Artigo

Mais um episódio da "geopolítica de um homem só"

Restaurar a democracia na Venezuela, obviamente, não é o objetivo. Democracia é sempre retórica geopolítica

O petróleo venezuelano é — e sempre será — o fator que coloca o país no centro da geopolítica mundial, para o bem e para o mal -  (crédito:  AFP)
O petróleo venezuelano é — e sempre será — o fator que coloca o país no centro da geopolítica mundial, para o bem e para o mal - (crédito: AFP)

» DANIEL A. DE AZEVEDO, Professor de geografia política do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB)

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Há anos estamos assistindo ao reaparecimento da "geopolítica de um homem só". Fomos enganados nas últimas décadas pelo eldorado do chamado "direito internacional" e do "multilateralismo", enquanto Putin e Trump mostram que, no fim das contas, é a força bélica que manda. Depois das invasões russas na Ásia e no Leste Europeu, agora, na América Latina, os EUA invadem, derrubam um ditador e anunciam que irão "administrar" o país até a transição.

Na "geopolítica de um homem só", não importa se a população apoia esse tipo de ação ou não. Esse "homem só" afirma saber o que é melhor para o Estado e para o mundo. Esses "homens sós" são capazes de promover mudanças muito maiores do que o multilateralismo. De um lado, o direito internacional não consegue impedir ditaduras, como a venezuelana; por outro, tampouco consegue conter os "homens sós". No mundo da "geopolítica de um homem só", estamos sempre à beira de uma guerra mundial — caso esses homens se sobreponham uns aos outros — ou de uma partilha imperial do mundo.

Nesse caso de hoje e desse "homem só" em específico, Trump, compartilho algumas reflexões sem pretensões de respostas finais:

Qual é o limite do multilateralismo para combater ditaduras? Chamam a atenção as manifestações de apoio à intervenção estadunidense, expressas por refugiados venezuelanos que vivem em outros países. Se houvesse uma ditadura no Brasil, apoiaríamos alguma intervenção externa para pôr fim a esse regime, ou a autocracia poderia durar indefinidamente caso o multilateralismo não funcionasse e a oposição fosse eliminada? A soberania é uma categoria acima de qualquer outra em qualquer momento? Quanto se destrói com o discurso de "na minha terra mando eu"?

Um ataque pontual e tecnicamente bem executado na Venezuela para depor o ditador pode ser até aceitável pelos próprios venezuelanos (especialmente os refugiados), mas uma "administração externa" jamais deve ser aceita. Além disso, a chance de caos é grande — e piores chavismos podem surgir desse processo. Apesar de não fazer sentido comparar a Venezuela à Síria ou ao Afeganistão — onde as consequências da chamada "administração de transição" foram graves —, já que o país latino-americano é um Estado moderno consolidado, diferentemente desses casos, persistem riscos importantes: milícias apoiadoras de Maduro podem ir às ruas, os militares podem se recusar a abandonar o sistema de privilégios construído na última década, e a oposição pode ser ainda mais violentamente reprimida.

E o Brasil? Para nós, isso tem pouca influência imediata, exceto no plano do discurso retórico-eleitoral ("soberania x imperialismo americano"), favorável a Lula. Dizer que "o Brasil é vizinho" revela desconhecimento geográfico. O Brasil vizinho da Venezuela é um Brasil sem conexão territorial com o restante do país — fora da core area do Estado. Nem mesmo os venezuelanos veem o Brasil como seu principal destino, não apenas por questões culturais, mas sobretudo porque chegar a Roraima não significa chegar à core area brasileira. De impacto direto, é pouco, bem mais de escala local.

Quais interesses? O petróleo venezuelano é — e sempre será — o fator que coloca o país no centro da geopolítica mundial, para o bem e para o mal. Para os EUA, é muito mais interessante agir na Venezuela do que em qualquer outro país. O mesmo vale para a Nigéria, na África. O interesse de Trump não é apenas "pegar" o petróleo, mas algo mais amplo.

Restaurar a democracia na Venezuela, obviamente, não é o objetivo. Democracia é sempre retórica geopolítica. Democracia não é a categoria que rege a escala global. Ditadura que me agrada está tudo bem; ditadura que não me agrada precisa receber "democracia". Simples assim. Isso funciona dessa forma no mundo todo — inclusive, na geopolítica de países médios, como o nosso. A questão central para os "homens sós" é derrubar instituições que não permitem um governo favorável aparecer.

No fundo, Trump, Putin e a atual liderança do Partido Comunista Chinês expressam, cada um à sua maneira, a consolidação da "geopolítica de um homem só". Em regimes formalmente democráticos ou abertamente autoritários, o padrão se repete: a concentração extrema de poder decisório, a personalização da política externa e o enfraquecimento deliberado de mecanismos institucionais e multilaterais. Essa geopolítica não depende de consenso social nem de legitimidade internacional, mas da capacidade desses líderes de impor sua vontade como se fosse a própria vontade do Estado. O resultado é um sistema internacional mais instável, marcado pela imprevisibilidade, pela lógica da força e pela substituição da política global negociada por decisões unilaterais com efeitos planetários.

A pergunta final que fica é: aonde a "geopolítica de um homem só" está nos levando? Para uma partilha imperial tripolar ou há chance dessa divisão se sobrepor em alguma parte do mundo (Taiwan, talvez?) e o pior acontecer?

 


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postado em 04/01/2026 06:01
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