
MICHELLE MANZUR, diretora executiva do Leonardo da Vinci
Falar sobre a gestão de uma escola familiar é, para mim, mergulhar numa travessia que transcende a lógica dos negócios. É tocar em territórios afetivos, simbólicos e, ao mesmo tempo, profundamente estratégicos. Cresci dentro de uma escola que não nasceu apenas de um projeto pedagógico, mas de um propósito de vida. Meu pai não fundou um colégio — ele iniciou um movimento silencioso de transformação, com raízes fincadas na educação e nos sonhos de centenas de famílias.
Hoje, à frente da gestão, me vejo conduzindo algo que é ao mesmo tempo patrimônio afetivo, legado institucional e organismo vivo. E é justamente por ser vivo que exige estrutura, escuta, atualização e responsabilidade. Há um mito recorrente sobre empresas familiares: o de que são espaços improvisados, dominados pelo afeto, mas carentes de profissionalismo. O que aprendi é que esse risco existe — mas ele não é uma sentença. Pelo contrário, pode ser o ponto de partida para um modelo de gestão que una o que há de mais humano ao que há de mais técnico.
Na nossa trajetória, o compromisso com a profissionalização da gestão foi inegociável. Estruturamos comitês, implantamos governança, definimos critérios de sucessão, criamos fóruns para decisões colegiadas. E, ao fazer isso, entendemos algo essencial: a família não é o fim em si, mas sim guardiã de um propósito que precisa ser compartilhado e perpetuado. Não se trata de manter o sobrenome na liderança, mas de garantir que a alma da escola — aquilo que não cabe em estatísticas — continue vibrando no cotidiano.
E isso se revela nas pequenas experiências: no acolhimento na porta, na escuta de uma coordenadora, no compromisso ético dos professores. Quando o propósito está claro e é vivido com coerência, ele se manifesta em todos os níveis da escola, como uma cultura viva e pulsante. Gosto muito da provocação de Simon Sinek: "As pessoas não compram o que você faz, elas compram o porquê você faz". E esse "porquê" é o que estrutura nossas decisões, mesmo aquelas mais complexas.
Mas alma sem estrutura também adoece. E tradição sem inovação é um risco que nenhuma escola pode correr. O mundo mudou — e com ele, as formas de aprender, ensinar e se relacionar com o conhecimento. Por isso, criamos um comitê de inovação que atua como radar e laboratório. O que nos move não é o fetiche pela tecnologia, mas a busca genuína por formas mais potentes e significativas de aprendizagem. Inovar, para nós, é alinhar excelência acadêmica à experiência do aluno como sujeito ativo, crítico e sensível.
A escola, quando bem gerida, não é apenas um espaço de transmissão de conteúdo, mas um ecossistema formador de consciências. E isso nos impõe a responsabilidade de manter um olhar sistêmico sobre o todo: as relações entre gestão e pedagogia, entre família e instituição, entre passado e futuro. Ao longo dos anos, aprendi que a continuidade não é apenas manter-se existindo — é manter-se coerente e conectado ao que realmente importa.
Nesse sentido, liderar uma escola familiar é equilibrar tensões o tempo todo. É saber ceder espaço, compartilhar decisões, abrir-se à escuta dos diferentes atores — mesmo quando isso desafia convicções antigas. É perceber que o legado não está apenas na memória do fundador, mas na capacidade da instituição de se reinventar sem perder a essência.
Tenho convicção de que a presença ativa da família fundadora, quando exercida com ética e preparo, fortalece os vínculos da escola com sua comunidade. Em tempos de transitoriedade, escassez de vínculos e pressa por resultados imediatos, uma escola que cultiva sentido, continuidade e presença se torna ainda mais necessária. E é por isso que sigo nesse caminho, com os pés no presente, os olhos no futuro e o coração fiel ao que nos trouxe até aqui.
Por fim, ao longo desses mais de 50 anos de história, aprendi que a continuidade é tão importante quanto a inovação. E que cuidar da alma da escola é garantir que cada passo dado, por mais ousado que seja, esteja conectado com aquilo que nos trouxe até aqui. Esse equilíbrio — entre passado e futuro, entre coração e estratégia — é o que faz a gestão valer a pena. E é isso que me move, todos os dias, com a certeza de que estamos construindo algo que vai muito além de nós.
