ENTENDA

Por que a natureza te faz sentir mais calmo?

Desde a redução da ansiedade até a diminuição da pressão arterial, passar tempo na natureza demonstrou diversos benefícios. Mas pesquisas recentes sugerem que nem todas as pessoas podem reagir da mesma maneira.

Os centros Maggie's não são os únicos locais que aproveitam a natureza: o King's College Hospital, no Reino Unido, inaugurou uma unidade de terapia intensiva na cobertura, onde até seis pacientes podem permanecer enquanto estão conectados às fontes de energia e oxigênio -  (crédito: BBC)
Os centros Maggie's não são os únicos locais que aproveitam a natureza: o King's College Hospital, no Reino Unido, inaugurou uma unidade de terapia intensiva na cobertura, onde até seis pacientes podem permanecer enquanto estão conectados às fontes de energia e oxigênio - (crédito: BBC)

Com que frequência você sai ao ar livre e mergulha na natureza?

Pesquisas mostram que conectar-se com ambientes naturais pode trazer diversos benefícios, desde a redução da ansiedade e da depressão até a diminuição da pressão arterial.

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Muitos de nós podemos confirmar que nos sentimos melhor depois de um passeio em meio à natureza. Mas de onde vem essa afinidade com a natureza? E será que todos podem colher os mesmos benefícios?

A natureza como medicina

Há algum tempo, vêm sendo apontados os benefícios da natureza em ambientes de saúde.

Na década de 1980, um estudo constatou que pacientes submetidos a cirurgia de vesícula tinham condições de receber alta, em média, quase um dia antes caso pudessem ver árvores através de uma janela.

Pacientes que tinham vista para uma parede de tijolos não apenas precisavam de analgésicos mais fortes durante a recuperação, como também recebiam mais observações negativas por parte da equipe de enfermagem — como "abalado e choroso" ou "precisa de muito incentivo".

Hoje, alguns hospitais e centros médicos estão ampliando essa ideia.

A organização beneficente de apoio a pacientes com câncer Maggie's mantém centros voltados ao bem-estar em todo o Reino Unido e em locais como Hong Kong e Japão. Robin Muir é psicólogo clínico e dirige a unidade de Manchester, na Inglaterra.

Ele contou ao podcast da BBC Why Do We Do That que o prédio é cercado por um jardim de 360 ??graus, com janelas do chão ao teto que trazem a natureza para dentro. Isso ajuda os visitantes a se sentirem tranquilos e conectados ao mundo exterior.

"Infelizmente, as cidades podem, por vezes, carecer de ambientes naturais, vida selvagem e áreas verdes", diz ele. Portanto, para alguém que passa por um tratamento contra o câncer, "o que aquele jardim e a natureza proporcionam é algo realmente terapêutico".

Uma vista aérea de um jardim na cobertura com vários vasos grandes e bancos, e coberturas que oferecem abrigo em algumas áreas; o espaço está situado em meio a uma paisagem urbana movimentada, cercado por muitos edifícios.
BBC
Os centros Maggie's não são os únicos locais que aproveitam a natureza: o King's College Hospital, no Reino Unido, inaugurou uma unidade de terapia intensiva na cobertura, onde até seis pacientes podem permanecer enquanto estão conectados às fontes de energia e oxigênio

E os benefícios da natureza não parecem se limitar à área da saúde.

Um estudo realizado na Snake River Correctional Institution, no Oregon (EUA), constatou que detentos que assistiam a vídeos da natureza de três a quatro vezes por semana cometiam 26% menos infrações violentas — o equivalente a 13 incidentes violentos ao longo de um ano.

Como a natureza muda o corpo humano

Uma ideia conhecida como hipótese da biofilia defende que os seres humanos têm um impulso inato de estar próximos à natureza, uma vez que nossos ancestrais evoluíram em ambientes selvagens. Na década de 1980, o biólogo Edward O. Wilson sugeriu que esse impulso está codificado em nossos genes.

Embora existam evidências provenientes de estudos com gêmeos que sugerem um componente genético, até o momento não foi identificado nenhum gene — ou família de genes — que leve diretamente ao amor pela natureza.

No entanto, os cientistas têm algumas hipóteses sobre como passar tempo na natureza pode nos fazer sentir melhor, tanto em nível fisiológico quanto cognitivo.

Gregory Bratman, professor associado e diretor do laboratório de meio ambiente e bem-estar da Universidade de Washington (EUA), aponta a existência de duas teorias principais.

Uma delas é a hipótese da redução do estresse, segundo a qual ambientes naturais desencadeiam alterações fisiológicas em nosso organismo que diminuem os níveis de estresse.

Isso se manifesta por meio da ativação do sistema nervoso parassimpático — o chamado modo de "repouso e digestão", associado a respostas como a redução da frequência cardíaca.

Assim, segundo Bratman, o contato com a natureza poderia nos ajudar a nos preparar para eventos estressantes, neutralizar nossas reações ao estresse no momento em que ele ocorre e também auxiliar na recuperação posterior.

Uma foto noturna de um cruzamento movimentado em Tóquio, no Japão, com muitas pessoas atravessando em diferentes direções e cercado por edifícios altos e modernos cobertos de outdoors intensamente iluminados.
Francesco Riccardo Iacomino via Getty Images
Segundo a teoria da restauração da atenção, ambientes urbanos esgotam nossa capacidade de bloquear distrações e focar

A outra ideia principal é a teoria da restauração da atenção, que defende que a natureza ajuda a fortalecer nossa capacidade de ignorar distrações e nos concentrar em algo — o que é chamado de atenção direcionada.

"Ambientes urbanos tendem a apresentar mais distrações, como desviar de carros e do trânsito, além de ruídos", diz Bratman. "Isso sobrecarrega nossa atenção direcionada. Ela acaba se esgotando."

Por outro lado, muitos ambientes naturais estimulam nossa atenção indireta.

"Aquela sensação de estar em outro lugar, a sensação de sintonia com o ambiente. Quando esse aspecto da nossa atenção é acionado, cria-se uma oportunidade para que a atenção direcionada se recupere", explica ele.

Pesquisas do próprio Bratman constataram melhorias na memória de trabalho de pessoas que fizeram uma caminhada na natureza, em comparação com aquelas que caminharam em ambiente urbano, durante 50 minutos.

Além de apresentarem redução em indicadores como a ansiedade, os participantes que caminharam na natureza tiveram um desempenho melhor em um teste que exigia memorizar uma sequência de letras aleatórias enquanto resolviam equações matemáticas simultaneamente.

Eles "lembraram, em média, cerca de nove ou dez letras a mais, mesmo levando em conta o desempenho na matemática", recorda Bratman. "Já o desempenho de quem caminhou na área urbana permaneceu praticamente inalterado."

Uma foto, vista de costas, de uma mulher subindo degraus de pedra baixos, cercada por árvores e vegetação em tons vibrantes de verde, vermelho e laranja.
Patchareeporn Sakoolchai via Getty Images
Bratman também constatou que as pessoas que caminhavam na natureza remoem menos pensamentos negativos sobre o passado

É possível que a natureza nos afete tanto pela redução do estresse quanto pela restauração da atenção. "Não acho que sejam mutuamente exclusivos", diz ele.

Vegetação ou deserto?

No entanto, é importante notar que nem todas as pessoas vivenciam a natureza da mesma maneira.

Em um estudo, pesquisadores japoneses compararam jovens que passavam tempo em florestas ou em ambientes urbanos.

Cerca de 80% daqueles que ficaram na floresta apresentaram um aumento em um indicador de atividade do sistema nervoso parassimpático. Os outros 20% mostraram uma redução.

Bratman afirma que uma questão para a qual os pesquisadores estão se voltando agora é como diferentes tipos de natureza podem exercer impactos distintos sobre diferentes pessoas.

Ele destaca um trabalho realizado com colegas dos EUA, em El Paso, no Texas, no qual submeteram os participantes a um desafio estressante e, em seguida, os expuseram a um de três ambientes em realidade virtual: uma paisagem verde, uma paisagem desértica e um ambiente de escritório (como grupo de controle).

"Nossa hipótese era a de que o ambiente verde traria mais benefícios às pessoas", diz ele, "com base na teoria psicoevolutiva de redução do estresse, segundo a qual ambientes verdes ativam nosso sistema de 'repouso e digestão', pois oferecem condições para visualizar onde estão predadores, presas e fontes de água".

Para surpresa da equipe, o ambiente desértico também pareceu promover a recuperação do estresse em um nível semelhante, diz Bratman, "embora, de acordo com a teoria psicoevolutiva, não haja água nem fontes de alimento ali".

Uma composição de duas fotos ao nascer do sol: um prado verde à esquerda e um deserto marrom à direita.
George Pachantouris/Marco Bottigelli via Getty Images
A forma como reagimos a diferentes tipos de natureza pode depender daquilo a que estamos acostumados, sugerem especialistas

Os pesquisadores não sabem ao certo, mas é possível que isso tenha alguma relação com o fato de El Paso ser uma cidade desértica e de os participantes talvez se sentirem "mais seguros e familiarizados com o ambiente desértico".

Bratman suspeita que nossas experiências de vida e preferências pessoais possam, de fato, moldar nossa resposta à natureza.

"Sinto que pertenço a este lugar? Quais são as minhas lembranças deste local ou deste tipo de natureza? Tudo isso desempenha um papel fundamental", sugere ele.

'Exposição repetida'

O que o crescente corpo de pesquisas sugere é que alguma forma de contato com a natureza pode trazer benefícios à saúde para muitos de nós.

Hoje, mais de 80% da população mundial vive em vilas e cidades, segundo a ONU, e Bratman afirma que devemos considerar como "proporcionar algum tipo de acesso à natureza para todos — e especialmente para as crianças —, seja nos pátios das escolas, seja em seus bairros".

Talvez você nem sempre tenha vontade de sair para caminhar, mas ele diz que, "mesmo que as mudanças de humor ou nos padrões de pensamento sejam pequenas, esses efeitos provavelmente se acumulam com o tempo".

"Assim, exposições repetidas ao longo de dias, semanas, meses ou anos poderiam levar, potencialmente e em alguns casos, a diferenças bastante profundas no humor."

Baseado em um episódio do podcast Why Do We Do That, da BBC Sounds (ouça aqui, em inglês).

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BBC
BBC Sounds; Catherine Heathwood
postado em 08/09/2026 14:22 / atualizado em 08/09/2026 14:44
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