Os rebeldes houthis abriram uma nova frente no conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã. O movimento político e religioso armado do Iêmen, fundamentado em uma interpretação revivalista e de linha-dura do islã zaidita — ramo do xiismo — mantém um projeto politico calcado em uma tradição que associa a liderança legítima à descendência do Profeta Maomé. Diretor e cofundador do Centro para Estudos Estratégicos de Sanaa, o iemenita Maged Al-Madhaji explicou ao Correio que os objetivos dos houthis são dominar o Iêmen e desempenhar um papel regional mais amplo, em coordenação com o Irã e aliados. "A ideologia é central para sua identidade, incluindo a hostilidade em relação à influência ocidental. Seu líder, Abdulmalik Al-Houthi, deveria ser entendido como alguém profundamente comprometido com essa visão de mundo, e não como alguém que usa a retórica religiosa como um instrumento político", disse.
- Leia mais: Furacão Isaías deixa mortos e quase um milhão sem energia nos EUA
- Por que o México está desmilitarizando suas escolas
- Tiroteio deixa oito mortos na Pensilvânia, nos Estados Unidos
Os houthis ajudaram a redefinir o conflito no Oriente Médio. "Eles deslocaram parte de seu peso estratégico do Golfo Pérsico e do Estreito de Ormuz para o Mar Vermelho e o Estreito de Bab Al-Mandab. Eles atraíram a atenção regional e internacional porque o confronto no Iêmen é, cada vez mais, uma extensão da disputa mais ampla que envolve o Irã, os Estados Unidos e seus respectivos parceiros regionais", afirmou Madhaji.
De acordo com o estudioso iemenita, os avanços recentes dos houthis representam um ganho significativo para o eixo alinhado a Teerã, depois de reveses sofridos no Líbano, na Síria, no Iraque e no próprio Irã. Ele crê que os desdobramentos no Iêmen estão alterando o peso relativo dos atores dentro desse eixo, conferindo maior importância aos houthis. O arsenal dos houthis combina armas apreendidas do Exército iemenita e capacidades desenvolvidas ao longo de anos, por meio da ajuda do Irã, com o contrabando por meio de túneis e a produção local de armas.
Do ponto de vista financeiro, os houthis construíram um vasto sistema de tributação e de cobranças compulsórias, ao mesmo tempo que assumiu responsabilidade limitada pelos serviços públicos e pelo pagamento de salários. A assistência humanitária internacional tem auxiliado a manter serviços essenciais, permitindo que as autoridades destinem uma parcela maior dos recursos arrecadados ao seu aparato militar e de segurança. Segundo Madhaji, o fornecimento de armas e de petróleo pelo Irã também tem sustentado a economia de guerra do Iêmen.
Madhaji também ponderou que a suspensão dos ataques dos EUA ao Irã não se traduz, automaticamente, em desescalada no Iêmen. "O conflito possui dinâmicas locais próprias, além de suas conexões regionais. Uma maior escalada dependerá da evolução da situação no terreno, da dimensão da ameaça à Arábia Saudita e das perturbações aos interesses marítimos internacionais. Quanto mais esses interesses forem afetados, maior será a probabilidade de uma resposta militar mais ampla." Na sexta-feira passada, o Paquistão anunciou ter enviado um número "importante" de soldados na Arábia Saudita, em meio à escalada entre a monarquia petrolífera e os houthis.
Colega de Madhaji no Centro para Estudos Estratégicos de Sanaa, Maysaa Shujaa al Deen disse que os houthis sentem não terem se beneficiado da trégua no Iêmen. "As autoridades iranianas e os houthis associam a questão do Estreito de Ormuz à de Bab Al-Mandab, vendo-a como uma alavanca adicional que possam utilizar. A guerra no Iêmen está entrelaçada com o conflito mais amplo na região, mas isso não significa que os EUA ou o Irã venham a intervir diretamente no Iêmen. O Irã atua por meio dos houthis, enquanto os americanos apoiam os sauditas fornecendo informações de inteligência, logística e outros recursos", observou.
Maysaa lembrou que os houthis estão envolvidos no conflito do Oriente Médio desde 2023. "A questão gira em torno de suas ambições regionais — a aspiração de exercer um papel de liderança na região —, além de sua conexão com a rede iraniana na área. Eles se definem como um grupo revolucionário e transnacional, e não nacional; portanto, suas ambições sempre transcendem o Iêmen por razões ideológicas."
Organização
A especialista do Centro para Estudos Estratégicos de Sanaa afirmou que os houthis controlam cerca de 20 milhões de pessoas. "Apesar de não serem um grande grupo, estão muito armados e organizados, enquanto seus inimigos, apesar de em maior número, estão divididos. Os houthis também têm uma boa experiência militar, adquirida das práticas de milícia no Iêmen, e jamais pararam de fazer a guerra. O Irã sempre os apoia com armamentos, muitos dos quais obtidos por meio de rotas de contrabando. Mas os houthis também conseguem armas da Rússia e da China", disse Maysaa.
Por sua vez, Elisabeth Kendall — diretora do Girton College, da Universidade de Oxford, e ex-conselheira do enviado especial da ONU ao Iêmen — comentou ao Correio que os houthis são motivados pelo poder e pelo dinheiro. "Eles buscam reconhecimento político como líderes legítimos no Iêmen e, possivelmente, até mesmo além de suas fronteiras. Também querem garantir sua participação em qualquer acordo regional", disse.
Segundo ela, intensificar a guerra no Iêmen e, simultaneamente, levar o conflito para o território da Arábia Saudita confere-lhes um poder de barganha significativo. "Eles ameaçam a segurança, a estabilidade e as fontes de receita sauditas."
Kendall admitiu que, até o momento, a Turquia e o Paquistão tinham evitado envolverem-se diretamente no combate aos houthis. "Embora ambos afirmem que honrarão o Pacto de Meca, não está claro se participarão de operações dentro do Iêmen ou se limitarão seu envolvimento à assistência militar defensiva."
EU ACHO...
"Os houthis têm suas próprias ambições internas, mas o momento e as consequências estratégicas de suas ações também favorecem Teerã. A abertura de mais um ponto de pressão alivia parte do peso sobre o Irã, intensifica a pressão sobre os Estados do Golfo e as parcerias ocidentais, e confere a Teerã um trunfo adicional de negociação. Para os houthis, os ganhos potenciais são de natureza territorial, política e regional. Eles buscam ampliar seu controle dentro do Iêmen, ao mesmo tempo em que promovem os interesses estratégicos de seus aliados. Além disso, pretendem converter suas conquistas militares em reconhecimento como uma potência regional de peso."
Maged Al-Madhaji, diretor e cofundador do Centro para Estudos Estratégicos de Sanaa
"O papel dos houthis é duplo. Eles não são apenas um instrumento do Irã, mas também um ator independente que persegue sua própria agenda. Embora o Irã não exerça comando ou controle direto sobre os houthis, seus objetivos estão alinhados. Ambos buscam ganhos materiais e vitórias ideológicas contra o que percebem como uma conspiração "sionista-cruzada" de Israel, dos Estados Unidos e de seus aliados regionais. Os houthis são, atualmente, a ferramenta de influência mais valiosa do Irã, após o enfraquecimento de seus grupos aliados no Líbano, na Síria e em Gaza. É natural que o Irã coordene ações com os houthis neste momento, em que enfrenta pressão econômica máxima."
Elisabeth Kendall, diretora do Girton College, da Universidade de Oxford, e ex-conselheira do enviado especial da ONU ao Iêmen
Ataque a aeroporto
Um novo ataque ao aeroporto internacional de Riade, capital da Arábia Saudita, deixou ao menos 12 mortos e mais de 300 feridos no meio da tarde deste sábado (10/10) segundo fontes ouvidas pela agência de notícias Reuters. O número de vítimas ainda não foi confirmado oficialmente pelo governo saudita e pode aumentar. Entre as fontes consultadas pela agência estão dois funcionários ocidentais. Os feridos foram levados a hospitais em ambulâncias e helicópteros.
Não houve reivindicação imediata de responsabilidade pelo ataque, mas os Houthis do Iêmen, grupo alinhado ao Irã, têm intensificado seus ataques com mísseis contra a Arábia Saudita. Uma fonte de um hospital local identificou uma das vítimas como um comissário de bordo egípcio que trabalhava para uma companhia aérea saudita. A segunda vítima era um palestino com documentos de viagem egípcios. Outra fonte com conhecimento do caso confirmou as mortes e as nacionalidades das vítimas.
Uma testemunha afirmou ter ouvido uma explosão enquanto aguardava o embarque em um voo, enquanto outra disse ter presenciado um impacto que deixou feridos e provocou cenas de pânico entre os passageiros. "Eu estava no portão 403. Vi como atingiram o 401, vi feridos. Todo mundo corria", relatou à AFP.
As autoridades de saúde haviam ordenado mais cedo uma incomum mobilização em massa de médicos para responder a uma "emergência grave", enquanto diversas embaixadas estrangeiras recomendaram a seus cidadãos que evitassem o aeroporto. A autoridade de aviação civil havia relatado vários feridos no ataque, que, segundo uma fonte diplomática, foi causado por um míssil lançado pelos houthis do Iêmen.
