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Artigo: Juros contra a inflação

Inflação alta é concentradora de renda, pois os mais ricos têm como se protegerem deixando os recursos aplicados nos bancos. Os menos favorecidos mal conseguem comprar produtos básicos para a alimentação, pois as remarcações consecutivas corroem a renda

Correio Braziliense
postado em 05/08/2021 06:00 / atualizado em 05/08/2021 08:00

O Banco Central decidiu sacrificar a retomada da economia e conter a inflação, que dá sinais de descontrole. A instituição elevou ontem (4/8) a taxa básica de juros (Selic) em um ponto percentual, de 4,25% para 5,25% ao ano, e avisou que, daqui a 45 dias, promoverá novo aumento da mesma magnitude. Ou seja, está contratado que os juros subirão para 6,25% no fim de setembro. É um aperto e tanto para uma atividade que ainda patina para sair do atoleiro provocado pela pandemia.

Está correto o Banco Central. Nada é mais pernicioso para a sociedade do que a inflação fora de controle. Basta olhar para a história recente do país para ver o quanto a população, sobretudo a mais pobre, foi açoitada com os preços em disparada. Ainda pagamos uma fatura altíssima por esse período, traduzido pela enorme desigualdade social. Inflação alta é concentradora de renda, pois os mais ricos têm como se protegerem deixando os recursos aplicados nos bancos. Os menos favorecidos mal conseguem comprar produtos básicos para a alimentação, pois as remarcações consecutivas corroem a renda.

Além de cumprir sua missão constitucional, de preservar o valor da moeda, o BC está tentando fazer parte do trabalho que o governo não realiza. Na área fiscal, há uma enorme incerteza. Ainda que a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB) esteja em queda — pequena, ressalte-se —, o Palácio do Planalto pleiteia por mais gastos para garantir um programa social robusto que o presidente da República possa ter como bandeira na campanha pela reeleição.

Em tempos tão cruéis, em que parte significativa da população passa fome, o país ter um programa de renda consistente é fundamental. Não pode, porém, o governo avançar os sinais da responsabilidade fiscal por questões eleitoreiras. Para que esse programa social mais robusto se materialize, é preciso cortar outros gastos. Em vez disso, o Planalto engordou com bilhões de reais o orçamento secreto que é gerido pelo Congresso, cujos recursos estão irrigando emendas de parlamentares que se comprometem a votar de acordo com os interesses do Planalto.

Há outro problema a pressionar a inflação: a alta do dólar. Diante das incertezas políticas que pululam em Brasília, os investidores puxam a moeda norte-americana para cima, encarecendo os combustíveis — há lugares no país em que o litro da gasolina está a quase R$ 7. O dólar em alta também força os preços dos alimentos, sobretudo, aqueles com cotação internacional, como as carnes, a soja, o milho e o trigo do pãozinho francês.

Não bastasse tudo isso, o Brasil está à beira de um racionamento de energia. Por essa razão, a conta de luz está tão cara. Mas, em vez de adotar uma ampla política que leve à economia de eletricidade, o governo prefere optar pelo negacionismo, como fez com a crise sanitária provocada pelo novo coronavírus. Pelos cálculos do Banco Central, os preços administrados, que incluem os combustíveis e a energia elétrica, vão subir, em média, 10% neste ano. Isso contamina toda a cadeia produtiva. É custo repassado para todos os consumidores por meio dos produtos que adquirem.

Apesar de reconhecer que a inflação está saindo do controle — pode ficar acima de 7% em 2021 —, o Banco Central acredita que, com o arrocho monetário, conseguirá botar a casa em ordem. Para isso, contudo, precisa que o governo dê sua contribuição, fazendo um ajuste fiscal consistente, e o Congresso faça andar as reformas constitucionais. Mais: que o Planalto não tumultue ainda mais o ambiente político. Não é pedir muito.

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