PANDEMIA

Artigo: "Não é hora do deboche. O sofrimento é grande"

"Confesso que sinto muita tristeza ao ler comentários com tom de deboche ou de provocação nas postagens de notícias tristes, como a da morte de Paulo Gustavo ou da divulgação do balanço diário da covid-19. A quantidade de reações com o emoji 'Hahaha' assusta"

Roberto Fonseca
postado em 07/05/2021 06:00
 (crédito: Külli Kittus/Unsplash)
(crédito: Külli Kittus/Unsplash)

O país viveu uma noite de extrema comoção na última terça-feira (4/5). A morte do ator e comediante Paulo Gustavo nos fez lembrar de datas de grande consternação nacional, como o dia da colisão fatal do piloto Ayrton Senna, em 1994; e a dos acidentes aéreos da TAM, da Gol e os que vitimaram a banda Mamonas Assassinas e a delegação da Chapecoense. A diferença agora é que uma doença pandêmica matou o maior chamariz de público da história do cinema nacional. O componente trágico está justamente no momento em que vivemos.

Muita gente se identificou com a morte de Paulo Gustavo. A covid-19 está muito perto de todos nós. Recente pesquisa da UnB e do IBPAD sinaliza que 86% dos entrevistados conhecem pelo menos uma pessoa que morreu em consequência de complicações do novo coronavírus. No Distrito Federal, pelos números mais atualizados, quase uma a cada sete pessoas já pegou a doença, sendo que um a cada 357 habitantes da capital federal morreu.

Por isso, o momento é de compaixão, de nos solidarizarmos com a dor do próximo. Confesso que sinto muita tristeza ao ler comentários com tom de deboche ou de provocação nas postagens de notícias tristes, como a da morte de Paulo Gustavo ou da divulgação do balanço diário da covid-19. A quantidade de reações com o emoji "Hahaha" assusta. É difícil quantificar, mas a zombaria alheia está presente nas redes sociais de todos os veículos de comunicação. Entrem e deem uma olhada. É de ficar de queixo caído. Não são notícias para se achar graça.

E muito me preocupa essa cultura de ódio, tema que está em fase de estudos na academia. Há uma corrente que diz que essa "fúria", se é que podemos chamar assim, começou a ser exposta em 2014, com uma evolução enorme a partir de 2018, curiosamente anos de eleições presidenciais no Brasil. Mas é fato que, com esse comportamento, veio a reboque a perda de respeito, em não saber ouvir e interpretar uma opinião contrária.

Então, é preciso pensar em fórmulas para dar um basta nesse deboche macabro existente nas redes sociais. Uma forma é banir quem se esconde atrás de pseudônimos ou contas fake. Que tal um perfil por CPF? Em certas situações do dia a dia, não há espaço para piadas. O poder das palavras é grande, tanto para o bem quanto para o mal. Respeito com a dor alheia sempre é bom.

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