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Os alertas vermelhos na campanha de Lula e as armas que ele quer usar

Empatado no segundo turno com Flávio Bolsonaro, petista teme ser impactado pela crise no Supremo e pretende reverter maré negativa com atos em grandes colégios eleitorais e aprovação de projetos no Congresso.

Crise do Supremo pode respingar em Lula e atrapalhar a campanha, que chega à metade na semana que vem -  (crédito: Adriano Machado/Reuters)
Crise do Supremo pode respingar em Lula e atrapalhar a campanha, que chega à metade na semana que vem - (crédito: Adriano Machado/Reuters)

A primeira metade da campanha eleitoral quase acabou e, até o momento, o saldo parece ser negativo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No primeiro dia da campanha, quando Lula realizou um ato em São Bernardo do Campo (SP) tentando resgatar a sua história de líder metalúrgico no ABC, a estratégia era conquistar apoio, avançar com pautas positivas para o governo e, assim, navegar com uma certa distância de seu principal rival para chegar ao segundo turno com fôlego.

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Naquele dia, 16 de agosto, Lula estava numericamente a frente de seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil, no cenário para segundo turno.

Ele aparecia com 45% e Flávio com 43%. Agora, os dois aparecem empatados numerciamente com 44%.

A campanha de Lula via nesta semana a possibilidade de um alívio após dias de pressão pela divulgação de trechos de investigações sobre o filho mais velho do presidente, Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha.

A aposta era de que a semana pudesse entregar algum alívio no noticiário com a aprovação de pautas positivas para o governo como o fim da taxa das blusinhas e a aprovação do projeto do fim da escala 6x1.

Mas a crise instalada no Supremo Tribunal Federal (STF), que tem como pano de fundo o escândalo do Banco Master, atrapalhou, para dizer o mínimo, os planos para que a campanha do petista decolasse.

Crise no Supremo

A avaliação de uma fonte próxima à campanha consultada pela BBC News Brasil é que a crise na qual o Supremo mergulhou pode respingar em Lula, devido ao sentimento antisistema que pode ficar ainda mais latente agora.

Às vésperas da eleição, o efeito "contra tudo isso que está aí" pode contaminar a candidatura do petista, afirmou a fonte, que pediu para não ter o nome divulgado.

Além disso, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, é visto pela opinião pública como alguém próximo a Lula. Seu suposto envolvimento e proximidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, segundo apontaram as investigações da Polícia Federal tornadas públicas nesta semana, podem causar impacto na imagem de Lula.

Na visão do interlocutor, desgastar Moraes pode respingar no presidente pelo simples fato de o ministro ser visto como alguém alinhado ao petista.

De olho nos possíveis desdobramentos, Lula foi às redes sociais, na quinta-feira (3/9), dizer que "diante da gravidade do momento, o povo brasileiro espera que o presidente da Suprema Corte e a Procuradoria-Geral da República liderem um processo que garanta a integridade e a confiança nas investigações."

Sem mencionar nomes, disse que "nossa democracia não pode ficar refém de vazamentos seletivos."

"Fica claro que nossos sistemas político e judiciário precisam de reformas profundas. É fundamental que se investigue todo mundo, sem blindagem de ninguém, doa a quem doer", disse Lula.

O estopim da crise foi a retirada de sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) que aponta que o banqueiro Daniel Dantas, preso desde março, trocava mensagens com um contato atribuído a Alexandre de Moraes. A decisão por tornar público o inquérito foi do relator do caso, o ministro André Mendonça.

A BBC News Brasil mostrou que o número de telefone atribuído pela PF a Alexandre de Moraes também está associado a contas digitais identificadas com o nome do ministro.

Nas conversas, o banqueiro pede conselhos a Moraes e até a intervenção do ministro a seu favor junto ao diretor da PF, Andrei Neto, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Os diálogos também mostram que o banqueiro cobrava atenção especial aos pagamentos do contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.

O escritório nega irregularidades no contrato. Moraes ainda não se manifestou sobre o caso, mas reagiu na Corte: enviou um despacho no âmbito do Inquérito das Fake News acusando Mendonça de, "em tese", ter cometido improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e de abuso de autoridade, com quebra da "imparcialidade judicial" e "favorecimento a determinados grupos políticos".

Segundo Moraes, que usou relatórios da inteligência da PF para as acusações, Mendonça teria cometido tais crimes ao atuar como relator dos casos do escândalo do INSS (Operações Sem Desconto) e do Banco Master (Operação Compliance Zero).

O despacho e os documentos citados foram enviados ao presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, pedindo que ele tome "as providências que entender necessárias".

Em meio ao fogo cruzado, Fachin precisou se posicionar. Na sexta-feira (4/9), o ministro fez um pronunciamento ao lado de Lula, durante uma cerimônia no Palácio do Planalto relacionada a fundos de financiamento do sistema de Justiça.

No discurso, Fachin afirmou que a crise atual no tribunal reforça a necessidade de encerrar o Inquérito das Fake News. Criado em 2019, o inquérito é de relatoria de Moraes e é renovado desde então, sob críticas de especialistas.

O inquérito se tornou uma das principais frentes de investigação do STF contra ataques às instituições e a disseminação de desinformação, atingindo políticos e ativistas ligados ao bolsonarismo.

"Os acontecimentos recentes demonstram o acerto e a urgência de três metas da nossa gestão: a adoção de um Código de Ética, o fim do Inquérito das Fake News, e a modernização do sistema de Justiça."

Fachin também disse que "nenhuma autoridade está acima da Constituição, nenhuma autoridade está acima da lei". E prometeu resposta rigorosa para a crise, mas sem precipitação.

A crise, segundo fonte consultada pela BBC, também leva para longe uma munição valiosa para a campanha de Lula: o caso Dark Horse, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). As investigações sobre Vorcaro mostraram que o banqueiro deu dinheiro, a pedido de Flávio, para, supostamente, financiar o longa.

O senador nega ter praticado qualquer irregularidade e disse que a relação com o dono do Banco Master era meramente comercial. Segundo o parlamentar, ele estaria apenas cobrando parcelas atrasadas de um pagamento prometido pelo banqueiro ao filme.

Para o interlocutor petista, os holofotes sobre os ministros do Supremo afastam o debate sobre uma suposta relação de Flávio com o banqueiro.

Além disso, segundo ele, a situação coloca Lula em uma posição politicamente difícil. Embora, internamente, Moraes não seja tratado como um aliado, há um entendimento de que Lula deverá calcular com cuidado o quanto se distancia de um ministro até então bastante poderoso no STF.

A ideia é que esse distanciamento sirva para "blindar" Lula por um lado, mas não cause ruídos na relação do presidente com o ministro.

Edson Fachin, Lula e Paulo Gonet, nesta sexta em Brasília.
Adriano Machado/Reuters
Crise do Supremo pode respingar em Lula e atrapalhar a campanha, que chega à metade na semana que vem

Dependência do Congresso

A crise instalada no Supremo "sequestrou o debate público", avalia o interlocutor, e pode ainda atrapalhar o avanço ou o impacto de projetos que o Planalto previa aprovar no Congresso na reta final de campanha, como o fm da escala 6x1.

Desde o início do ano, o governo vem tentando atrair novos eleitores lançando mão de políticas para estimular a economia. Na cesta de Lula, entraram em vigor a redução do imposto de renda para a classe média, a linha de crédito para entregadores e a nova versão do Desenrola para a negociação de dívidas.

Além disso, programas sociais, como o Gás do Povo e Luz do Povo, foram turbinados.

Nada disso, no entanto, deu fôlego para levantar significativamente a avaliação positiva do presidente. Do início do ano para cá, a aprovação de seu governo passou de 45% no início de fevereiro para os atuais 47%, segundo o Datafolha. Metade (50%) dos entrevistados desaprova a gestão do petista.

Segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil, essa letargia também se reflete nas intenções de voto. Embora tenham mudado um pouco ao longo do caminho, os números de janeiro são praticamente os mesmos de agora, tanto no primeiro quanto no segundo turno.

Em janeiro, Lula tinha 39% das intenções de voto no primeiro turno e 46% no segundo. Hoje tem 38% e 45%, respectivamente.

Para Luciana Santana, cientista política e professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), os números refletem a cristalização do eleitorado. "Não é nem polarização, é cristalização, porque um terço dos eleitores votam em Lula de qualquer jeito e rejeitam qualquer coisa vinda do bolsonarismo, e um terço vota em Flávio e rejeita qualquer coisa da esquerda", afirma.

"Lula não tem conseguido nenhum projeto, programa ou proposta até agora que mude esse cenário", afirma . "Pode ser que, com a aprovação do fim da escala 6x1, isso mude um pouco o curso."

Nesta semana, a PEC que acaba com a jornada 6x1 foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, depois de passar meses travada na Casa. O projeto andou depois que Lula conseguiu se reaproximar do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), após um período de estremecimento.

Alcolumbre destravou também a MP da taxa das blusinhas e a política nacional para minerais críticos e estratégicos, ambos aprovados na quinta-feira.

No entanto, o fim da escala 6x1, considerado a maior vitrine para a campanha petista, ainda precisa passar em dois turnos no plenário do Senado. A expectativa era que a primeira votação ocorresse já na quinta, após apovada na Comissão, em caráter de urgência, mas isso não aconteceu.

Eleitor de São Paulo

A campanha do presidente também deve intensificar as agendas de rua em São Paulo, no interior e na capital. É sabido que o petista precisa ter melhor aceitação no Sudeste, região onde, juntamente com o Sul, ele encontra maior rejeição, segundo as pesquisas.

Rio de Janeiro e Minas Gerais também estão no alvo da agenda petista, segundo a reportagem apurou. Juntos, esses três estados respondem por mais de 40% do eleitorado.

Segundo pesquisa Datafolha divulgada na semana passada, Flávio Bolsonaro tem ligeira vantagem sobre Lula tanto no primeiro quanto no segundo turno entre os paulistas. Por isso, a campanha terá "foco total" em São Paulo, segundo a reportagem apurou.

A agenda da campanha confirma essa informação: neste sábado (5/9), o PT realiza ato em São José do Rio Preto (SP), com Lula, o vice-presidente, Geraldo Alckmin, e o candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad.

Efeito Lulinha

Nas últimas semanas, trechos dos três inquéritos que investigam Fábio Luís Lula da Silva, um dos filhos do presidente, foram publicados pela imprensa. Dentre eles, mensagens trocadas entre ele e a lobista Roberta Luchsinger.

Lulinha é alvo de três inquéritos abertos em menos de uma semana, todos entre 30 de julho e 4 de agosto. As investigações apuram um suposto tráfico de influência em favor de empresas interessadas em obter contratos com o governo federal.

A PF quer saber, por exemplo, se Lulinha se associou à lobista e usou o fato de ser filho do presidente para ajudar, indevidamente, empresas privadas a obterem contratos públicos.

Em entrevista à TV Globo na semana passada, Lula classificou as acusações como "ilações".

"Ali não tem nenhuma acusação. São ilações, ilações, ilações tiradas de telefonemas. Eu conheço isso muito bem porque já vivi isso", afirmou o presidente, referindo-se à Operação Lava Jato, que o levou à prisão.

Lula tem dito que não vai impedir as investigações da PF contra Lulinha.

"Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro. Eu não vou afastar o delegado da Polícia Federal. Eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja beneficiado", afirmou.

As investigações também vêm sendo mencionadas constantemente pelos principais adversários de Lula à reeleição, como Flávio Bolsonaro.

Mas na avaliação de Luciana Santana, o eleitor "cristalizado" não se abala nem mesmo com repercussões negativas dos candidatos. E isso vale tanto para Lula, quanto para Flávio.

Passado quase um mês desde que os inquéritos vazaram, o agregador de pesquisas da BBC News Brasil mostra uma ligeira queda de Lula e um pequeno aumento de Flávio nas intenções de voto, tanto no primeiro quanto no segundo turno.

Não é possível cravar, no entanto, os fatores exatos que levaram a essas oscilações.

"O caso do Lulinha, eu não sei se está mexendo com o eleitorado. Eu acho que não", diz Santos. Não é um tema novo. Desde 2006 ele é utilizado em campanhas. Tira algum voto, mas acho que não é expressivo."

Ao mesmo tempo, segundo a especialista, o caso Dark Horse também parou de ter o efeito que teve num primeiro momento. "Lula vai ter que trazer algo novo para a propaganda de rádio e TV, conectado às expectativas das pessoas. Não dá só para requentar programas, a marca, a música… algo que justifique um 4º mandato", afirma ela.

E, embora a campanha já esteja quase na metade, Luciana Santos acredita que será a partir da semana que vem que as peças vão se mover com mais clareza no xadrez eleitoral.

"Eu acho que a campanha em que a gente vai conseguir ver alguma mudança vai ser a partir de 7 de setembro. O termômetro começa no dia 7 de setembro, que é quando as situações locais já estão acomodadas, as primeiras pesquisas já saíram e as pessoas passam a iniciar efetivamente o conhecimento e notam que estão numa eleição. Olhando as pesquisas espontâneas hoje, uma parcela muito grande do eleitorado ainda está alheia."

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BBC
Marina Rossi e Leandro Prazeres - Da BBC News Brasil em São Paulo e em Brasília
postado em 05/09/2026 06:44
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