Páscoa

Marcos Paulo Lima: Como contaríamos a história?

Marcos Paulo Lima
postado em 16/04/2022 06:00
 (crédito: OLIVIER DOULIERY)
(crédito: OLIVIER DOULIERY)

Em tempos de Páscoa, imagino como seria a cobertura da morte e ressurreição de Jesus Cristo na era das redes sociais. De que forma a passagem do Mestre pela terra chegaria a uma sociedade cada vez mais incrédula e dependente do espetáculo para classificar uma história como verdadeira ou falsa?

Há quem duvide do que foi apurado e registrado nos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. Respeito a opinião dos homens de pouca (ou nenhuma) fé, mas #euacredito no que está publicado na Bíblia e até cometerei um pecado capital: invejo, como jornalista, quem viu, anotou, e escreveu a biografia do personagem central do cristianismo.

Certa vez, Jesus perguntou ao discípulo Pedro: "Quem dizem que eu sou?". No Brasil de debates políticos rasos, mas inflamados, alguns influenciadores rotulariam Cristo de homem de esquerda. Outros o apontariam como líder da direita conservadora, representante do centro ou da chamada terceira via.

Jesus teria uma conta no Instagram, Twitter e Facebook? Abriria canal no YouTube? Produziria lives e pediria likes ou passaria longe dessas parafernálias digitais? Quantos seguidores teria e quais seriam os perfis desses fiéis — e infiéis? Gente interessada em obter uma graça e descartá-lo, ou um público comprometido em curtir e compartilhar lições, parábolas, ensinamentos desafiadores como a oração do Pai Nosso?

Qual seria a repercussão da cena em que a multidão ameaça apedrejar uma mulher flagrada em adultério e é repreendida por Jesus: "Quem estiver sem pecado atire a primeira pedra".

Pilatos ganharia apelido de isentão por lavar as mãos no julgamento de Jesus. Mas e você, qual seria o seu posicionamento no paredão do reality show? Iria às ruas por Cristo ou reforçaria as vozes que recomendavam poupar Barrabás? Como você agiria no episódio de Judas Iscariotes, o discípulo traidor? E com Pedro, aquele que jurou lealdade a Jesus, mas, como havia sido alertado, o negou quando o galo cantou pela terceira vez?

A cobertura da via sacra teria os direitos de transmissão vendidos a canais abertos ou ficaria restrita a assinantes de tevê a cabo e/ou streaming? O que diriam os representantes dos direitos humanos? Haveria debate sobre pena de morte? O assunto viraria trending topics a ponto de cancelar a crucificação?

Não faltariam selfies de fiéis, infiéis e curiosos em frente à cruz, de preferência com Jesus, os pregos nas mãos, a coroa de espinhos ao fundo e localização. Vídeos dos suspiros finais. O áudio do derradeiro diálogo de Cristo com aquele ladrão perdoado na última hora — que teve acesso ao paraíso.

Como seria dada a notícia da ressurreição, ou seja, de que o corpo não estava mais no sepulcro? À época, foi considerada fake news. Imagine hoje! Correntes de WhatsApp e Telegram seriam disparadas com teses mirabolantes. Um dos maiores mandamentos de Jesus é o amor ao próximo. Perdemos isso em nome do espetáculo. Que a Páscoa nos faça refletir e devolva-nos o discernimento.

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