre o otimismo e ceticismo. "Este é o 18º processo de diálogo, e todos sabemos que as negociações anteriores não deram nenhum resultado positivo. Por isso, o ceticismo é mais do que justificado. Por outro lado, há algumas razões para sermos otimistas'", admitiu ao Correio.
Alarcón ressaltou que a atual conjuntura é muito diferente das anteriores. Segundo ele, jamais ocorreu uma negociação condicionada por um país estrangeiro, que tem a capacidade de sujeitar decisões tomadas na mesa e tentar obrigar as partes a cumprirem com o que acordam.
"O que podemos esperar dependerá da atitude a ser tomada pelos EUA durante a mediação. Se os Estados Unidos deixaram que as negociações sigam em frente como mais um processo entre os venezuelanos, à semelhança dos 17 anteriores, então o diálogo não terá resultado. Agora, se houver uma intervenção ativa dos americanos, veremos algo diferente. Nesse caso, poderemos ver acordos que serão obrigados de se cumprir", comentou o professor da Universidad Católica de Caracas.
Em resumo, ele entende que, se os EUA assumirem apenas uma postura facilitadora, sem intervirem, a negociação fracassará; "se condicionarem o processo e utilizarem suas alavanças de poder sobre o regime da Venezuela, e sua influência sobre a oposição, o processo poderá ter final feliz".
O economista e dissidente Roberto Cabezas, ex-ministro das Finanças da Venezuela durante o governo de Hugo Chávez, afirmou à reportagem que movimentos políticos estão ansiosos e vigilantes. "O desejo é de que esse diálogo não seja uma fraude, além de trair a aspiração da Venezuela de realizar, o quanto antes, eleições presidenciais com uma instituição eleitoral imparcial. Se concordarem, o país apoiará a medida; caso contrário, a crise de ilegitimidade de Delcy Rodríguez se agravará."
Cabezas admite que a oposição se fortaleceu depois de 3 de janeiro. Segundo ele, a deposição de Maduro levou ao enfraquecimento da ditadura, facilitando a libertação de presos políticos, a suspensão da perseguição e o sequestro de lideranças. "No entanto, a ditadura mantém-se no poder, por meio da fraude eleitoral de 28 de julho de 2024. Apesar disso, a liderança de María Corina Machado é forte e tem o apoio das maiorias populares que desejam a mudança."
Progressos limitados
José Vicente Carrasquero Aumaitre, professor de ciência política da Universidad Simón Bolívar (em Caracas), lamenta o fato de os atores venezuelanos não terem capacidades iguais nem definirem livremente a agenda de diálogo. "É mais como uma mesa para acordos visando implementar um roteiro estabelecido pelos EUA, que detêm um poder coercitivo decisivo", disse ao Correio.
O estudioso espera progressos concretos, ainda que limitados, como a libertação de presos políticos, o fim da perseguição a opositores, a restauração dos direitos políticos e o estabelecimento das garantias eleitorais. "O risco é o de que Delcy Rodríguez e seu irmão, Jorge Rodríguez (presidente da Assembleia Nacional), tentam atrasar o processo, exigindo o levantamento de sanções ou a liberação de recursos. Essas decisões não dependem das forças democráticas, mas exclusivamente de Washington."
Ainda segundo Aumaitre, a remoção de Maduro do poder eliminou o centro de autoridade do regime e abriu brecha para que a oposição se fortaleça na luta pela recuperação da democracia. "A questão é que a estrutura chavista continua controlando as instituições, os corpos de segurança e boa parte da adminstração pública", observou. Ele entende que a oportunidade para as forças democráticas deve-se ao fato de a estrutura agora depender da tutela e das decisões dos EUA. "A oposição poderá se fortalecer se mantiver a coesão, se preservar a legitimidade popular e se conseguir converter a pressão americana em resultados institucionais concretos. Porém, sua margem de autonomia é reduzida: ela não controla as armas, os recursos nem o ritmo do processo."
Aumaitre reconhece o perigo de a Venezuela passar de um regime autoritário interno a uma transição excessivamente tutelada desde o exterior. "Os EUA não deveriam substituir a vontade política dos venezuelanos nem converterem-se na fonte definitiva da legitimidade."
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