LITERATURA

Quem é Anne Carson, vencedora do Nobel de Literatura, e quais são seus livros publicados no Brasil

Autora de 76 anos é celebrada por obras que cruzam as fronteiras entre poesia, ficção e produção acadêmica.

Capa do livro <em>Autobiografia do Vermelho</em>, de Anne Carson -  (crédito: Editora 34/Divulgação)
Capa do livro Autobiografia do Vermelho, de Anne Carson - (crédito: Editora 34/Divulgação)

A poeta, ensaísta e tradutora canadense Anne Carson foi agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura deste ano, anunciado na manhã desta quinta-feira (8/10), em Estocolmo, na Suécia.

Carson, de 76 anos, é celebrada por livros que cruzam as fronteiras entre poesia, ficção e erudição acadêmica.

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O comitê do Nobel afirmou tê-la escolhido "por sua obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea."

O Nobel é concedido pelo conjunto da obra de uma vida e é considerado a distinção mais prestigiosa da literatura mundial. O vencedor recebe 12 milhões de coroas suecas, o equivalente a R$ 6 milhões na cotação atual.

Ingrid Carlberg, secretária permanente da Academia Sueca, disse ter dado a notícia a Carson por telefone pouco antes do anúncio público.

"O que ela teve tempo de me dizer foi que está, no momento, na Islândia, onde está assistindo ao evento", disse Carlberg. "Ela foi pega de surpresa, mas ficou muito feliz. Pude perceber isso em sua voz."

Carson também traduziu literatura grega antiga e atuou como professora de estudos clássicos por mais de 30 anos.

Os livros de Carson publicanos no Brasil

Veja as capas e as sinopses dos livros que a escritora tem publicados no Brasil.

Autobiografia do Vermelho: Um Romance em Versos

Editora 34, 192 páginas, R$ 73, tradução de Ismar Tirelli Neto

Seu livro mais celebrado recria o mito grego de Gerião, um monstro vermelho a quem Héracles teve de exterminar para cumprir um de seus doze trabalhos.

Baseada na descoberta, nos anos 1960 e 70, de novos fragmentos da Gerioneida, poema lírico do grego Estesícoro (séculos 7-6 a.C.), Carson compõe este "romance em versos" que transforma Gerião em um menino sensível e absorto e, seguindo o fio de um tempestuoso relacionamento amoroso com Héracles, apresenta uma peculiar história de amadurecimento.

Sob o signo de Gertrude Stein, Emily Dickinson e do obscuro Estesícoro, Carson elabora este bravo experimento formal, que rompe as barreiras dos gêneros literários ao fundir ensaio, crítica e ficção, tudo envolto pelo admirável escrutínio verbal que caracteriza a sua poesia — características recriadas com arrojo na bela tradução de Ismar Tirelli Neto.

Capa do livro Autobiografia do Vermelho, de Anne Carson
Editora 34/Divulgação
Capa do livro Autobiografia do Vermelho, de Anne Carson

Sobre Aquilo em que Eu Mais Penso

Editora 34, 192 páginas, R$ 73, tradução de Sofia Nestrovski

Esta coletânea, organizada por Sofia Nestrovski e Danilo Hora, apresenta a obra de Carson pelo prisma do ensaísmo, reunindo 11 textos, escritos num arco de mais de uma década, em que Carson aproxima os autores aparentemente mais distantes, como Virginia Woolf e Tucídides, Homero e Elizabeth Bishop, Longino e Antonioni, Francis Bacon e Joana D'Arc.

Capa do livro Sobre Aquilo em que eu Mais Penso, de Anne Carson
Editora 34/Divulgação
Capa do livro Sobre Aquilo em que eu Mais Penso, de Anne Carson

Eros, o Doce-Amargo: Um Ensaio

Editora Bazar do Tempo, 264 páginas, R$ 98, tradução de Julia Raiz

O livro apresenta um panorama das leituras sobre o amor, da Grécia antiga à literatura moderna. É o seu primeiro livro de crítica literária, resultado de sua tese de doutorado, e se tornou um clássico, mesclando ensaio, teoria e poesia.

"Safo foi a primeira a chamar Eros de 'doce-amargo'. Ninguém que já se apaixonou discorda. O que significa essa palavra?", se pergunta Carson.

A resposta é a investigação que a ensaísta e poeta canadense empreende nesta obra, perscrutando o conceito de "eros" a partir da Grécia antiga e evocando referências da poesia, filosofia, literatura, história e psicanálise ao longo dos séculos.

Assim, Carson produz um panorama sobre as interpretações do amor, analisando em uma abordagem ao mesmo tempo profunda e espirituosa o caráter duplo e ambíguo do sentimento erótico.

Capa do livro Eros, o Doce-Amargo, de Anne Carson
Editora Bazar do Tempo/Divulgação
Capa do livro Eros, o Doce-Amargo, de Anne Carson

Vidro, Ironia e Deus

Editora Relicário, 208 páginas, R$ 70,23, tradução de Ana Lisboa

É uma coletânea de textos em que Carson tece fios poéticos que transitam entre o íntimo e o erudito, o clássico e o contemporâneo.

O livro é composto por seis blocos — cinco poemas longos e um ensaio final —, que exploram temas como amor e perda, identidade, alienação e a tentativa de compreender o sagrado e o profano.

Entre os textos mais destacados estão O Ensaio de Vidro, um poema extenso sobre o fim de um amor narrado em diálogo com a obra de Emily Brontë; Homens da TV, que apresenta figuras como Heitor de Tróia, Safo e Antonin Artaud como se fossem personagens de televisão; e A Queda de Roma, que reflete sobre uma viagem a Roma e a sensação de alienação que ela provocou na autora.

O ensaio O Gênero do Som nos relembra que a história está repleta de ruídos inaceitáveis: vozes agudas, fofocas, tagarelice, histeria, lamentos e gritos rituais. Quem os produz? Aqueles que se desviam do ideal masculino de autocontrole ou que lhe são deficientes: mulheres, catamitas, eunucos e andróginos se enquadram nessa categoria.

Dos mitos da antiguidade a Margaret Thatcher, passando por Sigmund Freud e Gertrude Stein, o ensaio traça a construção da voz de acordo com os gêneros na cultura ocidental.

Capa do livro Vidro, Ironia e Deus, de Anne Carsom
Editora Relicário/Divulgação
Capa do livro Vidro, Ironia e Deus, de Anne Carsom

Falas Curtas

Editora Relicário, 108 páginas, R$ 58, tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman

É composto por uma série de poemas em prosa trazidos por uma voz ao mesmo tempo altruísta e indireta. Uma voz profundamente pessoal, mas também difícil de desvendar. Estes poemas chegam como uma luz em um quarto escuro e, como na maioria dos livros de Carson, remetem à história registrada, pedindo para ver entre as rachaduras dos fatos um novo tipo de verdade.

De fato, os poemas olham cada um para um lado (Homo Sapiens, Gueixas, Brigitte Bardot, Chuva, Leitura, Gertrude Stein, Ovídio no exílio, Sylvia Plath e muitos outros), para entender como aquela pessoa, lugar, coisa, situação foi empurrada para outra.

Mas, no centro deste livro está também um chamado de volta ao leitor. Algo que abre uma necessidade de resposta; uma necessidade de compor entre as rachaduras deixadas pelas palavras.

Capa do livro Falas Curtas, de Anne Carson.
Editora Relicário/Divulgação
Capa do livro Falas Curtas, de Anne Carson

A Beleza do Marido: Um Ensaio Ficcional em 29 Tangos

Editora Bazar do Tempo, 168 páginas, R$ 68, tradução de Julia Raiz e Emanuela Siqueira

A beleza do marido é um ensaio sobre a ideia do poeta John Keats de que beleza é verdade, e também a história de um casamento contada em vinte e nove tangos. Um tango — assim como um casamento — é algo que você precisa dançar até o fim.

Carson faz desta obra um fascinante exercício de linguagem em que acompanhamos, a partir de cenas eróticas, comoventes, dolorosas e cômicas, um casamento que desmorona.

Somente Carson, grande especialista da literatura grega clássica, e que tem atualizado a leitura das obras do período, poderia criar um livro em que o mais antigo dos temas líricos, o amor, ganhasse uma abordagem tão inovadora e contundente.

Capa do livro A Beleza do Marido, de Anne Carson
Editora Bazar do Tempo/Divulgação
Capa do livro A Beleza do Marido, de Anne Carson

Antigonick

Editora Bazar do Tempo, 56 páginas, R$ 54, tradução de Julia Raiz

Em Antigonick, Carson oferece uma tradução singular da tragédia clássica de Sófocles. Sem abrir mão da força do original, ela assume a liberdade para reinventar ritmos, imagens e vozes, aproximando um dos textos fundadores da literatura ocidental da sensibilidade contemporânea e preservando toda a intensidade do confronto entre a lei do Estado e a consciência individual.

A singularidade também está no humor e na ousadia dos comentários intercalados ao longo do texto. Nessa leitura, o luto e a responsabilidade moral de honrar a memória do irmão morto ocupam o centro da tragédia. Creonte, homem da ação e da palavra, é retratado como um tirano brutal e sanguinário, até uma reviravolta final.

Há ainda a aparição original do personagem Nick, presente já no título. Figura silenciosa, ele mede as coisas sem jamais deixar o palco. Seu nome evoca tanto o corte, a incisão, quanto o instante decisivo. Assim, a tragédia milenar ressurge com radicalidade política e surpreendente invenção poética.

Capa do livro Antigonick, de Anne Carson.
Editora Bazar do Tempo/Divulgação
Capa do livro Antigonick, de Anne Carson

*Colaborou Pedro Martins, da BBC News Brasil em Londres.

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BBC
Ian Youngs* - Repórter de cultura
postado em 08/10/2026 08:52 / atualizado em 08/10/2026 09:03
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