ARTIGO

O agente secreto e os Estaduais

As 2h40 em frente à telona assistindo ao filme O agente secreto inspiram minha reflexão sobre um produto em extinção: o Campeonato Estadual

artigo opiniao marcao site marcão 2401 -  (crédito: kleber)
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Fui assistir ao filme O agente secreto. Recomendo a ida ao cinema a quem opina com base no que não viu, ouviu falar ou nos cortes das redes sociais. Nada supera a construção da opinião própria para acessar o debate com conhecimento e fortes argumentos de ataque ou defesa à obra. 

As 2h40 em frente à telona inspiram minha reflexão sobre um produto em extinção: o Campeonato Estadual. Vencedor do Globo de Ouro nas categorias de Melhor filme de língua não inglesa e Melhor ator, com Wagner Moura; e indicado ao Oscar de Melhor filme, Melhor filme internacional, Melhor ator e Melhor elenco, o longa de Kleber Mendonça Filho estrelado por Wagner Moura exibe pitadas de futebol da era em que a rivalidade local era mais relevante do que jogo do Brasileirão.

A película é ambientada na maior parte no Recife de 1977. Faz referência ao Santa Cruz, ao Sport e ao Náutico em áudios de rádio ou de tevê, no caso de uma entrevista de Nunes, o Artilheiro das Decisões, ídolo do Santa e do Flamengo; nas fantasias de criança e adultos no carnaval pernambucano; ou na promessa de Seu Alexandre, personagem interpretado por Carlos Francisco, a um colega de trabalho funcionário do Cinema São Luiz: “Se o Santa ganhar hoje, eu pago a cerveja”, brinca. 

A partida foi disputada em 27 de fevereiro de 1977. O Santa Cruz derrotou o Central por 1 x 0 no Arruda pela Taça Cidade do Recife. Mazinho balançou a rede no gol da vitória coral e quitou o juramento.

Alexandre encarna o torcedor de uma época fadada a não voltar mais. Quantas vezes você não apostou alto com o amigo da repartição em uma final de Estadual? A temporada de 1977 foi marcante no Campeonato Pernambucano e em outros tantos pelo país em um tempo no qual os torneios domésticos tinham peso de ouro. 

Sport e Náutico decidiram a Final das Finais em um jogo com duração de 158 minutos! O regulamento da decisão do Pernambucano de 1977 não previa pênaltis. Houve três prorrogações até o inesquecível gol de Mauro no título do Sport. O herói acertou a bola na rede de cabeça no oitavo minuto do terceiro tempo extra e desmaiou no gramado do Estádio Arruda.

Em 1977, os estaduais ocupavam a maior fatia do calendário. O Pernambucano terminou em 14 de outubro. O Brasileirão, chamado à época de Copa Brasil, começou dois dias depois e acabou em março de 1978 com título do São Paulo. 

Mil novecentos e setenta e sete marca o gol de Basílio na final do Paulistão contra a Ponte Preta, tirando o Corinthians da fila de 22 anos. A defesa de Mazarópi no pênalti de Tita seguida do acerto de Roberto Dinamite no título do Vasco no Carioca contra o Flamengo. Evoca Revétria, o cara do Cruzeiro contra o Atlético no Mineiro de 1977. Lembra o salto imortal de André Catimba no título do Grêmio, encerrando oito anos de hegemonia do Inter no Gaúcho.

Marcos de um Brasil engajado em deletar memórias. Que obras como O agente secreto inspire o cinema, o futebol e outras artes a seguir em campo resgatando, preservando — e até colocando o dedo na ferida de capítulos históricos do nosso país.


 

 

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MP
postado em 24/01/2026 06:00
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