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Deixem o futuro chegar!

Canadá, Holanda, Nova Zelândia e países escandinavos acumulam exemplos de como ressignificar o valor social e econômico da produção científica no corpo social. No Brasil, avançamos muito pouco

. -  (crédito: Caio Gomez)
. - (crédito: Caio Gomez)

Fernando Barrosjornalista e diretor-executivo do Instituto Fórum do Futuro

Entramos em uma nova era. Disrupções tecnológicas aceleradas, incertezas geopolíticas, ajustes inadiáveis na agenda da transição climática e inteligência artificial imprimem uma maneira inédita de produzir riqueza. O motor da economia global migra do capital físico e do trabalho humano para a propriedade intelectual, para a gestão de dados e para a capacidade computacional. Como conectar urgências e realidades complexas com estruturas econômicas, sociais, regulatórias, educacionais e com as escolhas políticas a serem feitas pela sociedade?

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A expressão "resgate da confiança" traz junto a responsabilidade de recompor canais credíveis de mediação entre o universo das complexidades e o território da realidade. Uma pesquisa do Pew Research Center anotou que 14 milhões de norte-americanos acreditam que o leite achocolatado vem de vacas marrons. É nesse mundo que a mediação entre as elites produtoras de conhecimento e a sociedade deixa de ser opção. Passa a ser um dever.

A tarefa não é simples, claro, e tem dois eixos centrais. O primeiro é o do jornalismo profissional. No Brasil e no mundo, as empresas e instituições do setor não investiram o suficiente para esclarecer o seu papel numa sociedade governada por relações algorítmicas, onde o jovem é a vítima maior de uma lógica que confunde opinião e informação. Há reações, mas até agora tímidas e ineficientes. 

Os jovens (e 50% da população brasileira têm menos de 35 anos) via de regra desconhecem o quanto custa produzir uma informação de qualidade, quantos profissionais envolve, a formação exigida, quais são os métodos e protocolos éticos de apuração e checagem. Culpar o algoritmo é diagnóstico parcial e não constrói uma saída viável e voltada para a reorganização do futuro.  

O segundo eixo essencial para superar a armadilha da estagnação da reflexão propositiva pautada pela polarização é o desenho de um novo mapa do caminho, por meio de um canal de diálogo fluido entre ciência e sociedade. 

A necessidade não é nova. A ciência da comunicação a discute há muito tempo — Marshall McLuhan (O meio é a mensagem, 1967), Dominique Wolton (Comunicar é negociar, 2022), ou ainda desde a frase-símbolo do professor Umberto Eco (2015): "As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis".

E acumulam-se as evidências. A partir dos anos 1980, a ciência perde aceleradamente espaço de referência social e política. Constata-se por várias métricas. Os resultados práticos pífios obtidos pelas COPs, a partir de 1992, é uma das mais eloquentes. Outra, a perda de valor real do orçamento público (ano a ano, desde 2013) aplicado em pesquisas no setor agropecuário, um dos mais dinâmicos pilares da economia nacional. 

Como sensibilizar a comunidade científica para incorporar a relação com a sociedade como missão? Introduzir no sistema de ensino a aplicação prática das teorias é indispensável, diz o professor Claudio Moura Castro. O jornalista Rodrigo Mesquita trouxe uma pergunta fundante num Seminário realizado na USP, em outubro de 2020: "Quem controla a esfera pública, hoje?". Ele explica:

"Até poucas décadas atrás, a mediação estava nas instituições visíveis, jornais, rádios, universidades, partidos, sindicatos. Hoje, é feita por algoritmos programados para capturar atenção e explorar emoções. A informação deixou de ser um serviço público e passou a ser um insumo para modelos de negócios baseados na vigilância e na previsibilidade do comportamento humano".

Canadá, Holanda, Nova Zelândia e países escandinavos acumulam exemplos de como ressignificar o valor social e econômico da produção científica no corpo social. No Brasil, avançamos muito pouco. A tradição de esgotar as alternativas no âmbito da lógica decisória doméstica atrasa a adoção de reformas estruturantes que habilitem o país, suas instituições e empresas a acompanhar o cenário mundial.

O mundo mudou profundamente. O Estado enquanto instrumento universal de mediação de processos tornou-se uma realidade desconcertante. Seja no plano interno, ou externo, é desafiador encontrar instituições de Estado engajadas no fortalecimento de bases sólidas, previsíveis, transnacionais, colaborativas e democráticas.

As principais nações que hoje disputam a liderança geopolítica, militar e tecnológica global não partem de valores e princípios comprometidos com o processo civilizatório. Estamos falando de um fato. E, no jornalismo, diz-se que a melhor maneira de checar a informação de que está chovendo lá fora não é ficar preso a opiniões pré-estabelecidas, mas praticar o simples gesto de abrir a janela e confirmar se é verdade.

O Brasil tem amplas condições de liderar a transição climática global por meio de soluções práticas, sustentáveis, inclusivas e economicamente viáveis. A crise reputacional do país, um obstáculo, será uma das temáticas centrais do Seminário "Redescoberta do Brasil, wake-up call para uma nova era: riscos, ameaças e oportunidades da transição", que o Fórum do Futuro promoverá, nos dias 1º e 2 de dezembro, na Universidade de Brasília.

Participem. Uma oportunidade para debatermos como fazer para abrir a janela e deixar o futuro chegar.

 

 

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Por Opinião
postado em 23/09/2026 05:00
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