ECONOMIA

Análise: Piora no cenário econômico global

Correio Braziliense
postado em 27/04/2022 06:00
 (crédito: Caio Gomez)
(crédito: Caio Gomez)

ARMANDO CASTELAR - Professor da FGV Direito Rio e do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador associado do IBRE/FGV

Semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) atualizou seu Panorama Econômico Global. Como esperado, o fundo reduziu a projeção de crescimento e elevou a de inflação, reflexo do impacto estagflacionário da guerra entre Rússia e Ucrânia, e das sanções adotadas em reação a ela. O tamanho das revisões, porém, surpreendeu.

A projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB ) mundial este ano ficou 0,8 ponto percentual (pp) abaixo do previsto três meses atrás, indo de 4,4% para 3,6%. Também a alta do PIB em 2023 foi revista para baixo, para 3,6%, desacelerando mais nos anos seguintes, até atingir 3,3% na média de 2026-27. No todo, um ritmo fraco, abaixo da média de 3,8% observada de 2000 a 2019.

A piora foi mais intensa na área do euro, onde, agora, se espera que o PIB cresça 2,8%, 1,1 ponto percentual a menos do que antes, e menos dramática nos Estados Unidos , onde o FMI agora prevê que o PIB cresça 3,7% em 2022, contra uma taxa anterior de 4%. Também para outros países ricos, como o Reino Unido (-1,0 pp) e o Japão (-0,9 pp), o FMI reduziu as projeções de crescimento.

O desempenho esperado para as economias emergentes também piorou — na média, um corte de 1 ponto percentual na expansão prevista. Há, porém, diferenças relevantes de uma região para outra, refletindo a sensibilidade de cada uma à guerra. Assim, o fundo agora espera uma forte retração do PIB dos emergentes europeus (-2,9%), puxada por quedas de 35% no PIB da Ucrânia e de 8,5% no da Rússia.

O crescimento dos emergentes asiáticos, por sua vez, foi reduzido em 0,5 ponto percentual, refletindo não só os efeitos da guerra, mas também as repercussões negativas sobre a atividade da política de combate à covid-19 praticada na China. Por fim, o crescimento previsto para a América Latina foi elevado em 0,1 ponto percentual, para 2,5%. No caso do Brasil, em especial, o FMI elevou sua projeção de PIB este ano em 0,5 ponto percentual, para 0,8%, ainda que reduzindo aquela para 2023 em 0,2 ponto percentual, para 1,4%. No todo, portanto, um desempenho bastante fraco, dado o potencial de nossa economia.

Por seu lado, o FMI subiu as projeções de inflação. Ele agora espera que os preços ao consumidor subam 5,7% este ano nas economias avançadas e 8,7% nos países emergentes. Essas taxas são, respectivamente, 1,8 e 2,8 pontos percentuais mais altas do que as esperadas três meses atrás. A inflação projetada para 2023 também subiu, para 2,5% nos países desenvolvidos e 6,8% naqueles em desenvolvimento.

A forte alta dos preços das commodities, em especial as de energia e alimentícias, explica grande parte dessas revisões. O FMI, agora, espera que o preço do petróleo suba 55% este ano, 43 pontos percentuais a mais do que previa em janeiro, enquanto o preço das demais commodities deve subir 11%, 8 pontos percentuais a mais do que o esperado há três meses.

A alta inflação vai aumentar a pressão sobre os bancos centrais, que devem reagir apertando a política monetária. Esse é outro componente que explica o menor crescimento projetado para este ano e, em especial, 2023. De fato, muitos analistas preveem que a economia americana entre em recessão no final do próximo ano, cenário que só será evitado na Europa devido à política fiscal mais expansionista adotada em reação ao efeito contracionista da guerra na região.

Como aponta o FMI, o cenário ora apresentado vem acompanhado de riscos elevados, relativos não apenas à duração e à extensão da guerra e à profundidade das sanções adotadas em reação a ela, mas também à dinâmica inflacionária dos próximos anos. A tendência, aponta o fundo, é que a inflação siga alta ainda por alguns anos. Mas, dependendo de quão alta e por quanto tempo, ela pode exigir uma resposta mais dura dos bancos centrais do que se prevê atualmente. Em isso ocorrendo, as repercussões para as economias emergentes podem ser significativas, com a fuga de capitais, a desvalorização das moedas e contrações significativas do PIB.

Esse cenário seria ainda mais complicado pela situação relativamente vulnerável das contas públicas em diversos países, fruto dos gastos e das dívidas elevadas contraídas em resposta à pandemia da covid-19. Taxas de juros mais altas e menor crescimento vão limitar o espaço para políticas sociais mais agressivas, potencialmente agravando o impacto sobre os vulneráveis de uma deterioração do cenário econômico global.

O Brasil está bem posicionado para enfrentar um cenário como esse. Porém, isso vem em parte dos altos preços das commodities. A desaceleração do PIB mundial, em especial da China, e a valorização do dólar podem derrubar esses preços e complicar a situação.

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