
Há três anos, 3.800 terroristas das forças Nukhba, a "tropa" de elite do Hamas, e 2.200 militantes de outros grupos armados invadiram o sul de Israel a partir da Faixa de Gaza, pelo ar, por terra e pelo mar. O massacre, que deixou 1.195 mortos, abriu cicatrizes profundas nos sobreviventes e assombra as pretensões do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de se manter no poder. Em 27 de outubro, as eleições legislativas renovarão os 120 assentos da Knesset (o Parlamento israelense). Vários membros da oposição chamaram Netanyahu de "inapto", após uma investigação concluir que os Emirados Àrabes Unidos alertaram o premiê sobre o ataque do Hamas quase 10 dias antes. Netanyahu avisou que o Hamas tentará influenciar as eleições com atentados e prometeu responder com "tremenda força". "Justamente por ser tão fraco, o Hamas tentará nos desafiar com os remanescentes de suas forças antes das eleições, numa tentativa de influenciá-las", advertiu o chefe de governo.
Para Eytan Gilboa — cientista político da Universidade Bar-Illan (em Ramat Gan, subúrbio de Tel Aviv) —, Netanyahu fracassou em não impedir a matança. "Em qualquer democracia liberal, ele teria renunciado. Mas membros da oposição que se uniram ao seu governo, imediatamente depois do massacre, o salvaram. Isso pode afetar suas chances na eleição de 27 de outubro, mas apenas marginalmente", afirmou ao Correio. O especialista lembrou que o premiê se opôs ao estabelecimento de uma comissão de inquérito que teria sido capaz de investigar a falha do governo. "Netanyahu foi responsável por algum sucesso militar em todas as frentes: Irã, Gaza, Líbano, Iêmen e Síria. Ele tem buscado transferir a responsabilidade, que recairia sobre ele e seu gabinete, para as forças armadas e as agências de segurança."
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Dahlia Scheindlin, analista política e colunista do jornal Haaretz, admitiu ao Correio que a forma como Benjamin Netanyahu lidou com o massacre de 7 de outubro é um de seus principais pontos fracos nestas eleições. "No entanto, vale ressaltar que seus índices de aprovação estavam caindo e o apoio à sua coalizão havia perdido a maioria no começo de 2023, pois suas políticas eram impopulares. O massacre fez com que a imagem do premiê piorasse muito. Sua coalizão apresenta um desempenho melhor do que nos primeiros seis meses após o 7 de outubro, mas não o suficiente para vencer", explicou. "Veremos se ele conseguirá se recuperar, mas é preciso lembrar que o massacre tornou-se símbolo de uma longa lista de razões pelas quais a maioria dos israelenses não apoia aos partidos da coalizão governista, segundo pesquisas."
De acordo com Scheindlin, a percepção tanto de eleitores judeus quanto árabes israelenses é a de que as decisões políticas de Netanyahu priorizaram extremistas religiosos que o mantiveram no poder e sacrificaram a segurança de Israel.
Tabu
Sobreviventes do massacre de 7 de outubro consultados pelo Correio procuram se distanciar de assuntos políticos. Eles se focam nas memórias e nos traumas. Moradora do kibbutz de Nirim, a 2km da Faixa de Gaza, Michal Rahav disse que se lembra de tudo daquela manhã. "Eu me recordo do cheiro, dos barulhos, da sensação intensa de desesperança. Nós sobrevivemos graças ao meu marido, herói, que lutou contra os terroristas em nossa casa. Desde então, tudo mudou em nossas vidas. Saber que poderíamos ter perdido tudo em questão de segundos faz você encarar a vida de outra forma, sem desperdiçá-la com raiva e medo. Tento me sentir mais esperançosa, positiva e grata", afirmou.
As impressões que mais a marcam foi de quando viu-se obrigada a abandonar sua casa. "De um lugar lindo, onde as crianças andavam de bicicleta e caminhavam descalças, eu me deparei com uma zona de guerra, com destruição por toda parte, colunas de fumaça subindo aos céus, carros incendiados e corpos à beira da estrada", lembrou. Yoni Diller, 31 anos, estava na rave Festival Nova, no kibbutz de Re'im, a 1km de Gaza. "Às 6h30 daquele 7 de outubro, os foguetes foram disparados. Em minutos, percebemos que algo muito maior estava acontecendo. Eu fazia um trabalho voluntário, operando um drone, com Nadav, um amigo. Decidimos fugir e demoramos quatro horas e meia para percorrer 24 quilômetros. Perdi quatro amigos naquela manhã", disse.
Diller afirmou não acreditar na possibilidade de deixar algo como o 7 de outubro para trás. "Eu aprendi que curar-se não significa esquecer. Mas a saber como carregar o que aconteceu e, ainda assim, escolher a vida. O 7 de outubro mudou completamente minhas prioridades e minha percepção de vida. Nesse meo tempo, viajei de avião mais de 50 vezes em menos de um ano e meio para compartilhar minha história, combater a desinformação e falar sobre Israel e o povo judeu. Também me casei e comecei a construir um novo capítulo da minha vida. Para mim, escolher o amor, a família, a esperança e a vida após o 7 de outubro faz parte da minha resposta ao que aconteceu."
Naquele 7 de outubro, Galia Sopher acampava com as duas filhas, perto do kibbutz Mefalsim, respeitando a tradição Sukkot, que relembra os 40 anos de êxodo dos hebreus no deserto. "Meu marido dormiu em nossa casa, em Mefalsim. Às 6h30, fomos acordadas pelo som das sirenes e foguetes. Por instinto, simplesmente me lancei sobre minhas filhas para protegê-las com meu corpo. Tentei ligar para meu esposo, para que viesse nos buscar, mas não havia sinal de celular. Foi então que uma equipe de segurança do kibbutz nos levou para casa", relatou.
Ela, o marido e as filhas ficaram mais de 22 horas dentro do "quarto seguro". "Nós escutávamos explosões e disparos de metralhadora do lado de fora e, em certo momento, compreendemos que havia terroristas dentro do kibutz. Fomos retirados de Mefalsim, sob escolta militar, na madrugada de 8 de outubro. Enquanto nos afastávamos do kibutz, vimos carros queimados e corpos ao longo das estradas. Ainda não sei como sobrevivemos quando tantas outras famílias não sobreviveram. Tivemos uma sorte incrível."
EU ACHO...
"A campanha de Netanyahu tenta afastá-lo o máximo possível do massacre. No entanto, entre segunda-feira e hoje, Israel realizou e realizará homenagens às pessoas assassinadas em 7 de outubro e àquelas mortas desde então. Isso prejudica o primeiro-ministro. Até o momento, a oposição tem se concentrado em outras questões altamente polêmicas, como o recrutamento dos judeus ultraortodoxos, as falhas da gestão governamental em diversas áreas e o alto custo de vida."
EYTAN GILBOA, professor de ciência política da Universidade Bar-Illan (em Ramat Gan, subúrbio de Tel Aviv)
"Esta é a semana em que relembramos o 7 de outubro, e o assunto está por toda parte. Familiares de vítimas, as próprias vítimas e reféns sobreviventes falam o tempo todo sobre suas experiências. São conversas longas e muito emocionantes, com muitas informações e histórias sendo reveladas agora pela primeira vez. Isso se tornou símbolo de liderança equivocada, de corrupção, de decisões políticas ruins e o favorecimento de aliados políticos, mesmo quando estes são prejudiciais ao país."
DAHLIA SCHEINDLIN, colunista do jornal Haaretz e analista política
"O mais chocante foi ver com que rapidez a vida normal se transformou em caos absoluto e perceber que pessoas caçavam outras simplesmente por estarem ali. Mas o que mais me marcou não foi apenas a brutalidade. Foi também ver pessoas ajudando umas às outras e arriscando a vida por estranhos. Vi pessoas aterrorizadas que, ainda assim, escolheram salvar o próximo. Essas cenas também fazem parte da minha memória de 7 de outubro. O mal estava presente, mas também uma coragem extraordinária.
YONI DILLER, 31 anos, sobrevivente do massacre de 7 de outubro de 2023
"Três anos depois, acho que a coisa mais difícil de explicar é que você pode sobreviver fisicamente a algo e, ainda assim, carregar isso consigo. Em resumo: estou bem. Estou viva, com saúde, tenho uma família linda e estamos seguros. Mas, ao mesmo tempo, não sou a mesma pessoa que era antes de 7 de outubro. Antes, 'casa' era sinônimo de segurança. O kibutz era o nosso lar. Era onde eu criava meus filhos e onde acreditava que estávamos protegidos. Depois de 7 de outubro, essa sensação desapareceu."
GALIA SOPHER, 38 anos, sobrevivente do massacre de 7 de outubro de 2023
Saiba Mais
Política
Revista do Correio