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Artigo: Risco de uma catástrofe nuclear

Correio Braziliense
postado em 15/05/2022 06:00
 (crédito: maurenilson freire)
(crédito: maurenilson freire)

Sacha Calmon - Advogado

É bom ouvir de Edward Luce, do Financial Times, e o também autocrata Volodymyr Zelensky: "A disposição de Vladimir Putin de ameaçar usar armas nucleares é, de certo modo, um bom sinal, também é potencialmente catastrófico. Se o objetivo de Putin é amedrontar o Ocidente, ele está certo. A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar ocidental) continua aumentando sua ajuda a Kiev.

A questão é o que Putin fará. Ele sabe exatamente quais medidas tomará. Estará blefando? Seja como for, o gênio está fora da garrafa. Putin quebrou o tabu pós-Cuba ao ameaçar partir para as armas nucleares. Isso, por si só, nos coloca em um novo território. Sem que a maioria das pessoas esteja ciente disso, o mundo está entrando em seu período mais perigoso desde a crise dos mísseis de Cuba de 1962...

A maioria das pessoas com menos de 50 anos cresceu pensando que o espectro nuclear é uma relíquia do século 20. Nas últimas semanas, a possibilidade de um conflito nuclear tornou-se a mais viva ameaça à paz deste século.

Em termos de conscientização pública, o debate sobre a linguagem de Putin é um bom exemplo. É fácil pensar em Putin como um viciado em pôquer, tentando escapar de uma aposta ruim. Em algum momento, ele deve desistir. Autoridades civis e militares dos Estados Unidos não sofrem dessa complacência.

Muitos vêm participando de exercícios de jogos de guerra em que o uso de armas nucleares táticas de impacto reduzido quase sempre se transforma em conflito nuclear estratégico — falando claramente, o dia do juízo final.

Se houver 5% de risco de Putin detonar uma arma nuclear num campo de batalha, o mundo estará mais ameaçado do que em qualquer outro momento da vida das pessoas. Nos últimos dias, as indicações de Moscou possivelmente elevaram essa chance para 10%.

Putin descreveu o teste do míssil balístico intercontinental hipersônico Sarmat, na semana passada, como "alimento para reflexão" para o Ocidente, o que não soaria fora de propósito para Blofeld, o vilão de James Bond do século 20. Na quarta-feira, Putin disse: "Temos todos os instrumentos para isso [responder a uma ameaça à existência da Rússia], dos quais ninguém mais pode se gabar. E os usaremos, se for preciso".

A resposta natural é que Joe Biden e seus colegas europeus deixaram claro que a Otan não lutará na Ucrânia. O Ocidente, em outras palavras, não representa uma "ameaça existencial" à Rússia — seu limite para o uso de armas nucleares.

Mas isso é apenas a forma como o Ocidente vê a situação. As ameaças de Putin, e de seus oficiais, foram feitas no contexto da alegação de que a Rússia já está em guerra com a Otan. Os russos estão sendo informados todos os dias que estão numa luta pela sobrevivência nacional apoiada pelo Ocidente. Esse nível de retórica excede qualquer coisa da Guerra Fria.

O conceito de destruição mútua assegurada, que se estabeleceu após 1962, é que cada lado tem uma janela clara sobre as rotinas e o pensamento do outro. A maior parte do compartilhamento de informações que havia sido implementado, foi abandonado na última década. Putin encerrou os protocolos da Guerra Fria e chegou até a acusar de espiões os cientistas nucleares russos interessados em conhecer seus colegas americanos.

Isso significa que os dois adversários, que respondem por 90% das ogivas nucleares do mundo, estão muito mais desinformados sobre as sinalizações um do outro do que estavam nas décadas de 70 e 80. A ignorância, nesta situação, não é um bom presságio.

Uma questão premente é como Biden responderia se Putin detonasse uma arma nuclear tática na Ucrânia. Entre suas escolhas estaria um ataque convencional à origem do míssil — uma fábrica, ou digamos, o local de lançamento. Outra seria impor um embargo comercial total e sanções secundárias aos não cumpridores, especialmente à China.

A primeira escolha — atingir o território russo — poderia desencadear uma escalada letal sujeita a fugir do controle. A segunda implicaria risco de ser quixotesca. Poderia haver medidas intermediárias, como alvejar um navio russo ou um ataque cibernético.

Tudo isso envolve adivinhar como Putin responderia. Estamos alheios aos cenários que se desenrolam na Casa Branca — quanto mais na cabeça de Putin. No entanto, não há, no momento, nada mais urgente para o nosso destino e mais ameaçador.

A Ucrânia vale tanto? A resposta é não. Zelensky e seu partido não tem nada de democrático. Ele próprio é um rematado autocrata, tanto quanto Putin. Postos na periferia do mundo ocidental católico, somos pouco informados. O mesmo se diga de Viktor Órban, na Hungria. A Europa flerta com o neofascismo.

A ascensão do neofascismo tem sido uma preocupação política e sociológica. Neste particular os EUA deveriam exercer o seu primado não como aliado político-militar, mas como influência acadêmica e política, junto com a França e, principalmente, o Reino Unido e o pensamento democrático alemão.

 

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