OPINIÃO

Irlam Rocha Lima: Do LP ao single

Irlam Rocha Lima
postado em 20/07/2021 06:00 / atualizado em 20/07/2021 08:38
 (crédito: Ignat Kushanrev/AFP)
(crédito: Ignat Kushanrev/AFP)

Houve tempo, no século passado, em que música era ouvida em LPs. Além do registro das canções, eles traziam capas bem elaboradas — a do Nervos de aço, de Paulinho da Viola, criação do artista plástico Elifas Andreato, é inesquecível —, encartes com letras das composições, fotos e textos escritos por especialistas sobre o artista e a obra. Eram atrativos a mais para o consumidor daqueles bolachões de vinil.

Alguns deles, verdadeiras obras raras, hoje são encontrados apenas em sebos ou nas mãos de colecionadores. Há os que fazem parte da memória afetiva de muita gente, entre eles os antológicos Tropicália Panis et circensis (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Gal Costa, Nara Leão e Mutantes); Acabou chorare (Novos Baianos); Chega de saudade (João Gilberto); Construção (Chico Buarque); Clube da Esquina (Milton Nascimento); Samba esquema novo (Jorge Ben); Elis & Tom; Refazenda (Gilberto Gil); Fa-Tal (Gal Costa); Fruto Proibido (Rita Lee); Dois (Legião Urbana); e, claro, Sgt. Pepper’s lonely hearts club band (Beatles).

Por volta de 1990, no Brasil, os LPs passaram a ser substituídos pelos CDs, que, como se dizia antigamente, tornaram-se uma febre. Houve artistas que chegaram a obter vendagem superior a um milhão de cópias, por lançamento do produto – utilizando a linguagem dos executivos das gravadoras.

Esse formato manteve-se em alta até os primeiros anos da década passada. Com a crise que se abateu sobre a indústria fonográfica, em consequência da baixa comercialização de discos, a função das gravadoras como produtoras foi praticamente extinta.

Contribuiu decisivamente para isso o surgimento de tecnologias que permite a qualquer pessoa fazer uma gravação caseira e utilizar a internet para que ela chegue ao público. E assim há a possibilidade de alguém, absolutamente desconhecido, ao postar uma música nas plataformas digitais, tornar-se uma celebridade. Tudo porque aquele single – que substitui o LP e o CD – pode ser visualizado por milhões de pessoas.

Taí um fato que corrobora com a premonição do polêmico e lendário artista plástico norte-americano Andy Warhol, que na década de 1970 afirmou: “No futuro, todos terão seus 15 minutos de fama”.

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