A Assembleia-Geral das Nações Unidas, que será aberta hoje em Nova York, deu a ocasião para que o presidente da China, Xi Jinping, tenha na quinta-feira o segundo encontro cara a cara com Donald Trump no segundo mandato, menos de seis meses depois de recebê-lo em Pequim. O jantar de Estado oferecido ao visitante na Casa Branca terá um cardápio recheado de questões críticas, começando pela guerra de tarifas comerciais, arrefecida no ano passado por uma trégua apenas conveniente — para ambas as partes —, mas inconclusiva.
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Nas últimas semanas, os dois governos se viram às voltas com controvérsias em torno do desenvolvimento acelerado da inteligência artificial, com seus riscos e oportunidades. Os minerais críticos para a economia pós-carbono, como as terras raras, tangenciam a pauta tecnológica. Mas, no terreno geopolítico, os dois líderes terão à mesa a guerra iniciada por Trump no Irã: o conflito, com os efeitos colaterais no mercado global de petróleo, pressiona a inflação nos Estados Unidos e coloca em risco o abastecimento da potência oriental em ascensão.
É nas prioridades de cada um que estudiosos e observadores se debruçam, no esforço de antecipar possíveis cenários e resultados para o encontro. "Há uma agenda muito ampla: comércio e tarifas, semicondutores, inteligência artificial, minerais críticos, Taiwan e, agora, a guerra com o Irã", disse ao Correio o professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM. "O resultado mais provável são entendimentos pontuais que reduzam algumas tensões, sem alterar a disputa estrutural entre as duas potências. É uma tentativa de estabilizar a competição, não de encerrá-la", resume.
Durante um briefing aberto à imprensa pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), com sede em Washington, o especialista em assuntos chineses Edgard Kagan ressaltou o curto intervalo desde a cúpula bilateral de maio, na capital chinesa — "algo muito fora do padrão nas relações EUA-China". Kagan entende que, no fundamental, "a visita em si é a mensagem". "Trump e Xi compartilham a visão de que cada um deles é o único governante capaz de lidar com o outro, e que a interação direta entre eles é a única maneira de administrar as relações bilaterais."
Eleições no horizonte
Juliano Cortinhas, professor de relações internacionais na UnB, vê nas eleições legislativas do início de novembro o horizonte imediato das preocupações de Trump, que vê a popularidade em queda livre com o impacto inflacionário da alta doméstica nos combustíveis — decorrência da guerra iniciada por ele contra o Irã, em fevereiro, sem perspectiva de uma solução próxima. "A questão inflacionária está muito presente na vida dos americanos, que não está sentindo condições de manter o padrão de consumo", disse à reportagem. Cortinhas soma a isso o impasse em torno das tarifas comerciais. "O que está por trás da relação entre EUA e China é a questão comercial. Principalmente, destravar as disputas tarifária", analisa.
O estudioso da ESPM vê em Xi uma "carta" com que o anfitrião pode contar no esforço de encerrar o conflito no Oriente Médio e normalizar o tráfego de petróleo pelo Estreito de Ormuz, virtualmente fechado pelo Irã desde março. "A China é, provavelmente, uma das poucas potências que ainda possuem canais importantes tanto com o Irã quanto com os EUA", observa. "Pequim é parceira estratégica de Teerã e a principal compradora do petróleo iraniano, o que lhe dá capacidade de influência." Rudzit destaca o interesse chinês em superar o impasse no Oriente Médio, mas não a qualquer preço: "Não vejo a China abandonando o Irã, ou simplesmente pressionando-o para aceitar as condições americanas. Para Pequim, uma mediação só faz sentido se houver concessões e garantias dos dois lados".
Cartas na mesa
Afeito às partidas de pôquer e às negociações ásperas do mercado imobiliário, Trump se sentará à mesa com o convidado com alguns trunfos nas mãos, arrisca o professor. "Os EUA continuam controlando elementos decisivos do ecossistema tecnológico mundial", pondera. "Podem negociar tarifas, o acesso dos produtos chineses ao mercado americano, controles de exportação sobre semicondutores e equipamentos avançados", lembra. "Mas a China possui enorme peso comercial e industrial, é central em diversas cadeias de minerais críticos e continua sendo um mercado fundamental para empresas e produtores americanos." Por isso, argumenta, "isso cria simultaneamente poder de barganha, de ambos os lados, e incentivos para algum tipo de acomodação pontual".
O estudioso da UnB vê Xi em vantagem, e arrisca que o presidente chinês "vai jantar Trump a frio", em plena Casa Branca. "Acho que vai prometer uma série de coisas, até porque sabe que o tempo está a favor dele", afirma Cortinhas. "Ele tem muito menos a perder do que Trump com a crise no Estreito de Ormuz. Nesse sentido, chega para esse encontro com uma posição muito mais consolidada, e essa deve ser uma tendência cada vez mais clara nas relações internacionais, daqui para a frente."
