opinião

Visão do Correio: o desastre do Afeganistão

Não há dúvidas de que a forma desordenada como os Estados Unidos deixaram o Afeganistão abala a reputação do atual presidente da maior potência do mundo, Joe Biden

Tudo deu errado no Afeganistão. Nos quase 20 anos de ocupação daquele país pelos Estados Unidos, ficou clara a sucessão de erros dos governos norte-americanos, que se preocuparam apenas em combater o Talibã, mas não ofereceram as bases necessárias para a instalação de governos sólidos, inclusivos e não corruptos. Também não fortaleceram a economia no sentido de minimizar a miséria histórica da nação asiática. Não compreenderam a política e a cultura locais. A população afegã, cansada da guerra, passou a ver os norte-americanos não mais como libertadores, mas como ocupantes, invasores.

Desde setembro de 2001, quando o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, anunciou que invadiria o Afeganistão em represália aos ataques terroristas que destruíram as Torres Gêmeas do World Trade Center — quase 3 mil pessoas perderam a vida —, sabia-se que a operação seria um desastre, assim como foi a ocupação do Iraque. Os EUA conseguiram destruir as células do Al-Qaeda que estavam no país asiático, mataram Osama bin Laden, contudo, nada foi feito para que, da ocupação, surgisse uma democracia. O Afeganistão continuou sendo uma sociedade tribal.

Não há dúvidas de que a forma desordenada como os Estados Unidos deixaram o Afeganistão abala a reputação do atual presidente da maior potência do mundo, Joe Biden. A facilidade com que o Talibã reconquistou o país explicitou o quão frágeis eram as bases do governo afegão liderado por Ashraf Ghani, que fugiu alegando que queria evitar um banho de sangue. Os EUA gastaram mais de US$ 1 trilhão na empreitada frustrada e mais de 250 mil militares do país perderam a vida em duas décadas. Daí a razão de dois terços dos cidadãos norte-americanos serem a favor da retirada de tropas do Afeganistão.

O Talibã, que recuperou o poder, tem uma característica importante. Seus mujahedin (guerrilheiros islâmicos) costumam se camuflar de forma eficiente na sociedade, misturar-se à população. Os Estados Unidos, provavelmente, imaginaram que o movimento fundamentalista islâmico tinha se enfraquecido após 20 anos de combates. Falharam no cálculo.

A conjuntura política e de segurança do Afeganistão se insere numa complexa teia de relações tribais e senhores da guerra. Especula-se que alguns desses senhores, responsáveis pela segurança de cidades e capitais provinciais, corromperam-se e facilitaram o avanço do Talibã pelo território afegão.

Agora, atônito, o mundo se pergunta o que resultará do Afeganistão. Diante das imagens difundidas pelas tevês e pelas redes sociais nos últimos dias, é difícil acreditar que o Talibã esteja disposto a cumprir a promessa de respeitar propriedades e direitos individuais.

Pelo contrário, é muito possível que retrocessos como o fim da liberdade de imprensa e dos direitos de mulheres voltem a prevalecer. Espera-se, ainda, uma tragédia humanitária, com milhares de refugiados, e perseguições políticas a pessoas que se aliaram aos norte-americanos.

A tensão em uma área conflagrada vai aumentar. Os Estados Unidos ainda têm muito a fazer para evitar o pior, assim como os aliados que o acompanharam na fatídica ocupação do Afeganistão. Nas últimas semanas, o Talibã negociou diretamente com a China.

Enviou emissários até aquele país para garantir que a soberania chinesa seria resguardada. Isso fortaleceu o Talibã internamente e lhes conferiu um certo grau de legitimidade. A Rússia também negocia com o grupo extremista. Tempos muito conturbados estão por vir.