ARTIGO

Bora filmar, galera!

Que a gente filme com o que tiver. Que a gente filme porque precisa. Que a gente filme porque lembrar também é uma forma de lutar.

Gravação de O agente secreto: filmar é um gesto de tomada de palavra  -  (crédito:  Victor Jucá/ Divulgação )
Gravação de O agente secreto: filmar é um gesto de tomada de palavra - (crédito: Victor Jucá/ Divulgação )

Rose May Carneiroprofessora doutora da Faculdade de Comunicação (UnB), coordenadora de extensão da FAC,  membro do Gecoms (CNPq), líder do projeto @cine.pipocanorole

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Houve um tempo em que o cinema brasileiro parecia caminhar com os bolsos vazios e o coração cheio. Um tempo em que filmar significava insistir, quase teimar, contra a escassez de recursos, os cortes sucessivos, o descrédito sistemático e o riso enviesado de quem sempre achou que nossa cultura precisava pedir licença para existir. Esse tempo não desapareceu por completo, mas algo se deslocou. Mudou porque seguimos. Mudou porque insistimos. Mudou porque nunca abrimos mão de contar histórias, mesmo quando tudo conspirava contra a permanência delas.

Quando O agente secreto foi premiado no Globo de Ouro, não foi apenas um filme que subiu ao palco. Subiu junto uma tradição inteira de imagens feitas à revelia do apagamento. Subiram os cineastas que filmaram sem garantias, os coletivos que sustentaram salas improvisadas, os cineclubes que resistiram ao abandono, os estudantes que aprenderam a filmar antes mesmo de aprender a pedir permissão. Subiu um país que, mesmo ferido, segue imaginando.

Há vitórias que não cabem no troféu. Essa é uma delas. Porque ela devolve ao cinema brasileiro algo essencial: o direito de sonhar em voz alta, sem constrangimento, sem diminuição, sem a obrigação de caber em expectativas externas. Sonhar, aqui, não é fuga. É projeto. É método. É sobrevivência.

As palavras ditas naquele palco importam. Importam porque não foram protocolares, nem domesticadas. Quando Kleber Mendonça Filho convoca jovens a filmarem com o que tiverem à mão, ele não fala apenas de técnica ou de acesso. Ele fala de autorização simbólica. Diz, de forma direta, que ninguém precisa esperar o cenário ideal para começar. O cinema pode nascer do improviso, do desejo, da urgência. Pode nascer no quarto apertado, no quintal, na rua, na periferia, no interior, no celular que cabe no bolso. Essa afirmação tem peso num país que ensinou gerações inteiras a esperar demais.

Filmar é um gesto de tomada de palavra. É dizer: eu vi, eu vivi, eu lembro. É disputar o mundo no campo das imagens, onde tantas narrativas foram historicamente interditadas.

Wagner Moura, ao lembrar que o cinema reativa a memória de um povo, toca num ponto sensível da nossa história. O Brasil convive com silêncios fabricados, com versões higienizadas, com esquecimentos convenientes. O cinema, quando se compromete com a memória, não oferece conforto. Ele provoca, tensiona, pergunta. Obriga a olhar para aquilo que tentaram empurrar para fora do enquadramento: a violência de Estado, as lutas populares, os corpos sacrificados em nome do progresso, as vidas que não entraram nos livros.

Nossa história pede cinema. Pede imagens que enfrentem a ditadura civil-militar, a Guerrilha do Araguaia, o Massacre do Carandiru. Pede olhares atentos sobre Canudos, o Contestado, a Revolta da Chibata. Pede filmes sobre os povos indígenas que seguem lutando por terra e existência, sobre as mulheres que desafiaram a asfixia patriarcal, sobre Brasília e seus vazios planejados, sobre as periferias que sustentam as cidades, sobre a epidemia de HIV, sobre os ataques recentes à democracia. Nada disso é passado encerrado. Tudo isso atravessa o presente.

Falo também desde o meu lugar, que nunca é apenas individual. Como professora e pesquisadora do curso de audiovisual da Universidade de Brasília (UnB), vejo diariamente jovens que chegam carregando histórias ainda sem forma, mas cheias de mundo. A UnB nasceu do sonho e da ruptura. Sempre foi espaço de risco, pensamento crítico e liberdade criativa. Formar realizadores neste país é um gesto político profundo. É apostar que o cinema segue como linguagem de transformação, campo de disputa simbólica e possibilidade concreta de futuro.

Por isso, essa vitória não encerra nada. Ela abre. Abre caminhos, abre perguntas, abre coragem. Que alcance estudantes que duvidam, coletivos que resistem, professoras que insistem, cineclubes que seguem vivos, sonhos que ainda não encontraram enquadramento.

Que a gente filme com o que tiver. Que a gente filme porque precisa. Que a gente filme porque lembrar também é uma forma de lutar. 

Viva o cinema brasileiro. Viva quem imagina quando tudo parece estreito demais. E, como a história sussurra, e agora exige: bora filmar, galera!

 

 

  • Google Discover Icon
Por Opinião
postado em 13/01/2026 06:00
x