Ele já foi "aclamado", na imprensa dos Estados Unidos como o novo "governante de fato" da Venezuela. Donald Trump diz que acalenta o projeto de vê-lo como futuro presidente de Cuba. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, nascido e criado na Flórida de pais cubanos, opera com desenvoltura a política agressiva determinada pelo chefe para restabelecer a hegemonia sobre as Américas — o Hemisfério Ocidental, como prefere a geopolítica de Washington —, em especial na América Latina e no Caribe. Entre aliados (com admiração) e entre rivais (com algo de ironia), ele começa a ser visto e tratado como uma espécie de "vice-rei", bem como possível sucessor na Casa Branca.
Rubio responde pela execução da política externa de Trump em seu conjunto. Mas, por origem e trajetória no Partido Republicano, como senador pela Flórida, se sobressai na ofensiva contra Venezuela, Cuba e outros governos latino-americanos tidos como adversos — inclusive o do Brasil. Tornou-se peça-chave para a recém-batizada Doutrina Donroe, título que funde o prenome do atual presidente com o sobrenome de James Monroe, que a proclamou há dois séculos. O lema anticolonial "A América para os americanos" ganha uma releitura segundo a qual cabe aos EUA, na disputa com a China pela hegemonia global, "reconquistar" uma área de influência "natural" negligenciada pelos últimos governos.
"Ele pode, sim, ser visto como o homem-forte para a América Latina, tem interesse em consolidar o projeto da extrema-direita na região", avalia, em entrevista ao Correio, o professor de relações internacionais Juliano Cortinhas. Depois da captura fulminante do presidente Nicolás Maduro, na Venezuela, e do tenaz bloqueio energético a Cuba, Cortinhas vê outro alvo imediato na mira do secretário de Estado: "Agora, o Brasil é a bola da vez". Tamya Rebelo, que leciona na mesma área na ESPM e na Belas Artes, em São Paulo, é mais cautelosa. "Embora Rubio adote posições críticas em relação a Lula, o Brasil é historicamente um parceiro importante dos EUA", pondera. "O caso do Brasil apresenta camadas mais complexas."
Afinidades
As afinidades com o presidente, nesse e em outros terrenos, explicam a posição ocupada pelo secretário de Estado no círculo mais íntimo do poder, em Washington. "Rubio é uma voz potente no tabuleiro regional também porque suas interpretações são compatíveis com várias prioridades do governo Trump", observa a professora. "Em recente audiência no Senado, afirmou que os EUA negligenciaram a América Latina durante 20 anos, permitindo o avanço da China e de outras potências, e que agora seria o momento de reverter esse quadro."
É por essa perspectiva que a estudiosa analisa as ambições políticas do secretário, que o jornalista Manuel Roig-Franzia, autor de 'A ascensão de Marco Rubio', define como "caminhar lado a lado com Donald Trump para chegar a outro lugar, aquele onde Trump está sentado, que é a Casa Branca". Tamya lembra a dura troca de ataques entre os dois em 2016, quando disputaram a indicação do Partido Republicano para a disputa pela Casa Branca: "Trump o chamava de 'pequeno Marco', e Rubio chamava Trump de 'vigarista'." Agora, avalia, "os ruídos do passado têm sido deixados para trás".
A professora da ESPM vê no desempenho do secretário, em especial naquele que os EUA veem como seu "quintal", um trunfo para um possível voo de alcance mais longo. "A maior atenção dedicada por ele à América Latina pode estar relacionada não apenas ao seu conhecimento sobre a região, mas também aos ganhos políticos que eventuais resultados poderiam lhe proporcionar, inclusive como um ativo para uma possível candidatura à presidência", considera.
John Quincy Adams, que respondeu pelo Departamento de Estado há dois séculos, é tido como o cérebro por trás da Doutrina Monroe. Pode servir como referência e inspiração para Marco Rubio: em 1825, tornou-se o sucessor de James Monroe.
