opinião

Artigo: Por quem choram os muezins?

A tragédia do Afeganistão é o preço do desprezo pelo futuro de uma nação, da corrupção galopante, da ignorância em relação a uma cultura e a um povo

Rodrigo Craveiro
postado em 18/08/2021 06:00 / atualizado em 18/08/2021 07:46
 (crédito: NOORULLAH SHIRZADA / AFP)
(crédito: NOORULLAH SHIRZADA / AFP)

Em todo o país muçulmano, escuta-se o clamor melancólico do muezim, o pregoeiro que anuncia, do alto do minarete da mesquita, as cinco preces diárias que todo o seguidor de Maomé e de Alá deve fazer. É um chamado à devoção e à leitura do Corão, o livro sagrado do islã. Qualquer muçulmano avesso ao radicalismo sabe que sua religião prega a paz. Desde o último domingo, o Afeganistão mergulhou nas trevas, na obscuridade do fanatismo, na misoginia travestida de religião, na deturpação mais extrema das suratas — os 114 capítulos do Corão —, no desprezo pelos direitos humanos, na absoluta aversão aos valores ocidentais. Horas depois da tomada de Cabul, outdoors com mulheres sem o véu islâmico começaram a ser removidos da capital. Um indício da censura draconiana a caminho.

Doem na alma as imagens de afegãos tentando embarcar em aviões e se agarrando ao trem de pouso. Como se tentassem agarrar a própria vida por poucos minutos, antes se serem lançados à morte. Quem ficou em Cabul sabe que perdeu a liberdade. Em um regime liderado pelo Talibã, submissão é garantia de integridade física. Quem não se recorda das mulheres apedrejadas em público por suposto crime de adultério? Quem não se lembra dos estádios lotados de gente para assistir a execuções públicas? Uma forma de manipular pelo medo. Com os talibãs no poder, as mulheres, provavelmente, serão forçadas a abandonarem os estudos. Algumas serão obrigadas a se casarem com os mujahedin (combatentes islâmicos). Terão de se esconder atrás da burca, que cobre da cabeça aos pés. Os homens serão impedidos de fazer a barba. Músicas ocidentais estarão banidas do Afeganistão. Mais de 40 milhões de pessoas ficarão escravas de fanáticos religiosos que idolatram armas.

Por quem choram os muezins? Como os clamores melancólicos dos pregoeiros nas mesquitas afegãs ecoarão como símbolo de esperança em uma terra mais uma vez lançada às trevas e à idade das pedras? A tragédia do Afeganistão é o preço do desprezo pelo futuro de uma nação, da corrupção galopante, da ignorância em relação a uma cultura e a um povo, do desinteresse em assentar as bases do crescimento econômico de uma nação, da indiferença para com as escaramuças tribais de uma sociedade complexa. No discurso de anteontem em que tentou justificar o injustificável, o presidente Joe Biden encarnou Pôncio Pilatos. Lavou as mãos ante o medo, o desespero absoluto e a desesperança de uma nação refém de fundamentalistas.

Os Estados Unidos têm sua parcela de culpa pela tirania corânica que reascendeu ao poder depois de duas décadas de quase hibernação. Assim como os aliados ocidentais dos norte-americanos, que acreditavam encarnarem a figura dos libertadores. Apenas semearam o caminho para o caos. Ao povo afegão, meus pêsames pela morte de qualquer esperança de democracia e de liberdade.

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