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Sua mulher foi levada por tsunami e ele passou anos mergulhando para estar perto dela

Yuko, mulher de Yasuo Takamatsu, desapareceu no tsunami de 2011. Dois anos depois, ele aprendeu a mergulhar e, desde então, procura por ela no mar duas vezes por mês, em um gesto de lembrança

O tsunami foi provocado por um forte terremoto submarino de magnitude entre 9.0 e 9.1, ocorrido ao largo da costa nordeste do Japão -  (crédito: Getty Images)
O tsunami foi provocado por um forte terremoto submarino de magnitude entre 9.0 e 9.1, ocorrido ao largo da costa nordeste do Japão - (crédito: Getty Images)

Duas vezes por mês, há mais de 13 anos, Yasuo Takamatsu embarca em um pequeno barco de pesca no porto de Onagawa, na província de Miyagi, no nordeste do Japão, e segue alguns quilômetros mar adentro.

A rotina é sempre a mesma: ele coloca a máscara de mergulho, o cilindro de ar e o cinto de lastro. Quando o barco já está distante da costa, Takamatsu mergulha nas águas frias.

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A cada mergulho, ele retorna ao mesmo mar onde perdeu a sua mulher, Yuko.

O tsunami

Uma grande onda escura de tsunami avança sobre uma cidade costeira, inundando ruas e prédios, enquanto dois carros de cor clara são arrastados pela força da água em primeiro plano. Ao fundo, barcos de pesca permanecem no porto alagado
Getty Images
O tsunami foi provocado por um forte terremoto submarino de magnitude entre 9.0 e 9.1, ocorrido ao largo da costa nordeste do Japão

Yuko foi arrastada pela água do telhado do banco onde trabalhava quando o tsunami de 2011 atingiu a costa nordeste do Japão e destruiu tudo pelo caminho. A onda gigantesca avançou quase 10 km para o interior.

Naquela manhã, Takamatsu havia deixado Yuko no trabalho.

Durante o curto trajeto de carro, os dois conversaram sobre o que fariam para o jantar.

Quando as sirenes de alerta de tsunami começaram a tocar, Yuko e 12 colegas subiram para o telhado do prédio. De lá, enviou uma mensagem ao marido: "Você está bem? Quero ir para casa."

Ao ler a mensagem, Takamatsu acreditou que Yuko estava em segurança. Mas, no dia seguinte, quando conseguiu chegar ao hospital municipal onde os sobreviventes estavam sendo acolhidos, descobriu que ela não estava lá.

"Me disseram que ela tinha sido levada pelo tsunami", diz Takamatsu. "Depois disso, eu simplesmente não conseguia ficar de pé. Perdi todas as minhas forças, como se elas também tivessem sido levadas pela água."

Em um retrato formal de família, quatro pessoas posam diante de um fundo escuro de estúdio. Em primeiro plano, uma mulher está sentada em uma cadeira e usa um terno claro; atrás dela, um homem veste um terno azul-claro, e as duas crianças aparecem ao lado. A criança mais nova usa um vestido verde com flores, enquanto a mais velha, um menino, veste um terno escuro, colete vermelho e meias brancas
Hiromi Tanoue
Yasuo, Yuko e os filhos em uma fotografia de família. As duas crianças estavam na escola e sobreviveram ao desastre

Nos dias e semanas seguintes, à medida que as águas recuaram, milhares de corpos foram encontrados ao longo da costa do Japão.

Mas muitas vítimas, entre elas Yuko, continuaram desaparecidas.

Durante dois anos, Takamatsu acompanhou mergulhadores da Guarda Costeira japonesa nas buscas por corpos, objetos pessoais e lembranças levados pelo tsunami.

Até que decidiu aprender a mergulhar.

"Aprendi a mergulhar. Sentia que, se continuasse mergulhando, um dia poderia encontrá-la", afirma Takamatsu.

Ele nunca parou de mergulhar. Já fez mais de 760 mergulhos, desde o fim dos seus 50 anos e ao longo dos seus 60 anos.

Um homem de roupa de mergulho preta aparece em primeiro plano, em um cais, ao lado de um pequeno barco, com uma das mãos erguida junto à cabeça e gotas de água visíveis na roupa. Mais ao fundo, uma mulher de macacão impermeável azul está ao lado de uma embarcação atracada. Atrás dos dois, aparecem prédios e dunas cobertas de grama
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Yasuo Takamatsu em um de seus primeiros mergulhos, em 2014

Os mortos entre os vivos

No Japão, os mortos continuam presentes no cotidiano por meio de rituais e práticas de lembrança, mesmo muito tempo depois da morte.

Na tradição Budista, a prática conhecida como Kuy? inclui rituais como fazer oferendas e rezar diante de um túmulo ou altar, com o objetivo de proporcionar paz e bem-estar aos entes queridos que morreram.

Mas como os restos mortais de Yuko nunca foram encontrados, Takamatsu não pôde prestar esse tipo de homenagem diante de um túmulo.

No lugar disso, o que começou como uma busca acabou se transformando em um ritual próprio, uma forma de manter viva a lembrança e a ligação com ela.

"Depois de mergulhar tantas vezes, comecei a sentir que ela talvez estivesse por perto", diz Takamatsu. "É um pouco diferente de visitar um túmulo, porque ela não está em um. Para mim, é mais como ir ao encontro dela."

Um mergulhador com roupa de mergulho preta e nadadeiras vermelhas entra na água pela lateral de um pequeno barco, com as pernas ainda acima da superfície durante a descida. Ao fundo, vê-se uma baía de águas azul-acinzentadas, cercada por uma costa arborizada e ilhas ao longe. Outro mergulhador flutua nas proximidades
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Yasuo Takamatsu em um mergulho em 2014

A fé de Takamatsu foi testada pelo desastre.

Quando mergulha em águas profundas e vê os estragos deixados por anos de desastres naturais, Takamatsu sente tristeza.

"Quando olho para os destroços, penso: 'Ela não teria conseguido voltar à superfície no meio de tudo isso.' E, quando penso nisso, sinto que poderia chorar."

Mesmo assim, Takamatsu não odeia o mar. Com o tempo, passou a aceitar que desastres naturais são inevitáveis e estão além do controle humano.

"Não é que eu tenha raiva do mar. Naquele momento, houve um tsunami e o mar estava revolto. Mas, por outro lado, dali também vêm muitos alimentos deliciosos. E a paisagem é bonita."

De certa forma, Takamatsu expressa uma atitude comum entre pessoas acostumadas a conviver com desastres naturais recorrentes.

Na região de Tohoku, onde ele vive, na costa do Pacífico, terremotos e tsunamis não são raros. Santuários e destroços que ainda permanecem ao longo da costa servem como lembrança da força da natureza e de que os seres humanos também fazem parte desse ambiente natural.

Yasuo Takamatsu de óculos e suéter azul-escuro com zíper e estampa branca, aparece sentado ao ar livre, em um enquadramento da cintura para cima. Ao fundo, há uma área à beira d’água, com barcos desfocados e uma costa coberta por árvores
Hiromi Tanoue
Yasuo Takamatsu antes de mergulhar em 2026

No trajeto de ida e volta dos mergulhos, Takamatsu é sorridente e simpático. Quando fala de Yuko, há um tom de humor irônico em sua voz.

"Se nos encontrássemos, acho que, para minha surpresa, a primeira coisa que ela diria, provavelmente, seria: 'Você envelheceu'."

Mas, durante os mergulhos, Takamatsu fica mais introspectivo. A 50 metros de profundidade, ele nada sobre uma paisagem submarina marcada pelos estragos de sucessivos desastres naturais.

"Há todo tipo de formação no fundo do mar. Algumas parecem montanhas, e você pode flutuar sobre elas e observá-las lá de cima", conta. "A sensação é mesmo um pouco parecida com voar."

Um álbum de casamento está aberto em uma página com uma foto dos noivos. Yuko usa um vestido branco longo, com mangas bufantes e véu. O noivo veste um terno cinza formal e segura um par de luvas brancas
Hiromi Tanoue
Yasuo Takamatsu e Yuko em foto de casamento

Takamatsu cresceu à beira desse mar, muito antes de conhecer Yuko. Aprendeu a nadar e a pescar ali, e o mar faz parte de sua vida desde que ele se lembra.

Hoje, quando vê os destroços sob a água, Takamatsu os encara como parte do ciclo permanente de transformação da natureza.

"Há carros que parecem parcialmente esmagados e outras coisas que acabaram se transformando em recifes artificiais. Os peixes vão até lá e, depois, aparecem os ovos."

Quinze anos depois, o luto continua presente. E o mar também.

Esse foi o 763º mergulho de Takamatsu. Em breve, ele voltará mais uma vez à água, para se sentir perto de Yuko.

Esta reportagem se baseia em um episódio do podcast Heart and Soul (aqui, em inglês), do Serviço Mundial da BBC, produzido por Message Heard e por Hiromi Tanoue.

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BBC
Becca Johns - Serviço Mundial da BBC
postado em 11/10/2026 10:59
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