
A presença de Donald Trump e da primeira-dama, Melania, na pista da base aérea de Andrews, em Washington, dá uma medida razoavelmente clara da importância que a Casa Branca dá à visita de Estado do presidente da China. Xi Jinping desembarcou na noite de ontem com a primeira-dama, Peng Lyuan, e cumprirá até amanhã uma agenda que vai além da reunião bilateral marcada para hoje, seguida de jantar de gala na mansão presidencial.
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O casal visitante será ciceroneado por museus e outras atrações turísticas e culturais. Mas, na interação entre os líderes, a pompa cerimonial dará lugar ao pragmatismo: sem a expectativa de acordos significativos em temas como a inteligência artificial, ou sobre o conflito no Oriente Médio, os diplomatas das duas partes se concentraram em prorrogar a trégua firmada em outubro passado, na Coreia, para a guerra das tarifas comerciais. Já em seguida ao desembarque, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou a decisão de estender a vigência até janeiro.
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"Receber na base de Andrews com tapete vermelho não é honra para um aliado qualquer, que dirá para um adversário, como o presidente da China", comentou o estudioso de assuntos asiáticos David Sacks, do Conselho de Relações Exteriores (CFR), uma espécie de "laboratório político" do Departamento de Estado. "É algo realmente espantoso, sem precedentes", observou.
Interesse compartilhado
A ênfase na pompa espelha a recepção oferecida a Trump em maio, em Pequim, onde foi brindado com o raro privilégio de visitar o reservado complexo onde moram os altos dirigentes do Partido Comunista. A primeira visita de Xi à capital dos EUA desde 2015 marca, também, o terceiro encontro entre os dois no intervalo de um ano — outra indicação do interesse compartilhado em cultivar as relações, a despeito das divergências.
Em um briefing virtual promovido para a imprensa pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), sediado em Washington, o especialista em assuntos econômicos chineses Scott Kennedy apontou as expectativas limitadas de ambos os lados como uma construção destinada a fazer do encontro um sucesso, ainda que sem resultados de grande impacto. "Os chineses gostariam de estender a trégua comercial até o fim do mandato de Trump, mas a Casa Branca preferia apenas mais alguns meses, para manter a pressão."
De um e outro lado, Kennedy identifica um cálculo político. "Com as eleições legislativas de novembro no horizonte, não é do interesse do governo Trump provocar uma crise com Pequim bem agora", observa. Xi, por sua vez, se encaminha para consagrar mais um mandato à frente do Partido Comunista no congresso marcado para daqui a um ano. "Como para Trump, seu futuro político se assenta em manter um ambiente externo estável, o que implica manter as coisas em calma com os EUA."
Inteligência artificial
A disputa no terreno da alta tecnologia é outro terreno no qual os estudiosos veem potencial para algum tipo de anúncio, ainda que de alcance limitado. "A polêmica recente sobre uma possível desaceleração coordenada no desenvolvimento da inteligência artificial é apenas a parte mais visível de uma disputa muito maior", disse ao Correio Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM. "Para Washington, estão em jogo a segurança da IA, semicondutores avançados e o acesso chinês à capacidade computacional americana", explica. "Para Pequim, controles de exportação e restrições tecnológicas são vistos como instrumentos para limitar sua ascensão tecnológica."
Rudzit aponta "um paradoxo interessante", capaz de abrir caminho para algum avanço de interesse comum, ao menos como resultado palpável da cúpula. "EUA e China competem para avançar mais rapidamente na IA. Mas, justamente porque a tecnologia avança rapidamente, também precisam discutir mecanismos para impedir que essa competição produza acidentes ou escaladas, especialmente no campo militar", pondera. "Portanto, é possível haver algum diálogo sobre salvaguardas, mesmo sem qualquer acordo para frear a competição tecnológica."
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