ARTIGO

Porque os palestinos dizem não

Ao repelir o desarmamento, que resultaria na viabilidade da criação de um Estado Palestino ao lado de Israel, o Hamas continua fiel ao radicalismo negativista

Militantes do Hamas escoltam caixão de refém morto durante a guerra em Gaza        -  (crédito:  AFP)
Militantes do Hamas escoltam caixão de refém morto durante a guerra em Gaza - (crédito: AFP)

Zevi Ghivelder jornalista

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No ano que passou, Donald Trump e Benjamin Netanyahu tiveram seis encontros presenciais. No último, há pouco, Trump foi particularmente enfático na entrevista conjunta que concedeu depois da reunião. Disse que, se o Hamas não se desarmasse num breve período, conforme acordado, sofreria terríveis consequências. A irritação de Trump foi procedente, mesmo correndo o risco de ser mais uma de suas bravatas. O Hamas permanecendo armado, dois meses depois do cessar-fogo, significa o fracasso do plano de 20 pontos para Gaza apresentado por Trump e acolhido sob aplausos no Conselho de Segurança.

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Falta algum conselheiro ou diplomata experiente dizer ao presidente americano que negociar com Zelensky e Putin é muito diferente e distante de negociar com o Hamas ou qualquer outra entidade islâmica numa região onde avulta o fundamentalismo islâmico radical. 

O mundo inteiro sabe que o Hamas desarmado seria a um passo objetivo para a criação do Estado palestino e uma gloriosa consagração para Trump em seu segundo mandato. O presidente americano sabe que a criação do dito Estado esteve muito próxima de ser concretizada no final do governo do democrata Bill Clinton e, por isso, quer trazer essa conquista para o campo republicano.

Clinton foi o mediador da Cúpula de Camp David, em julho de 2000, que teve como protagonistas Ehud Barak, primeiro-ministro de Israel, e Yasser Arafat, chefe da OLP, Organização de Libertação da Palestina. Em sua autobiografia, Clinton se refere ao comportamento de Arafat durante as reuniões em Camp David de forma crítica e aponta o palestino como o principal responsável pelo fracasso das negociações. Escreve que Arafat foi incapaz de dizer sim, mesmo quando recebeu uma proposta que atendia às suas principais demandas. Barak lhe ofereceu a devolução de 96% da Cisjordânia, a totalidade da Faixa de Gaza e a capital do futuro Estado Palestino em Jerusalém Oriental. Segundo Clinton, naquele momento crucial, Arafat preferiu manter sua condição de líder de uma causa em vez de assumir a responsabilidade de governar um Estado.

Para Clinton, Arafat cometeu um "erro colossal de proporções históricas". Há 25 anos, quando fazia as malas para deixar a Casa Branca, Clinton recebeu um telefonema de despedida de Arafat, que lhe disse: "O senhor é um grande homem". Respondeu de forma desconcertante: "Eu não sou um grande homem. Sou um fracasso, e isto eu devo ao senhor".

Depois de Camp David, Arafat justificou de diversas maneiras sua atuação negativa nas negociações, até dizer a verdade numa entrevista: "Se eu aceitasse a proposta de Israel, seria assassinado pela Irmandade Muçulmana como aconteceu com Sadat".

O temor de Arafat fazia sentido. Há quase 100 anos, a Irmandade Muçulmana exerce influência, de forma clandestina, em vasta porção do planeta que se estende desde  a Argélia, no norte da África, ao Irã, ao Iraque,  até corteja o Talibã no Afeganistão. Na Faixa de Gaza, a Irmandade tem há décadas o Hamas como braço armado, situação vigente neste começo de 2026.

A ligação entre o Hamas e a Irmandade Muçulmana é histórica, religiosa e ideológica. O Hamas foi criado por membros da Irmandade em 1987, depois da Primeira Intifada. Foi por imposição da Irmandade que o Hamas assumiu, em sua Carta de Constituição, a determinação explícita da destruição de Israel. Essa almejada investida  militar teve como base o dogma que o islamismo havia sufocado o judaísmo e, portanto, uma nação judaica não tinha razão de existir.

Essa convicção está na raiz de todas as negativas palestinas para conviver com Israel. Em 2017, o Hamas emitiu um documento no qual se apresentou apenas como um movimento de libertação nacional islâmico palestino, omitindo a submissão à Irmandade. Mas, agora, ao repelir o desarmamento, que resultaria na viabilidade da criação de um Estado Palestino ao lado de Israel, o Hamas continua fiel ao radicalismo negativista. Seu vínculo ideológico com a Irmandade Muçulmana permanece intacto e inamovível.

 

 

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Por Opinião
postado em 21/01/2026 06:00
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