ARTIGO

Cinema brasileiro e a soberania nacional

É essencial reconhecer o cinema brasileiro como parte essencial de nossa identidade cultural e da soberania nacional, ampliando os vetores da economia, da educação, do diálogo social e da memória histórica

Renato Barbieri cineasta, diretor de Tesouro Natterer, Pureza, Atlântico negro — na rota dos orixás e A invenção de Brasília

A vitória recente do cinema brasileiro em palcos internacionais, com o Globo de Ouro alçando nosso cinema em posição de destaque, sinaliza um momento histórico de afirmação cultural. O reconhecimento de O agente secreto, premiado como Melhor filme em língua estrangeira, e a coroação de Wagner Moura como Melhor ator em drama celebram a força do nosso cinema e elevam o conjunto da macrorregião CONNE (Centro-Oeste, Norte e Nordeste) como novo eixo criativo do Brasil. 

O cinema brasileiro vive um momento de ouro. Se no ano passado Ainda estou aqui levou Fernanda Torres a ganhar o Globo de Ouro de Melhor atriz e o Oscar de Melhor filme internacional (ambos inéditos), em 2026 o Brasil repete a dose com O agente secreto. Esse reconhecimento internacional reforça uma nova agenda estética e narrativa. O agente secreto, ao conquistar o Globo de Ouro, consolida o cinema brasileiro no centro de um circuito global que historicamente privilegiava produções de grandes países industrializados e que, em anos recentes, México e Coreia do Sul começaram a mudar.

O resultado imediato é o aumento da curiosidade do público internacional sobre as nossas produções, aguçando o olhar dos grandes festivais, mostras e plataformas de streaming. No mercado interno, é evidente a alta de bilheteria que os filmes brasileiros vem despertando junto ao público, antes mais afeito às comédias, e que, desde o período pós-pandemia, amplia sua aderência ao gênero drama, refletindo o ressurgimento do interesse pelo cinema nacional.

Esse novo eixo regional criativo não apenas diversifica a oferta de filmes, mas também fortalece uma identidade visual e temática própria, capaz de dialogar com o público global sem perder as raízes brasileiras. Por isso, as políticas públicas de incentivo exigem a regulamentação das plataformas de streaming no território nacional, de modo a assegurar conteúdo nacional suficiente, com qualidade artística e mecanismos de transparência para quotas de produção local, dados de audiência e condições justas de remuneração para toda a cadeia produtiva. A sustentação de um cinema competitivo depende de uma arquitetura de políticas públicas robusta.

É essencial reconhecer o cinema brasileiro como parte essencial de nossa identidade cultural e da soberania nacional, ampliando os vetores da economia, da educação, do diálogo social e da memória histórica. É chegada a hora de nos assumirmos como nação brasileira, de dar uma formação de qualidade para todo o povo brasileiro como cidadãos e cidadãs de primeira linha, sem qualquer discriminação ou racismo. O Brasil tem um recado a dar ao mundo, isso é inescapável. E o cinema brasileiro deve ter seu lugar garantido nesse grande concerto das coisas.

O cinema brasileiro está atravessando um momento de afirmação e projeção internacional que pode (e deve) ser aproveitado como alavanca de soberania cultural e econômica. O reconhecimento técnico, criativo e comercial que vem sendo conquistado indica que a indústria audiovisual não é apenas um entretenimento, mas um ativo estratégico para o país. 

A defesa de políticas públicas consistentes, com foco na diversidade regional, na formação de mão de obra qualificada e na regulação equilibrada das plataformas de streaming, é essencial para manter essa trajetória. A sociedade civil, a indústria e o governo precisam atuar de forma colaborativa, reconhecendo que o cinema não é apenas uma vitrine, mas um campo de construção de identidade nacional, de diálogo com o mundo e de oportunidades de desenvolvimento humano e econômico.

Sejamos nacionalistas na prática, e não apenas em discurso, fortalecendo ações que consolidem a produção brasileira como elo vital de soberania cultural, capaz de dizer ao mundo quem somos, de onde viemos e para onde vamos.

 

 

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