Por mais de meia hora, o dobro do tempo estipulado, Donald Trump ocupou a tribuna da Assembleia-Geral das Nações Unidas para desfilar perante as delegações dos 193 países-membros a oratória que caracteriza a sua intervenção no cenário internacional: exaltou a potência econômica e militar "inigualável" dos Estados Unidos, atacou o sistema multilateral e a própria ONU, afirmou a hegemonia nas Américas e rejeitou como "farsa" os alertas sobre crise climática e inteligência artificial. O discurso se seguiu à fala inaugural, que cabe sempre ao Brasil, e teve também passagens endereçadas ao público interno, a pouco mais de um mês das eleições legislativas. Para o mundo, sobraram as ameaças, começando pela América Latina, onde invocou o poderio bélico demonstrado na Venezuela para rebater "interferências" dos "inimigos". Quanto ao Irã, renovou o ultimato reiterado desde fevereiro: assinar um acordo ou ser "aniquilado".
"Não permitiremos mais que ameaças contra os EUA criem uma base de apoio em qualquer lugar do Hemisfério Ocidental (as Américas) e, se necessário, usaremos nosso poderio militar sem igual para proteger nossos interesses nacionais vitais", disse. Apresentou, como demonstração, a operação fulminante que resultou na captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em janeiro. A ameaça estava endereçada, particularmente, a Cuba, que retratou como "um Estado falido" e acusou de patrocinar o terrorismo contra Washington. "Cuba cairá", prometeu, na ausência da delegação da ilha, que se retirou. "O comunismo nunca chegará aos EUA, mas a liberdade chegará a Cuba."
Na avaliação do professor de relações internacionais Roberto Uebel, do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (Nean) da ESPM, Trump fez "um discurso misto". "Fala para o mundo, quando afirma que os EUA são a superpotência e que buscam construir uma hegemonia no Ocidente", observa, em entrevista ao Correio. "No âmbito doméstico, apresenta indicadores econômicos questionáveis, na tentativa de recuperar popularidade, já que a fotografia do momento aponta vitória da oposição democrata nas duas casas do Congresso."
"A ação em Caracas demonstrou não apenas até que ponto atual governo dos EUA está disposto a chegar para atingir seus objetivos geopolíticos, mas também a fragilidade defensiva dos países da América Latina", pondera João Paulo Estevam, pesquisador do Neam/ESPM. "Trump está consciente da ampla vantagem dos EUA, e seu histórico de buscar resultados rápidos e palpáveis, para a mídia e o eleitorado, pode contribuir para futuras ações militares no continente."
"Para o inferno"
Foi pela mesma perspectiva de se dirigir aos eleitores, por um lado, e aos aliados e rivais externos, por outro, que o presidente abordou o impasse militar com o Irã, após quase sete meses de uma guerra que afeta a economia global e doméstica, sem oferecer opção para uma saída honrosa. "Um acordo será feito com o Irã para que eles consigam reconstruir um grande país, como já foi antes, talvez um dos maiores países no Oriente Médio, ou será que eu tenho que aniquilar a República Islâmica para o inferno e rapidamente?", questionou-se.
"Trump fala para uma plateia que sabe que ele não tem muitas opções no Irã", analisa Roberto Goulart Menezes, professor titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da UnB. "Ele tenta reduzir toda a complexidade dessa situação, para a economia, a geopolítica e a segurança internacional, a uma questão de vontade unilateral dos EUA. Como se dissesse: 'Se e quiser, vou lá e aniquilo o Irã'. Ele foi a uma guerra que levou a altos índices de impopularidade, e agora tenta mostrar que tem a solução."
Para Menezes, o presidente "procurou usar o espaço das Nações Unidas para exaltar a si próprio e ao seu governo, sobretudo com a ideia de que os EUA estão mais fortes do que nunca. No entanto, prestes a enfrentar uma eleição decisiva, "acabou, em boa parte, falando para o público internacional". O professor do Irel acredita que, para Trump, "o sistema multilateral, representado pela ONU, só serve quando atende aos interesses dos EUA".
