Corrida tecnológica

Papa Leão alerta para riscos da inteligência artificial em Paris

Na primeira visita de um pontífice à França em duas décadas, Leão XIV é aclamado por uma multidão de fiéis nas ruas de Paris, discursa sobre os dilemas éticos do esenvolvimento científico e faz vigília de oração com milhares de jovens

O pontífice na vigília com 80 mil jovens no mítico Stade de France, no subúrbio da capital: recepção de popstar -  (crédito: Julien de Rosa/AFP)
O pontífice na vigília com 80 mil jovens no mítico Stade de France, no subúrbio da capital: recepção de popstar - (crédito: Julien de Rosa/AFP)

Depois de ter dominado os debates na Assembleia Geral da ONU e de ter figurado com relevo nas conversações mantidas em Washington entre Donald Trump e o presidente da China, Xi Jinping, a inteligência artificial (IA) voltou a ser questionada ontem pelo papa Leão XIV, no primeiro dos quatro dias de sua viagem à França. Aclamado nas ruas de Paris por uma multidão calculada pelo Vaticano em 300 mil pessoas, o primeiro pontífice a visitar o país em 20 anos abordou o tema em discurso no Palácio do Eliseu, diante do presidente Emmanuel Macron e da primeira-dama Brigitte.

Recém-desembarcado em um país oficialmente laico, mas de longa tradição católica, Leão XIV retomou o alerta feito em maio em sua primeira encíclica, Magnifica humanitas ("Magnífica humanidade"), sobre os riscos do desenvolvimento acelerado da tecnologia, em particular a IA. Convocou a sociedade a "formar mentes capazes de distinguir o que é moralmente bom", de maneira a que "o progresso tecnológico esteja a serviço da dignidade humana". "Se quisermos evitar perder nossa humanidade em meio a um 'paraíso de máquinas' que invade e condiciona nossa vida cotidiana, há uma necessidade urgente de educação para o discernimento ético", completou. O texto da encíclica pede que a IA seja "desarmada", para que seja "impedida de dominar o que é humano". 

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O próprio presidente francês, que dias antes havia feito ponderações sobre o tema na sede da ONU, em tom semelhante, voltou a defender o estabelecimento de "uma organização internacional" com a missão de evitar que os "modelos mais avançados" de inteligência artificial acabem "nas mãos de poucos".

As colocações de Macron e do papa contrastaram fortemente com o discurso de Trump perante a Assembleia Geral, como também com suas declarações sobre o tema ao longo das conversações que teve em seguida, em Washington, com o presidente da China, Xi Jinping. Enquanto o visitante enfatizou "a capacidade e a responsabilidade" das duas potências de "garantir que a IA se desenvolva sempre sob controle humano", o anfitrião, em postagem nas redes sociais, rejeitou qualquer tipo de regulação sobre a tecnologia. "Quero deixar isso exatamente como está". Não por acaso, executivos das principais big techs estiveram à mesa no banquete de Estado oferecido ao primeiro-casal chinês na Casa Branca, na noite de quinta-feira.

Popstar

Além de visitar a sede da Unesco, Leão XIV celebrou uma oração vespertina na catedral de Notre-Dame, tornando-se o primeiro papa a inspecionar sua reconstrução após o devastador incêndio de 2019 e a celebrar seu "esplendor". Mas o primeiro dia em Paris teve como ponto alto uma vigília de orações com cerca de 80 mil jovens entre 17 e 35 anos, no mítico Stade de France, em Saint-Denis, subúrbio ao norte da capital. O entusiasmo dos fiéis foi comparado por meios de imprensa ao despertado pelas apresentações de popstars. "Nesta era em que estamos centrados em nós mesmos, ele nos diz que não devemos esquecer de olhar para os outros", disse à agência de notícias France-Presse (AFP) a enfermeira Coralie Cece, de 33 anos, que pediu um dia de folga para poder "ouvir o papa de perto". "A mensagem dele é muito importante para mim."

Cerca de 15 mil policiais e gendarmes foram mobilizados para a segurança do pontífice nas três etapas da visita. Hoje, ele celebra missa campal na turística Champs-Elysées, no coração de Paris. A expectativa é de que compareçam até 600 mil fiéis. Da capital, Leão XIV segue amanhã para Lourdes, cujo santuário é destino de peregrinação para católicos e outros cristãos de todo o mundo. Lá, terá reunião reservada com vítimas de agressões sexuais na Igreja. Segunda-feira, em Metz, o roteiro termina com um discurso sobre a paz e a União Europeia.

 

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postado em 26/09/2026 05:00
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