Sérgio Moriconi — professor e crítico de cinema
O agente secreto, de Kleber Mendonça, acaba de receber o Globo de Ouro em duas importantes categorias, a de Melhor filme em língua não inglesa e a de Melhor ator de drama, para Wagner Moura. É um feito semelhante ao alcançado por Central do Brasil, de Walter Salles, e por Fernanda Montenegro, há exatos 27 anos. Muita gente se pergunta qual a importância disso para o cinema brasileiro. Ora, ela é enorme. Poderíamos dizer, a premiação tem o peso de um "fenemê". O que mesmo? "Fenemê!".... Aparentemente aleatória, a referência tem tudo a ver com o filme do diretor pernambucano. Um caminhão da FNM - carinhosamente chamado de "fenemê" pelos brasileiros — aparece vadiamente na cena em que um pistoleiro é contratado para matar o personagem de Wagner Moura em Recife. Curiosa a lembrança do caminhão da Fábrica Nacional de Motores, um projeto que começou ainda no governo Vargas, uma tentativa de nacionalização de parte da indústria automotiva nacional, projeto em parceria com a Alfa Romeo italiana.
O agente secreto é um filme de memória, memória da ditadura militar, mas narrado como um fio desencapado, de forma complexa, multifacetada, surpreendente. É como se cada um desses fios de história fossem alças auxiliares de uma autoestrada. Essas alças possibilitam os mais insuspeitados caminhos e atalhos da trama principal. Vejam que Marcelo (Wagner Moura), codinome de Armando na clandestinidade, é professor do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Pernambuco, responsável por uma pesquisa para a produção de um carro elétrico em associação com entidades coreanas. Marcelo está sendo perseguido porque a pesquisa que desenvolve contraria os interesses de uma elite empresarial brasileira corrupta, internacionalista e em conluio com o governo militar. Estamos — no filme — em 1977. As discussões político econômicas se imbricam e trazem muitas das questões colocadas por Kleber para a nossa contemporaneidade. Lembramos do "fenemê"!
O termo já entrou e saiu de moda (agora estaria na moda ou fora de moda?), mas não deixa de ser uma tentação chamar a construção de O agente secreto de "rizomática". Deleuze e Guattari utilizam o conceito de rizoma em várias áreas, nas artes inclusive. Ele cai como uma luva em O agente secreto. Os dois filósofos defendem a importância de pensar em termos de conexões e multiplicidades, em vez de categorias fixas e hierarquias rígidas. O filme de Kleber tem um eixo que gira em espiral (Dziga Vertov!) de forma dispersa e dissociada, onde diferentes elementos podem estar associados livremente. Kleber manifestou muitas vezes sua admiração pelo cinema de John Carpenter. Trash culto. Bacurau é um bom exemplo. O agente secreto talvez seja um exemplo melhor ainda — mais sutil e menos óbvio. Em particular, toda a sequência da "perna cabeluda", uma lenda urbana incorporada à narrativa. Há muitas outras. Ou trash ou mezzo trash: toda a parte inicial no posto de gasolina e as inserções de planos do carnaval — as fantasias aterradoras dos foliões!
É o Brasil de 1977, não devemos nos esquecer. Época da ditadura militar. Armando/Marcelo (Wagner Moura) encontra um cadáver em um posto de gasolina. O corpo está coberto com jornais e papelão. As moscas rondam o corpo putrefato ignorado pelo frentista e pelos policiais. A atmosfera lúgubre e sinistra está no coração do tratamento do filme: a situação, banal, tétrica, não tem nenhuma relação com o nosso misterioso Armando. Ou será que tem? Sua história e destino, nunca verbalizados, vamos descobrindo aos poucos. A já mencionada perna cabeluda surge primeiro na boca de um tubarão. A umbrosa imagem nos faz especular sobre a quem pertenceria. A polícia caça a outra perna e se aflige com a possibilidade desse naco dos membros dar pistas sobre a identificação do cadáver.
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Os desaparecidos devem permanecer desaparecidos e inidentificáveis. O roteiro é claramente concebido e calibrado entre um thriller convencional, um thriller político e uma história de espionagem, de uma forma que é, ao mesmo tempo, fiel ao gênero e eficaz, mas que aluda a um realismo histórico. Caberia perguntar se O agente secreto será inteiramente compreendido por plateias pelo mundo afora dadas as inúmeras referências a aspectos singulares da história política do Brasil. Pelo jeito (e pelos prêmios mundo afora), sim. A aproximação com um cinema de gênero ajuda a desconfiar de qual seja o seu sentido essencial. A questão já referida da memória está magistralmente expressa no salto histórico da sequência final. No Brasil, O agente secreto traz ar novo e fresco ao cinema político nacional e deixa a inquietação de que uma mosca volte a pousar na nossa sopa. Que venha o Oscar!
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