
» CRISTINA SOREANU PECEQUILO, Professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo, de pós-graduação no PPGRI-San Tiago Dantas e EPI-UFRJ, pesquisadora do CNPq e NERINT-UFRGS
Em 3 de Janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram uma intervenção militar na Venezuela, retirando do poder e prendendo o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cília Flores. Após meses de deslocamento de embarcações dos Estados Unidos ao Caribe e ações militares marítimas, a operação chegou a termo. Sob acusações de patrocinar o narcotráfico e o terrorismo internacional (o narcoterrorismo), Maduro e Flores seguiram para os Estados Unidos em uma embarcação norte-americana, para enfrentar julgamento. Como compreender essa intervenção? Existem projeções possíveis?
A motivação da intervenção está na Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, lançada por Trump em novembro de 2025, que elevou para "número um" a prioridade atribuída ao hemisfério ocidental, redesenhando a competição geopolítica global. Após o hemisfério, seguem-se o Indo-Pacífico, a Europa, o Oriente Médio e a África. Voltando ao século 19, quando do lançamento da Doutrina Monroe em 1823, e a 1904, com o Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe, Trump anunciou seu Corolário.
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Muito além do petróleo, a intervenção é resposta à presença dos chamados "competidores não ocidentais" que buscam os recursos estratégicos hemisféricos (e não só o petróleo venezuelano, mas as terras raras e os minerais críticos) e a inserção de suas indústrias e atuação econômica em setores-chave como infraestrutura.
A Venezuela é um pivô para o efeito demonstrativo da contrarreação dos Estados Unidos à presença da China e de seu projeto da Iniciativa do Cinturão e da Rota (ICR) na América Latina. Ainda no campo dos poderes extrarregionais, sinaliza, à Rússia e à União Europeia, que essa é a esfera de influência dos Estados Unidos como sempre foi. É um efeito demonstrativo também à autonomia de nações hemisféricas, seja pela intersecção Hemisfério Ocidental-Indo-Pacífico em termos estatais e bilaterais, seja pelos arranjos multilaterais que trazem uma alternativa à ordem ocidental: Brics Plus, Organização de Cooperação de Xangai e agendas de Cooperação Sul-Sul entre emergentes.
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Em termos de projeções, a fala de Trump de que os Estados Unidos governarão o país até uma transição pacífica e que exercerá controle sobre as reservas de petróleo, já indica a complexidade da situação. Trump descartou a figura polêmica de María Corina Machado como futura presidente, por sua falta de legitimidade e apoio. Merece ser pontuado que a intervenção procurou assumir um caráter de operação "contra Maduro", buscando personalizar no ex-presidente os problemas da Venezuela. Em teoria, isso abriria caminho para construir um governo de coalizão no qual forças associadas à tradição do chavismo como força de movimento social-popular soberano e nacionalista, às Forças Armadas e à oposição, poderiam levar à convocação de um novo pleito eleitoral. Se essa alternativa será ou não viável, dependerá do nível de resistência soberana venezuelana e à resiliência do chavismo sem Hugo Chávez e Nicolás Maduro.
Para o Brasil, a intervenção dos Estados Unidos eleva o nível de insegurança em sua fronteira norte, podendo trazer pressões securitárias adicionais no campo migratório e do narcotráfico. O país igualmente não escapa do efeito demonstrativo do Corolário Trump para a contenção de poderes extrarregionais, como a China, o multilateralismo Sul-Sul e de nações autônomas. A reação inicial do governo foi correta, condenando as ações unilaterais e o uso da força, mantendo sua tradição diplomática.
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Quanto à oposição, repetiu-se o enredo da guerra comercial, com diversos políticos alinhando-se aos Estados Unidos, e pregando o fim do socialismo. Além das ideologias, busca-se visibilidade em momento de corrida eleitoral presidencial, explorando temas conhecidos, mas que passam uma impressão de subordinação que coloca em xeque a soberania nacional. Assim, 2026 se iniciou como terminou 2025: violento, acelerado, como parte de um ciclo de crise civilizacional e do multilateralismo tradicional, sem previsão de acabar.

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