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Lula conquista virada inédita e terá quarto mandato como presidente do Brasil

Campanha renasceu após a derrota no primeiro turno, com manifestações nas ruas e ação nas redes sob comando de André Janones (Rede-MG). Petista está diante da conjuntura mais difícil desde 2003, com Congresso mais à direita da história.

Lula conquista virada inédita e terá quarto mandato como presidente do Brasil -  (crédito: Sebastião Moreira/ EPA/Shutterstock)
Lula conquista virada inédita e terá quarto mandato como presidente do Brasil - (crédito: Sebastião Moreira/ EPA/Shutterstock)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25/10) pela segunda vez e cumprirá seu quarto mandato como presidente da República até 2030, acumulando mais da metade deste século no poder no Brasil.

Com 96% das urnas apuradas, Lula, que completa 81 anos na terça-feira (27/10), amealhou mais 64 milhões votos, com uma diferença de pouco mais de 4 milhões votos em relação a Flávio Bolsonaro (PL), considerada irreversível pela Justiça Eleitoral.

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Nunca antes na história da democracia brasileira um presidente se reelegeu duas vezes. É igualmente inédito o feito de arrancar uma vitória depois de ter ficado em segundo lugar no primeiro turno.

Lula chega a uma virada histórica embalado por uma campanha que renasceu após a derrota no primeiro turno, com manifestações multitudinárias nas ruas e ação massiva nas redes sob comando do deputado André Janones (Rede-MG), boa parte disso sem atuação direta da própria direção do PT.

O ex-metalúrgico que virou o líder inconteste da esquerda brasileira desde sua primeira eleição presidencial, em 1989, está, no entanto, diante da conjuntura mais difícil desde que chegou ao poder pela primeira vez, em 2003.

Seu novo mandato previsto para ter início em 5 de janeiro de 2027 começará com travas claras no mundo político interno - mas também externo, com a hostilidade ativa de Donald Trump -, além de desafios econômicos imediatos, sob forte desconfiança de agentes do mercado financeiro.

À frente de um país cujo eleitorado está partido ao meio, Lula terá de governar com o Congresso mais à direita da história brasileira desde a redemocratização: o PL de Flávio Bolsonaro foi o partido que mais cresceu nesta eleição, chegando à marca histórica de 121 deputados federais na Câmara e 28 no Senado.

"Vai ser um cenário inédito, desafiador na Câmara e beirando a incapacidade de se fazer política no Senado. Nunca houve um cenário assim, em que uma das Casas é claramente de oposição. Ele não vai ter espaço algum no Senado", diz Lucas Aragão, cientista político e sócio da Arko Advice.

Segundo Aragão, Lula poderá cavar algum espaço de apoio na Câmara, especialmente se conseguir se aliar ao Centrão. Mas no Senado há menos caminhos para negociação.

Para tentar garantir alguma governabilidade, diz o analista, Lula terá que tentar aprovar propostas que conversem minimamente com a pauta da direita ou que tenham muito apelo popular, como foi a PEC do fim da escala 6x1. Ainda assim, avalia Aragão, Lula teria à disposição um arsenal limitado de ações.

Lincoln Secco, historiador, professor da USP e autor do livro A História do PT (Ateliê Editorial) lembra que, historicamente, o governo petista prefere tentar a negociação ao confronto. Resta saber qual será a postura adotada agora, diante de um Congresso tão antagonista.

"Não sabemos se, pela primeira vez, o governo vai tentar mobilizar a sociedade civil para sensibilizar o Congresso, como aconteceu com o fim da escala 6x1, ou se vai manter o que é a marca do PT governista desde que chegou ao poder em 2003, que é buscar a conciliação e não ir pro embate", diz ele.

Com o Congresso desfavorável de um lado, e a forte mobilização nas rua, Lula prometeu nos últimos dias da campanha defendendo "um novo jeito de governar".

"Depois da nossa vitória a gente vai ter que discutir um novo jeito de governar este país. A participação do povo nesta campanha, a saída na rua dos estudantes, das mulheres, dos trabalhadores, vai nos obrigar a fazer um novo jeito de governar este país. Este país nunca mais será o mesmo", afirmou Lula em uma live que fez com seu "general" de campanha Janones, que reuniu inéditos 10 milhões de militantes pró-Lula no WhatsApp.

Contas pressionadas e baixa aprovação

Mesmo antes de 5 de janeiro, data em que ocorrerá a posse presidencial, Lula terá que responder à cobrança do mercado financeiro por um ajuste nas contas públicas, dado o alto nível da dívida, e lidar com a insatisfação dos brasileiros com o custo de vida e o endividamento recorde. Tudo isso, em meio a uma economia que deverá crescer menos em 2027.

O petista chega ao quarto mandato com menos da metade da população aprovando seu atual governo. No sábado, na última pesquisa Datafolha antes do segundo turno, 49% dos brasileiros aprovavam a gestão petista, com apenas 36% de ótimo e bom, ante 48% que desaprovavam..

O índice é baixo, se comparado com os dois primeiros governos do petista. Isso evidencia que os níveis de aprovação avançaram, mas não tanto, em resposta à série de medidas populares que o governo lançou a partir do fim do ano passado. A começar pela isenção de imposto de renda para a classe média, que foi implementada ao lado de um inédito acréscimo de imposto para os mais ricos.

A mudança no IR se somou a um pacote bilionário de "bondades" que o Planalto lançou em plena reta final da campanha. Entre elas, está o reajuste do Bolsa Família (com custo de R$ 22 bilhões a mais no orçamento de 2027), além do perdão de dívidas para MEIs (que terá impacto de R$ 3 bilhões entre 2027 e 2029) e o novo programa para tentar aliviar o endividamento, o Desenrola 3.

Mesmo assim, o sentimento da população é de insatisfação com a economia, segundo Aragão. "O governo não conseguiu gerar conforto econômico na população", diz. "Por mais que no papel a economia esteja ok, com desemprego baixo, crescimento ancorado em dinheiro e em consumo, ainda assim não conseguiu imprimir um ritmo de bem-estar econômico na maior parte da população."

Ainda no cenário fiscal, o impacto dos juros em patamares elevados ao longo de toda a gestão Lula 3 pressionou o endividamento das famílias e do governo, sob desconfiança por parte do mercado.

A dívida bruta do governo geral — que inclui governo federal, Previdência, Estados e municípios — chegou a R$ 11,1 trilhões em agosto, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos no país), segundo o Banco Central.

O endividamento do governo aumenta quando ele gasta mais do que arrecada com impostos. Sem dinheiro em caixa, ele é obrigado a pegar mais dinheiro emprestado, a juros mais altos, numa "bola de neve" fiscal.

Lula.
Sebastião Moreira/ EPA/Shutterstock

A dívida pública alta — e sem perspectiva de estabilização do seu nível em relação ao PIB nos próximos anos — gera dúvidas quanto à capacidade do governo de honrar suas obrigações.

No entanto, se Lula fez acenos à direita na campanha na área de segurança, com o apoio inédito à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes graves e hediondos, não fez nenhuma concessão ao centro em termos econômicos.

Ainda que economistas avaliem que um corte de gastos vai ser necessário em 2027, Lula jamais acenou com um ajuste fiscal quando perguntado.

Seu programa de governo, enviada ao TSE, promete aumento do poder de compra de aposentados e pensionistas e de beneficiários do BPC, medida vista com desconfiança por parte dos economistas devido ao impacto nas contas públicas.

Altos e baixos e a virada do 'general'

Lula fez história de novo ao virar uma eleição disputada voto a voto na maior parte do tempo.

Antes mesmo da campanha começar, no início do ano, Lula e Flávio caminharam próximos nas pesquisas eleitorais, segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil. Foi em maio que ocorreu a primeira virada.

O agregador mostra que Lula conseguiu navegar de maneira mais confortável após o escândalo do Dark Horse, o filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.

Conversas vazadas do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Máster preso desde março, mostraram que Flávio pediu dinheiro ao banqueiro para financiar o longa. Os R$ 134 milhões pedidos pelo senador eram quase o dobro do orçamento total do filme - R$ 75 milhões - segundo a produtora Go UP Entertainment.

A produção, que teve a estreia adiada para o ano que vem, virou alvo de inquérito da Polícia Federal. Os investigadores suspeitam que o dinheiro tenha servido para bancar Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Mas no celular de Vorcaro também estavam mensagens que apontavam para uma relação próxima ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. E quando essas conversas começaram a vazar, o conforto de Lula se transformou em aperto, segundo as pesquisas de preferência de voto.

"O governo tomou uma porrada no primeiro turno abraçado com o STF", diz Aragão. Segundo ele, a percepção da população é de que o governo é próximo ao Supremo.

Assim, mesmo tentando a ação ousada de proibir, por meio de uma medida provisória, as bets pouco mais de uma semana antes do primeiro turno, Lula levou a pancada do resultado das urnas em 4 de outubro. E perdeu pela estreita margem de 2,2 milhões de votos.

No dia seguinte, o petista colocou os pés no segundo turno como virtual derrotado para muitos analistas. Com esse cenário, o mercado ficou eufórico: a bolsa disparou e o dólar baixou. A expectativa do setor financeiro diante de um ajuste fiscal prometido por Flávio impactou positivamente o humor da Faria Lima.

Ao longo do mês, a distância entre os dois candidatos — que no primeiro turno foi de menos de 2% — foi se ampliando, mas sob um teto baixo. A máxima diferença foi de 4 pontos percentuais no dia 7 de outubro, segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil. Depois disso, a diferença foi se fechando.

Para Secco, a virada do primeiro para o segundo turno não foi mérito só do PT, mas também um erro estratégico de Flávio. "Enquanto espontaneamente a militância do PT foi para as ruas, o Flávio apresentava apoio de pessoas do sistema, como o Ronaldo Caiado e o Michel Temer", diz.

"Ele ficou de salto alto, apontando nomes para os ministérios; isso prejudicou a campanha dele no segundo turno."

Por outro lado, Lula conseguiu mobilizar espontaneamente milhares de apoiadores em manifestações pelas ruas e nas redes sociais. A esquerda, que tradicionalmente perdia para a direita no Brasil nas mobilizações nas redes sociais, contou com a regência de peso de Janones e seus seguidores.

Sob as coordenadas do deputado, que na reta final conseguiu reunir mais de 10 milhões de apoiadores em um canal de WhatsApp, a militância em prol de Lula se organizou para "virar o voto".

A tarefa era difícil em um país tão polarizado, e o tempo não jogou a favor - somente três semanas separaram os dois turnos. Mas havia margem - 33 milhões de eleitores não haviam votado no primeiro turno. E havia um novo "general" nas filas petistas: a abstenção caiu ao menos 1,88 pontos e brancos e nulos recuaram pelo menos um ponto.

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BBC
Marina Rossi - Da BBC News Brasil em São Paulo
postado em 25/10/2026 21:48
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