aniversário de brasília

Artigo: De um candango para Brasília

Rodrigo Craveiro
postado em 20/04/2022 06:00
 (crédito:  GABRIEL ROBIN)
(crédito: GABRIEL ROBIN)

Da alvorada de meus sonhos tantos sonhos nasceram. De minhas mãos calejadas e de meu suor, brotou, na dureza do cerrado, a beleza da flor do amanhã. Do alto de seu concreto abstrato, meus olhos se inundavam de pôr do sol. Ao fim do dia, era mais uma recompensa para uma gestação dura, de alto risco e plena de amor. Quando os primeiros rabiscos saíram do papel e ganharam seu horizonte, foi que percebi os traços que seriam futuro para sempre. Quantas vezes me surpreendi com sua beleza tão desafiadora... Quantas vezes seus traços sutis e equilibrados também equilibraram a minha alma... Quantas lágrimas derramei ao perceber o que havíamos feito... No coração do Brasil, nascia um novo Brasil. Construído da força de gente comum, como eu. Feita de esperança.

Hoje, no limiar de minha vida e na véspera de seu aniversário, as lembranças daqueles tempos povoam meu espírito-menino de gratidão. Eu ajudei a concebê-la e estive ali, na sala de parto. Eu vi você dar os primeiros passos. Tão segura de si, determinada por uma força que somente é sua. Colosso de um novo tempo. Vi você crescer com raízes profundas e tornar-se mãe. Quantos filhos abrigou, gestou, embalou e nutriu com os mesmos sonhos meus! Brasília... O Brasil coube dentro de seu nome. Não poderia ser mais perfeito. Da resistência do nordestino aos sotaques e anseios dos quatro cantos do país, você se fez hoje, amanhã e sempre.

Brasília. De céu-mar azul, pleno, vasto e intenso. De monumentos que parecem flutuar e descansar as vistas. Do espelho das águas do Paranoá, a dourar o olhar de poesia na despedida de um novo dia. Brasília. Do Eixão, das tesourinhas, dos balões, do Parque da Cidade, do Eduardo e da Mônica, mas também do índio Galdino e da Ana Lídia. Brasília. Da simplicidade do trabalhador mais humilde às contradições do poder. Das cidades-satélites, da Água Mineral... De JK admirando, do alto, sua criação. Da colcha de culturas, das embaixadas, do rústico ao cosmopolita.

Vejo minhas mãos cansadas e frágeis. Tenho orgulho pelo que ajudaram a construir. Espero, de coração, que Brasília embale outros corações. Que novos amores surjam de sua poesia. Que tantas histórias se façam em seu amanhã. Que casais apaixonados encontrem em seu crepúsculo a aurora de um amor tão intenso e povoem essa terra com novos amores. A você, Brasília, o meu carinho e a minha gratidão.

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