Guerra no leste europeu

Visto, lido e ouvido: Buraco de Tatu

Circe Cunha
postado em 26/03/2022 06:00
 (crédito: Getty Images)
(crédito: Getty Images)

Por suas consequências imprevisíveis, um erro de estratégia cometido por apenas um indivíduo, do alto do Monte Olimpo de seu próprio ego, poderá levar à extinção da vida, como a conhecemos, em todo o planeta. Aliás, essa é uma das questões que atormenta a humanidade desde os primórdios da civilização: como pode um indivíduo, decidir o destino de bilhões de outros? Milhares de anos de história do homem no mundo, com todo aprendizado que acumulou ao longo dos séculos, essa é ainda uma incógnita sem solução.

É uma questão a ser resolvida o mais urgentemente possível, para pôr fim à escalada da guerra que Putin declarou à Ucrânia. O que os analistas dos mais diferentes matizes ideológicos e, principalmente, aqueles que acompanham de perto o conflito, é que o poderoso Exército russo parece ter caído numa espécie de areia movediça, afundando cada vez mais e a cada movimento.

Muitos comandantes parecem perceber que tomar a Ucrânia no braço, na bala e em poucos dias, como estava programado no início da invasão, é uma tarefa impossível. Mesmos os bombardeiros cegos, contra alvos e população civil, como meio de baixar o moral dos ucranianos, parecem não surtir efeito.

De fato, Putin encontrou o que buscava há anos: seu Vietnã, atolando centenas de milhares de soldados numa guerra sem fim, cujo desfecho, caso o ditador russo resolva essa parada com um artefato nuclear, significará uma vitória de Pirro, obtida a alto preço, com a perda de milhares de vidas. Os benefícios da conquista ficarão sempre aquém das perdas e prejuízos. Essa, inclusive, poderá ser a derradeira batalha em que se mete o tirano eslavo.

Seu prestígio pessoal e daqueles que interesseiramente o apoiam internamente é igual a zero no lado ocidental do planeta. Mesmo para a China, que apoia esse e outros ditadores como Kim Jong-un, da Coreia do Norte, Putin vem se tornando um peso difícil de carregar. O pior nessa história toda e que parece ter início numa noite mal dormida do presidente da Rússia é que o efeito dominó, provocado pela invasão a um país democrático e soberano, vem provocando uma corrida, sem precedente, desde a Segunda Grande Guerra, aos armamentos.

Países, como Alemanha, que se acreditava nunca mais pensar em armas de guerra, afirmam que investirão bilhões de euros em produtos bélicos. Do mesmo modo, o Japão vem reforçando seu poderio militar. O mesmo para a maioria dos países que fazia parte do bloco da antiga União Soviética, todos assustados com as possibilidades reais de futuras invasões. A essa altura dos acontecimentos, fica claro que a resistência dos ucranianos se deve muito aos investimentos dos Estados Unidos no treinamento e no fornecimento de armamento para seus exércitos.

O envolvimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no episódio mostra que existe uma escalada da guerra que agrega outros atores. Isso indica não só um agravamento do quadro, mas uma possibilidade de a crise se estender por muito tempo. As vias de fato, envolvendo muitos países diretamente nesse conflito, virá quando for percebido que os resultados do bloqueio econômico e das retaliações não surtirem o efeito desejado.

Nós, que nos encontramos aqui no Planalto Central do Brasil e a milhares de quilômetros de distância desse conflito, temos, forçosamente, de ficar preocupados com os efeitos dessa guerra. Caso o conflito resulte na utilização de armas nucleares, não haverá buraco de tatu ou de coruja, por mais profundo que seja, para nos esconder e abrigar.

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