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Artigo: Eu estive lá, eu sou o espírito do soldado brasileiro

Correio Braziliense
postado em 22/08/2022 06:00
 (crédito: Valdo Virgo)
(crédito: Valdo Virgo)

OTÁVIO RÊGO BARROS — General de Divisão da Reserva Ex-Chefe do Centro de Comunicação Social do Exército (CComSEx)

Estive nas ravinas dos Montes Guararapes. Pude sentir a energia que brancos, negros, índios e mestiços, irmanados por simbólico ideal de pátria, impuseram-se para derrotar as tropas batavas, invasoras da nação em primeira infância.

Estive às margens do riacho Ipiranga, acompanhando o príncipe regente Dom Pedro no grito de "Independência ou Morte", quando nos libertou do jugo português e nos fez lançar fora os laços lusitanos.

Estive às margens do riacho Itororó. Íngreme e escarpado, me pareceu desafiador. Caxias, já alquebrado, não se intimidou e, diante do impasse das tropas brasileiras em avançar, fez-se à frente de seus homens e os instigou: "Sigam-me os que forem brasileiros".

Estive em Tuiuti, campo largo e descortinado, onde milhares de soldados da Tríplice Aliança se bateram contra os corajosos adversários guaranis na maior batalha campal da América Latina. Lá, Osório, Sampaio e Andrade Neves lideraram seus guerreiros, despreocupados com o sibilar das balas sobre a cabeça. A morte seria a coroação da vida.

Estive em todas as investidas contra o Monte Castelo, durante o ataque aliado às linhas alemãs, em solo italiano. O frio cortante era devastador, as lurdinhas nos atingiam entre os lanços, mas em fevereiro o cume da montanha era verde e amarelo.

Estive no Haiti, sítio destroçado por furacões e terremotos, brigas intestinas fraticidas e miséria extrema, ao lado das tropas dos boinas azuis na Minustah. Soldados, homens e mulheres, dedicados à causa da paz, iluminaram o pavilhão verde e amarelo diante do mundo.

Estive nas enchentes de Santa Catarina e sul de Pernambuco, e deslizamentos de Petrópolis resgatando a população do dilúvio que se lhe abateu e que destruiu suas casas, escolas, locais de trabalho, vidas.

Estive nos morros do Alemão e da Penha, comunidades abandonadas pelo Estado e dominadas pelo narcotráfico à luz do dia. As forças de pacificação que se sucediam trouxe à região a paz tão esperada, que tão logo saímos lhes foi novamente roubada.

Estive na segurança dos grandes eventos que o Brasil acolheu, da Conferência Mundial do Meio Ambiente Rio 20 em 2012, da Jornada Mundial da Juventude em 2013, da Copa do Mundo em 2014, das Olimpíadas em 2016. Nossa presença ofereceu tranquilidade a todos os envolvidos.

Estive nas greves de caminhoneiros, que tolhiam a sociedade de receber bens mais básicos para sobrevivência. Nas greves de órgãos de segurança pública, que abandonaram, à mercê da insegurança criminosa, o povo em desabrido temor. Nos presídios federais, tomados por presos envolvidos em facções criminosas quase intocáveis.

Estive desde sempre nos 17 mil quilômetros de fronteiras, como sentinela avançada da nossa soberania e ponta de lança do Estado sobre os rincões inabitados de nosso território.

Eu sou o espírito do soldado brasileiro. Encarnado em Fernandes Vieira, André Vidal de Negreiros, Henrique Dias e Felipe Camarão. Encarnado em Caxias, Osório, Sampaio e Max Wolf. Hoje me renovo em todos os homens e mulheres dedicados ao serviço da sociedade, que ao vestirem os uniformes, se espalham por todos os cantos deste nosso imenso país. Do Arroio Chuí ao Monte Caburaí, da Ponta do Seixas à Serra de Contamana, eu me faço representar.

Hoje me renovo também na confiança que a sociedade me dedica pelo passado secular de sucesso e seus exemplos a serem seguidos. Ao tempo em que me preparo para enfrentar, no presente, os complexos desafios políticos e profissionais a exigir serenidade e isenção. Quanto ao futuro que se descortina incerto, diante de um mundo em transformação, resta-me planejamento antecipado às novas condições.

Meu espírito, no próximo 25 de agosto de 2022, Dia do Soldado, estará fortalecido pelas tradições e valores de nossos antepassados. Reconhece, contudo, que se vê turbado pelas tentativas externas de nos envolver em contenciosos que a nós não nos cabe inserir-se. Soldado veste farda institucional, padronizada pelas linhas seguras dos escritos constitucionais. Quando delas é tentado se afastar por causas menos nobres, o meu espírito se põe a sofrer.

Inabalável, dormito todas as noites sobre Miguel de Cervantes, nas aventuras do Cavaleiro da Triste Figura, Dom Quixote de La Mancha e seu fiel escudeiro, Sancho Pança: "Vão uns pelo largo campo da ambição soberba, outros pelo da adulação servil e baixa, outros pelo da artificiosa hipocrisia e alguns pelo da religião sincera. Eu, porém, inclinado à minha estrela, vou pela estreita senda da Cavalaria, por cujo exercício desprezo a fazenda, mas não a honra".

Ao acordar, me fardo com a minha cota em malha de aço forjado na temperança, sobre uma camisa em algodão com fios de profissionalismo, para atender à minha perene servidão: o povo brasileiro. Eu sou o espírito do soldado de Caxias. Paz e bem!

 


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