Ação afirmativa

Os homens negros e o direito ao amor

Embora, em 2021, o país ter tido a menor taxa de homicídio registrado desde 2007, o número de homens negros assassinados é bem maior do que o de homens brancos

Explora-se pouco as construções sociais dos homens negros brasileiros -  (crédito: Caio Gomez)
Explora-se pouco as construções sociais dos homens negros brasileiros - (crédito: Caio Gomez)
postado em 02/03/2024 06:01

A Roda de Conversas de Homens Negros de Brasília fez cinco anos de existência em 22 de agosto de 2023. É um grupo sustentado pelas trocas afetivas que os encontros possibilitam. Gratuita, ocorre a cada duas vezes no mês. É possível participar até calado. As temáticas abordadas nas rodas são escolhidas democraticamente pelo grupo. Já foram temas: ancestralidade, mercado de trabalho, relações inter-raciais, paternidade, saúde, entre outros. A ideia é que os participantes falem desses assuntos com base em sua própria experiência. Uma maneira de estimular reflexões em um espaço seguro, promovendo compartilhamento e acolhimento dos integrantes por meio das trocas.

A roda hoje é maior que o encontro promovido duas vezes no mês. Trata-se de amizades que foram construídas nesses cinco anos, rede de serviços que se iniciaram, almoços e jantares entre os familiares dos homens que frequentam, viagens combinadas conjuntamente. Resumidamente, trata-se de promoção à vida.

Explora-se pouco as construções sociais dos homens negros brasileiros. No campo da garantia de direitos, temos pouquíssimas políticas com recorte específico. Temos uma generalização do "homem", escamoteando o grande abismo entre homens brancos e negros. O campo político se alinha a um imaginário social que se restringe a pensar esses homens como propensos ao esporte, a um relacionamento sexual-afetivo com uma loira e que são "bons de cama". Perspectivas heteronormativas e deterministas que dão pouco (ou nenhum) espaço para pensar esses sujeitos em sua complexidade.

Embora, em 2021, o país ter tido a menor taxa de homicídio registrado desde 2007, o número de homens negros assassinados é bem maior do que o de homens brancos. Nos últimos anos no Brasil, os números de homicídios têm caído, porém a discrepância entre a mortalidade de homens negros e brancos ora se mantém, ora é aumentada.

Amparado pela construção imagética articulada pelos veículos de comunicação, sobre o homem negro paira o olhar da desconfiança e certa autorização ao descarte pela sociedade brasileira. Um corpo negro masculino tombado ao chão é uma imagem que não causa comoção em nossa sociedade.

O psiquiatra Frantz Fanon, em uma tentativa de desbancar a raça, diz no seu clássico Peles Negras, máscaras brancas: "Para nós, aquele que adora o preto é tão "doente" quanto aquele que o execra." (p. 26). Sendo a raça uma construção dos povos brancos, interpreto a sentença fanoniana como uma tentativa de superar a raça e trazer ao homem negro um lugar de sujeito, e não de objeto determinado pelo outro (seja no amor ou no ódio).

Fanon é tido, no meio intelectual, como um humanista radical. Sua intenção é superar toda e qualquer imposição das sociedades colonizadas e pensar o ser humano de forma mais emancipada. Apesar de estar escrevendo e pensando o mundo durante a primeira metade do século 20, a condição de disputa da humanidade pelos sujeitos pós-coloniais é atual. A busca por liberdade passa por uma desalienação, portanto lutar pela desconfiguração de rótulos pré-determinados pela história e pela cultura faz parte de um grito de liberdade, condição dada apenas aos falantes.

É aqui que a Roda de Conversa de Homens Negros se constitui como um lugar bonito, de produção de vida, pois ela permite e estimula que a linguagem circule entre homens negros, criando sentidos, estimulando imaginários e sonhos, reinterpretando o passado. Por depender da linguagem, tem limitações frente à realidade racial. Mas ainda assim é criadora de laços sociais baseados em olhares mais amorosos, mais compreensivos.

Para se tornar sujeito precisa-se de espaços onde o "eu sou" possa ser escutado. O diferente disso é algo que dialoga com a violência, o racismo, a anulação do outro. A falta de políticas públicas com recorte de gênero masculino interseccionado com a raça pode ser entendida como um movimento de anulação dessas pessoas. Os investimentos em políticas sociais são parte da garantia de cidadania, e homens negros precisam mais do que apenas prevenção à violência.

Pensar o homem negro para além das músicas, artes, futebol e lugares pré-determinados são atos de humanização e amor. O olhar sobre os homens negros por parte da sociedade e do poder público precisa melhorar. A Roda de Conversa de Homens Negros faz a sua parte. 

VINICIUS DIAS CUNHA
Psicólogo clínico e pesquisador das masculinidades negras brasileiras

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