OPINIÃO

5G no trabalho: ganhadores e perdedores

Correio Braziliense
postado em 05/11/2021 06:00
 (crédito: Caio Gomez)
(crédito: Caio Gomez)

Por JOSÉ PASTORE - Professor da Universidade de São Paulo e membro da Academia Paulista de Letras. É presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomercio-SP

Termina hoje o leilão das frequências de Internet do 5G no Brasil. Uma vez implantado, o 5G terá uma velocidade 100 vezes superior à do 4G; chegará às áreas mais remotas; alavancará o uso de novas tecnologias na indústria, no agronegócio, no comércio, nos serviços em geral, na telemedicina, na ensino a distância, segurança pública; permitirá a conexão de máquinas com máquinas que, por si mesmas, tomam decisões; criará novas facilidades de logística e entrega; facilitará a transferência de grandes massas de dados; ampliará a interligação entre pessoas, empresas e equipamentos; e muitas outras mudanças.

Quais empregos serão destruídos? Quais os que serão criados? Quem estará preparado para as novas atividades? Quem vai perder e quem vai ganhar com a revolução que se aproxima?

A literatura acadêmica está repleta de análises pessimistas, otimistas e realistas sobre o tema. Dos analistas realistas, aprendemos que as novas tecnologias (1) fazem aumentar a proporção das ocupações de altos salários e também das de baixos salários; e (2) reduzem a proporção das ocupações de salários médios. Com isso, alguns profissionais de classe média sobem na estrutura social, poucos ficam estáveis e vários descem na referida estrutura. Estudos recentes mostram que, em vários países, está havendo um enxugamento da classe média. É o que ocorre, por exemplo, com a imp2lantação de um sistema digitalizado em um almoxarifado de um grande supermercado. As tarefas realizadas pelos chefes que ali trabalhavam são substituídas por decisões de inteligência artificial. Os que têm condições de se transformar em analistas ou operadores do novo sistema digital, sobem de status ocupacional e de salários. Os demais descem na estrutura ocupacional, passando a trabalhar como colocadores de produtos nas gôndolas, zeladores dos prédios, caixas ou profissionais autônomos fora do ramo de supermercado — motoristas e entregadores de aplicativos, prestadores de serviços pessoais como cuidadores, barbeiros, tintureiros e outras atividades de salários mais baixos.

O que dizer do impacto geral na demanda de mão de obra? Esta depende muito do crescimento da economia. As tecnologias modificam a estrutura das ocupações, mas, até hoje, não houve evidência de que mais destroem do que criam empregos quando o crescimento econômico é vigoroso. No geral, as tecnologias facilitam a criação de novos bens e serviços a preços mais acessíveis às massas de consumidores. Assim deverá ocorrer com o advento do 5G.

A sobrevivência no novo mundo do trabalho vai requer muita qualificação e requalificação profissionais. O World Economic Forum de 2020 estimou que o mundo terá de requalificar 1 bilhão de trabalhadores até 2030. Isso se aplica também ao Brasil, pois vivemos a falta de pessoal qualificado em muitos setores.

Para tanto serão necessários instituições competentes e muito dinheiro. As fontes convencionais de recursos não terão condição de sustentar a revolução educacional e profissional exigida pelas novas tecnologias. Uma das esperanças é a de obter recursos pela adoção do imposto global único de 15% sobre as grandes empresas recém-aprovado pelos países do G20, Brasil, inclusive.

Mas não se deve exagerar os impactos da nova revolução tecnológica no Brasil. Por um bom tempo, continuaremos com uma estrutura ocupacional que utiliza habilidades mais simples dos pequenos negócios, dos serviços de conservação, asseio e limpeza, dos vendedores ambulantes, etc.

Mas precisamos ser proativos. Se ainda temos algum tempo para chegar ao estágio das economias de fronteira, esse tempo precisa ser bem utilizado para melhorar a qualidade do nosso ensino e ampliar as oportunidades de qualificação profissional.

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